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23 de julho de 2015

Infância que a memória retém

A Margarida publicou uma foto no IG que me levou de imediato à infância.
Era uma imagem do pai dela a regar a horta, com a ajuda do filho dela, tal e qual como vi o meu pai fazer dezenas e dezenas de vezes, até registar nesta minha moleirinha os princípios da rega por gravidade, de como se abriam e fechavam os regos, para a água passar e chegar a todas as plantas. 
Se hoje tivesse que regar uma horta usando este método, acho que me sinto capaz o suficiente para manejar a enxada e abrir e fechar regos.
Quando vejo imagens deste tipo, não só sou acometida duma onda saudosista fortíssima, como fico sempre com aquele sentimento de angústia profundo por não poder proporcionar este tipo de vivências aos meus filhos, apesar de ter terras que posso e devia estar a cultivar!
Às vezes penso que estou apenas a projectar nos meus filhos os meus desejos, a querer repetir neles as mesmas vivências da minha infância. E resisto a fazer isso, porque a minha infãncia foi duma forma e a deles não é e nem tem que ser igual à minha. 
Mas não posso deixar de lastimar de alguma forma o facto de não lhes estar a proporcionar vivências felizes como estas, de vida no campo, com saberes ancestrais, e pelas quais hoje em dia me sinto privilegiada por ter tido. De contacto com a natureza, de aprendizagem sobre de onde vêm os vegetais, como nascem e crescem antes de serem colhidos e alinhados numa banca do mercado ou do hiper.
Acho que este tipo de experiências são inestimáveis e ajudam a moldar o nosso ser. Pelo menos falo por mim! Além de ter tido uma infância absolutamente feliz, pela liberdade que o campo me trouxe, aprendi coisas das quais me orgulho muito de saber e que contribuíram largamente para ser quem hoje sou!

30 de abril de 2015

Trocas e papeladas (post claramente inspirado na Amigo Imaginário)

Tenho a vaga ideia de que tudo começou com o Volodymyr, um rapaz ucraniano que partiu um braço e precisou que alguém lhe preenchesse um requerimento à Segurança Social, porque ele não percebia o português o suficiente para o fazer.
Quando ele me pediu, com ar mesmo muito envergonhado, nem hesitei e em 10 minutos tinha o formulário preenchido. O rapaz, servente de pedreiro na obra onde eu era a "sinhóra da segurança", desfez-se em agradecimentos e nunca mais deixou de o fazer enquanto a obra durou.

Depois foi o Cláudio, um jovem brasileiro, muito trabalhador e humilde, que me pediu se eu lhe podia preencher os papeis para ele entregar no consulado brasileiro, para concluir o processo de adopção de uma menina, que ele iniciara no Nordeste do Brasil, antes de emigrar e vir para Portugal.
Quando disse que o faria sem qualquer problema, ele questionou-me:

- Ocê tem família de emigrantes?!
Respondi-lhe que não, e achei estranha a pergunta.
Ele explicou que achara que a minha gentileza poderia ser motivada por isso.
Ao que eu respondi que isso tinha pouco peso, porque eu estava disposta a ajudar quem me pedisse ajuda, caso a pudesse facultar, independentemente da nacionalidade.
Ele, não só se desfez em agradecimentos, como rematou:
- Ocê é gente boa! Muito boa!
E quando a menina que ele adoptara e a esposa finalmente se reuniram com ele cá em Portugal, ele não hesitou em vir propositadamente ao meu contentor partilhar essa tremenda alegria comigo. E eu fiquei genuinamente feliz por ele!

Não demorou muito tempo a espalhar-se pela obra que a "sinhora da segurança" ajudava a preencher papeladas e burocracias. Um dia, confundiram a estagiária da fiscalização comigo e perguntaram-lhe se ela podia ajudar a preencher a declaração do IRS.

Já o Murat, um uzbeque cinquentão, bem disposto, tagarela e brincalhão, veio pedir-me se podia ajudá-lo com o preenchimento do requerimento para autorização de reagrupamento familiar. O desejo dele de trazer a família dele para cá era enorme, queria a esposa e os seus quatro filhos, todos nascidos nas primeiras semanas de Setembro, a viver consigo cá.
Costumava brincar com ele, enquanto preenchia os papéis, que o mês de Setembro era um mês tramado, com tanta prenda e festa de aniversário a acontecer, já que ele próprio também tinha nascido nesse mês.

Três vezes me pediu que o ajudasse, e três vezes lhe preenchi o requerimento, ao qual ele recebia sempre a mesma resposta negativa: os seus rendimentos ficavam aquém do estabelecido para ele poder trazer a sua família para cá.

Enquanto trabalhámos nas mesmas obras, todos os dias 8 de Março, me oferecia uma flor ou uma planta e no Natal, comprava sempre uma caixa de bombons e uma garrafa de champanhe com caracteres russos para me oferecer.

Também ao Omar, um jovem marroquino, tentei ajudar, sem grande sucesso, a desbloquear uma vigarice do patrão com as declarações de remunerações para a Segurança Social. O seu semblante habitualmente desconfiado com tudo e com todos, suavizava-se quando eu estava presente e nas últimas obras onde nos encontramos, ele contou-me do seu pequeno filho e de como tinha ido a Marrocos casar.

A todos eles ajudei da melhor forma que pude e sabia.
E mesmo assim, às vezes penso que o que fiz foi tão pouco...

5 de fevereiro de 2014

Pérolas de sabedoria popular

Era comum a minha mãe guardar pequenos pedaços de papel, fossem eles receitas de cozinha que ela queria experimentar, um recorte de jornal, uma oração que ela queria decorar ou uma página de um almanaque com informação que ela entendeu pertinente.

Cresci a encontrar destes pequenos pedaços de papel dentro das gavetas da minha mãe e guardo ainda hoje, as receitas dactilografadas ou manuscritas na sua linda caligrafia, rabiscadas à pressa numa folha de um bloco Castelo A5...

Já o meu pai guardou alguns almanaques completos, alguns com datas de 1954 ou 1956 e eu adorava folheá-los quando era miúda. Encontrava lá de tudo, desde mezinhas, a orações, pequenos apontamentos da história de Portugal, efemérides, orientações agrícolas, anedotas e horóscopos e claro, pérolas de sabedoria popular.

Descobri este recorte já surrado e remendado com fita-cola no meio das coisas da minha mãe e guardei-o num dos meus muitos cadernos. Há pouco tempo encontrei-o e sorri por tê-lo guardado, porque pérolas destas já são difíceis de encontrar...

Só tenho pena de não saber de que ano é.


Analisando bem esta lista, acho que tenho mesmo que trabalhar no ponto n.º 4...

10 de dezembro de 2013

Olhos azuis que não vêem

Nasceu em 1923.

A Margarida (ou Margaridinha como eu lhe chamo) tem 90 anos. Pensava eu que eram ainda 88...

Tem o cabelo todo branco como a neve quase desde que a conheço, desde que era miúda e adorava passar as tardes na casa dela. É a única mulher da minha família que possui olhos azuis. Dum azul água, a igualar as águas do mar duma qualquer ilha paradisíaca da Polinésia, Bora-Bora ou coisa assim.

A Margaridinha é uma mulher de estatura pequenina, tal como era o meu avô Manuel, o seu irmão preferido. Andavam sempre juntos, eram unha com carne. Da irmandade de nove, a Margaridinha é a minha tia-avó preferida! É aquela que escolhi como minha "avó", porque perdi as minhas muito cedo.

Levanta-se ao nascer do sol e deita-se "com as galinhas". Toda a vida foi assim!
Sempre que a visito, há sempre um biscoito ou uma bolacha à minha espera, e longe vão os dias em que ia a casa dela lanchar pão com marmelada (a única que alguma vez gostei!) e fazia os melhores fritos que alguma vez comi!
 
A Margaridinha tem 90 anos e sorri quando ouve a minha voz e chama pelo meu nome com um tom carinhoso que não conheço a mais ninguém. 

A Margaridinha caminha em torno da sua casa, de onde se recusa a sair, com a ajuda dum bordão. Porque ela não vê... os seus olhos azuis de água do mar das ilhas polinésias mexem-se mas não conseguem ver... porque a diabetes deu cabo deles.
A Margaridinha mexe os seus olhos azuis, mas não consegue ver, porque apenas consegue vislumbrar sombras... 
Nunca se esquece do meu aniversário, e engata sempre alguém para marcar os números do meu telemóvel no seu telefone fixo, porque não consegue ver os números no teclado... E eu sorrio sempre ouço a sua voz do outro lado da linha a dar-me os parabéns!

Porque a Margaridinha é a minha "velhota" de olhos azuis água do mar e cabelos brancos como a neve, que desde os seus 80 anos diz que já tem "avondo" de viver, que são já demasiados anos para cá andar, e que pergunta sempre retoricamente "o que é eu ainda ando cá fazendo?!"

Ao que eu respondo sempre da mesma forma: "deixe-se estar por cá mais uns anos. Não se vá embora já!"

26 de setembro de 2013

Lar, doce lar

Lembro-me que mudámos para o apartamento no início de Dezembro, tinha eu os meus quatro anos acabados de completar.
Recordo-me da tarde em que a minha mãe me disse "escolhe lá qual é que queres que seja o teu quarto!" e eu escolhi instintivamente o que fica virado a nascente, tal como a porta de entrada do prédio.

Foi ali que o meu pai montou a cama que iria substituir a minha cama de grades, uma cama de casal só para mim! Com a cómoda e um espelho a condizer, e a cabeceira da cama cheia de prateleiras e as mesas de cabeceira embutidas, como era moda no início dos anos 80.

Adorava andar descalça na alcatifa cinzenta do meu quarto, mas detestava a vermelha que atapetava a sala e o corredor.

Tive sempre medo de entrar no quarto "onde ninguém dorme", porque durante meses a fio acreditava que existiam monstros debaixo da cama. Mas sabia que era no guarda-fatos desse quarto que a minha mãe escondia as minhas prendas de Natal e isso despertava em mim o espírito de aventura.

Com o passar dos anos, eu fui crescendo e a casa envelhecendo e degradando-se.

Ali vivi momentos felizes com os meus pais, e onde vivi também os mais tenebrosos, principalmente os últimos meses de vida da minha mãe.

Era o meu porto seguro quando vinha da faculdade, a cada quinzena. Revia o meu pai, e retornava ao meu quarto, ainda com o poster gigante do Danças com Lobos a orlar a parede.
No roupeiro, permanecia ainda pendurado o meu vestido de baptizado, o vestido de casamento da minha mãe e um vestido roxo dela com decote em V e pregas largas na saia, feito com cetim bordado que um ex-namorado lhe trouxera de Goa.

Foi dali que saí para o meu apartamento. Deixei alguns livros nas prateleiras, bibelots oferecidos pelas tias e primas e três ou quatro peluches. E o baú trabalhado com cenários japoneses, contendo todo o enxoval que a minha foi reunindo ao longo dos anos...

Foi naquele apartamento que o meu pai viveu 14 anos de solidão, apesar das minhas visitas frequentes.

Quando ele faleceu, foi ali que chorei enquanto separava as suas roupas e pertences.
Durante 18 meses, perdi o chão e fiquei sem saber o que fazer ao apartamento onde vivi mais de metade da minha vida...

Foi renitente que o esvaziei para recuperar... as obras de reparação/recuperação foram um martírio que se prolongou por demasiados meses... e eu continuei sem grande noção do que fazer...


Mobilei-o, decorei-o minimamente e pus-lhe cortinados escolhidos a gosto, como se fossem para mim.

Hoje entreguei as chaves da porta, da caixa do correio e da porta de entrada a uma ex-vizinha a quem o decidi arrendar.

Não sem antes voltar a entrar e olhar em volta.
O apartamento onde cresci, que está de cara lavada e não tem qualquer resquício do que foi quando ali vivi, à excepção das divisões e compartimentos... 

Lentamente, algumas coisas começam a definir-se e parece que tudo se vai encaixando nos seus lugares...

27 de agosto de 2013

O "Gama"

Costumava vê-lo em diversos locais da cidade.
Eu e os meus colegas costumávamos comentar as semelhanças físicas com Karl Marx, mas numa versão talvez mais jovem.

Por vezes questionava-me quem seria, porque era habitual ele estar sempre sozinho. Era uma figura um tanto solitária e parecia haver uma qualquer tristeza no seu semblante.

Um certo dia, ao final da tarde, já naquele lusco-fusco da noite prestes a cair, vi-me sozinha na paragem do trolley n.º 3 que saía de Santo António dos Olivais, apenas com ele por companhia.

Trocámos olhares. A sua barba grisalha e farta dava-lhe um ar sombrio àquela hora... senti um certo arrepio, uma apreensão inexplicável ao de leve.

Até que ele tomou a iniciativa e encetou uma qualquer conversa de circunstância.

O meu ser preconceituoso e pejado de julgamento de valor imediatamente gritou em silêncio: "mais um dos maluquinhos que povoam a cidade de Coimbra."

Esgotada a conversa de circunstância, apresentou-se:

- Olá eu sou o Gama.

Os olhos dele sorriram e a minha apreensão como que se suavizou...

Nos dez minutos em que nos vimos ali parados, aguardando o n.º 3, o Gama contou-me resumidamente que era um ser solitário, porque a vida dele era difícil mas que não se sentia bem com a solidão.

O seu filho de 19 anos sofria de esquizofrenia e nos surtos mais intensos, tentava partir para a agressão física, tendo mesmo empunhado uma faca de cozinha contra a mãe. Admitiu que a esposa tinha maior capacidade para lidar com a situação do que ele... ele preferia sair de casa, mesmo que sem destino.

Fui-me apercebendo que o Gama era apenas e só um homem um tanto amargurado pelo desenrolar do destino do seu filho e que para fugir àquela realidade procurava desesperadamente a companhia alheia, de estranhos, de conhecidos, de quem se apresentasse disponível para o ouvir. 

Essa necessidade parecia acentuar-se particularmente nos períodos em que o filho se encontrava mais instável...

Encontrei o Gama muitas mais vezes ao longo do meu percurso académico, quase invariavelmente no Tropical, no Cartola ou no bar da Associação Académica, onde os estudantes se costumavam concentrar, sedento de companhia com quem pudesse meter conversa e falar de política, história, arte, o que fosse.

Sentir-se incluído em debates, principalmente com os muitos estudantes, que o estimulassem mentalmente fazia-o sorrir, parecia que os olhos brilhavam e o rosto iluminava-se.

No fundo, o Gama só queria alguém com quem pudesse conversar e talvez, quem sabe, abstrair-se da doença do filho.

Desde que terminei a licenciatura nunca mais o vi.

Mas às vezes lembro-me do Gama, que além de ser muito parecido com o filósofo, também gostava de filosofar. 
Especialmente acompanhado...

24 de agosto de 2013

Sons que me levam a lugares

Os meus anos de faculdade foram excelentes, memoráveis e dos quais guardo essencialmente as amizades que durarão sempre, mesmo que estejamos todos espalhados "por esse mundo fora" (sim, uma delas está em Hong Kong) e o quanto cresci como pessoa, no quanto alarguei horizontes sobre as pessoas, o mundo e me auto-conheci!

Uma das recordações maiores que tenho é a de uma série de músicas que a minha colega de casa, a Paula, ouvia até à exaustão, diversas vezes ao dia, dias consecutivos, por períodos de dois ou três meses. Até que passava a outra música, pela qual ficasse obcecada, e começava tudo de novo! Eu e a outra colega, a Cristina, a princípio estranhámos, depois entranhamos... 

Hoje em dia, esse lote de músicas com que a Paula nos foi "torturando" são parte intrínseca de mim e nas raras ocasiões em que as ouço inusitadamente em qualquer lado, é como se regressasse aos anos entre 1997 e 2000... se existem viagens no tempo, esta é certamente umas das formas!

21 de junho de 2013

Onde fica a curva do caminho da vinha?...

Era já tempo de regressar, de voltar a percorrer os caminhos de outros tempos.
Era o tempo de palmilhar as veredas, para reconhecer os terrenos que me deixaram de herança, procurar os marcos e perceber as extremas que há mais de vinte anos o meu avô Manuel me tinha explicado, num dos muitos passeios em que gostava de o acompanhar.

Foi chegado o tempo de perceber o porquê de tanta curiosidade e procura alheia pelos recursos naturais renováveis que jazem nessas terras que o meu avô tratou décadas a fio. Perceber que pequena riqueza é esta que todos invejam e cobiçam e da qual alguns pretendem apoderar-se, com ou sem prévio consentimento.

Avistei a pequena planície onde na minha infância tanta vez fui levar a enfusa de água e a marmita de alumínio com o almoço, a quem já ceifava desde horas matutinas. Lembro-me da cor amarela e da textura àspera do restolho, na qual mesmo assim insistia em me sentar, enquanto via com os meus olhos de menina o meu avô e as minhas tias-avós desferirem golpes de foice sobre a cevada e o centeio.
Lembro-me de brincar na ribeira que flanqueava o terreno e passar para o outro lado. Seguir pelo caminho junto à vinha, delimitado por marmeleiros que forneciam à minha mãe matéria prima para marmelada que dava para seis meses em cada ano. Lembro-me que do outro lado da vereda havia uma ameixeira Santa Rosa, as ameixas preferidas da minha mãe. Recordo as carreiras de videiras perfeitamente alinhadas e dos dias de vindima, em Setembro, onde toda a família se reunia e apesar do trabalho árduo, tudo parecia uma festa de fim de verão.

Ainda recordo a fileira de oliveiras alinhadas à ribeira do Vale Marmeleiros, e ouvia o meu avô relatar orgulhosamente que nos tempos da II Guerra, produziam cerca de 250 litros de azeite, mas que infelizmente eram entregues na quase totalidade ao Estado Novo, que o exigia para o "esforço de guerra".

Mas o regresso foi estranho... passando a ribeira, só se reconhecia apenas uns cinco metros do antigo caminho da vinha e a curva que descrevia mais à frente já nem se vislumbrava. No que outrora era a curva do caminho erguem-se agora três jovens sobreiros que necessitam de ser "amansados"... Dos marmeleiros resta apenas um, e as ameixeiras e o damasqueiro desapareceram sem rasto.

As antigas videiras, que eu sabia terem secado há mais de 15 anos, porque o meu pai deixou de cuidar delas, deixaram apenas alguns resquícios, uma delas emaranhada num dos jovens sobreiros.

A passagem do caminho para o poço é agora impossível, porque se cobre de matagal e silvados maiores que eu.

A fileira de oliveiras desapareceu e resta apenas uma, o que me deixou desorientada por completo... perdida sem conseguir vislumbrar as orientações que o meu avô me deu...
Nasceram acácias enormes, de troncos da espessura da minha cintura junto ao antigo campo de cevada e centeio.

Olho à minha volta e sinto um misto de tristeza, nostalgia e raiva comigo mesma...

22 de maio de 2013

Põe a tua mão na minha



Eu sempre conheci as mãos do meu pai.
Eu gostava de comparar as minhas mãos pequeninas e delicadas de menina pequena com as dele. Os meus dedos finos e pequeninos contrastavam com as suas palmas grossas e arredondas, os seus dedos grossos e fortes e as suas unhas perfeitas.
Por comparar o tamanho passei a conhecer-lhe os traços das palmas, as cicatrizes das costas das mãos, fruto do trabalho árduo de manusear a enxada para modelar a terra e fazer nascer e crescer legumes e algumas frutas.
O meu pai ria-se com aquele sorriso enorme de gosto, de ver-me admirar as suas mãos. Depois pegava nas minhas e dizia que pareciam a cópia genética das mãos da sua mãe, a avó Inácia.

Hoje em dia, percebo que as minhas mãos estão cada vez mais parecidas com as suas, mas já não posso comparar...

Gosto de comparar as tuas mãos pequeninas, mas agora a minha é a maior.
Estou certa que não será sempre assim!
Adoro a suavidade da tua pele e os teus dedos pequeninos, que adoram apertar-me o nariz e as bochechas.
As tuas mãos são diferentes das minhas, e são diferentes das do teu avô Abel.
As tuas mãos são as tuas.
Eu hei-de continuar a compará-las com as minhas, para conhecer os seus traços.

17 de maio de 2013

Já que a Primavera foi para parte incerta...

Eu cresci metade na cidade, metade no campo.
Eu cresci metade no campo a brincar com as flores campestres.
Eu cresci a fazer colares e pulseiras com flores, a beber o doce néctar das flores das palmas de Santa Rita, a ficar com os dedos peganhentos do crude do "mato estêva", a despir os "rabos de coelho" das suas sementes, a ver as pêras crescer na árvore... a comer erva azeda e deitar-me nos campos e fazer "anjos", como se fosse na neve... de correr pelos campos e olhar para trás para ver o rasto que tinha deixado. Eu cresci a brincar debaixo da daroeira que cresceu de arbusto e se fez árvore robusta, que segurava o baloiço artesanal de contraplacado marítimo e corda de sisal que o meu avô Manuel me fez!

Eu cresci metade no campo a ver a Primavera despontar até mostrar o seu esplendor.

Agora que sou crescida, por vezes passo nos campos carregados de flores e sinto uma vontade urgente de parar o carro e sair a correr pelos campos, deixando o rasto e deitar-me a fazer anjos no meio da erva!


















9 de novembro de 2012

Muro de Berlim

Hoje assinala-se o aniversário da Queda do Muro de Berlim. Nunca mais esquecerei este dia, sei que me ficou gravado na memória o arrepio que senti quando vi as imagnes na velhinha Körting a preto e branco.
Senti verdadeiramente, do alto dos meus 11 anos, que estava a assistir a um momento histórico.
E estava longe sequer de imaginar que anos mais tarde iria dissecar este acontecimento na licenciatura em Relações Internacionais. Que mais tarde iria compreender bem melhor e na sua real dimensão o que verdadeiramente mudou com a queda daquele muro.
Este acontecimento é tão vivido e marcante na minha memória que eu ainda me recordo de ter escrito no meu diário neste dia o seguinte: "Hoje foi o dia em que caiu o Muro de Berlim e terminou a Guerra Fria."
Mal sabia eu que iria ser o redesenhar do mundo como o conhecíamos até então, de todos os pontos de vista: económico, financeiro, social, territorial...
Passados estes anos todos, as fronteiras físicas têm pouca força perante os fluxos económico-financeiros e não haverá muro nenhum que contenha esta crise e a impeça de continuar a alastrar a todos os países, de uma forma ou de outra. Estes são tempos históricos, que virão daqui por uns anos nos manuais de História, que leccionam nas escolas.

2 de novembro de 2012

Filho de peixe, peixinho é

Não é de espantar que o meu filho goste de histórias ao deitar.
Quando era miúda também eu gostava.

As minhas preferidas eram as da Colecção Formiguinha.
Fiz a minha mãe ler algumas delas até à exaustão.

Há uns tempos reencontrei-as no fundo duma gaveta, em casa dos meus pais. Foi como encontrar um tesouro!



17 de agosto de 2012

Cartas de amor

Quem nunca as recebeu?
Quem nunca as escreveu?

Há quase um ano, na "operação de limpeza" à casa do meu pai, fui encontrar uma carta que a minha mãe escreveu ao meu pai, quando ele esteve em Setúbal a tirar a carta de condução de pesados.

Desde então ando com essa carta na minha carteira, como se fosse uma espécie de amuleto...
 
Os meus pais já contavam com dois anos de casamento nessa altura, mas o conteúdo da carta, não podia ser mais delicioso e o exemplo daquilo que era o relacionamento dos meus pais, enquanto casal.
Fala de coisas quotidianas, sem grandes floreados ou palavras dengosas. 
Fala da vida diária no campo, dos borregos que nasceram e de combinações para ir à feira no domingo seguinte. Fala dos amigos e familiares e do dia-a-dia da minha mãe, sem a presença do meu pai.

Era um amor sereno, como sempre conheci aos meus pais.
Se sempre acreditei em amores para sempre, daqueles que só a morte separa, foi porque sempre vi isso nos meus pais e pude testemunhar, em primeira mão, que sim é possível amar alguém por anos e décadas. 
Sem grandes discussões, sem grandes desavenças, uma união carregada de respeito mútuo, de amor e carinho genuínos.



2 de agosto de 2012

Coisas do antigamente

Alpendre
Na visita que fiz à Quinta Pedagógica com o Falipe, fui encontrar um pequeno espaço de exposição, dedicado às ferramentas, utensílios, mobílias e objectos comuns de se encontrar numa qualquer quinta ou casa rural.
Muito bem organizado, de forma simples e ilustrado por fotografias de pessoas trabalhando em artes e ofícios de outrora, alguns deles completamente à beira de desaparecerem irremediavelmente, porque poucos foram instruídos nestas artes...
Assim que entrei neste espaço foi como se tivesse sido sugada pelo passado e transportada de imediato a uma realidade que conheci tão bem, na casa do meu avô Manuel.
Dei por mim a olhar para as ferramentas e utensílios e a reconhecer de imediato cada um deles, sabendo exactamente para que serviam e sem que precisasse recorrer às legendas que haviam disponíveis.
Quase que senti um baque na alma quando vi gorpelhas, albardas, foices, pás de forno, forquilhas, ferros de engomar, ratoeiras artesanais, chocalhos, moldes para sapatos, joeiros e peneiras.
O baque maior senti quando vi os bornais... Havia anos que não via disso em lado nenhum. E lembrei-me do exacto lugar em que o meu avô pendurava os bornais, os arreios e a albarda da burra e a gorpelha da palha. Lembrei-me do lugar das enxadas, das foices, da forquilha e meio litro de latão com que media a ração de milho para dar aos animais.
Lembrei-me das paredes em taipa e pedra, da porta do palheiro escavada em arco com uma colher de pedreiro, dos barrotes de madeira e das manjedouras mal enjorcadas onde a burra comia a palha. Lembrei-me das lajes em pedra que ornamentavam o chão de terra e do prego na parede, defronte das manjedouras, onde se penduravam os chocalhos e os sininhos dos arreios da burra e que eu adorava fazer soar.
Recordei-me do meu avô a contar as noites frias em que teve que dormir no palheiro e apenas com a palha dos fardos para servir de manta para se aquecer. 
Por uns momentos, foi como se tivesse aberto uma porta para os tempos da minha infância e tivesse voltado a entrar naquelas ramadas que permanecem encerradas e cujos reis são ratazanas de meio metro.
Reencontrei um carro de besta, bem recuperado e lembrei-me de todas as vezes em que quis andar no carro do meu tio Zé Camacho!

gorpelha, barris, enfusa, panelas de banha, trempe de ferro, sacos e abanicos de palha

lanterna, ratoeira

bornais e arreios

lanternas, ferros de engomar, e ratoeira
carro de besta

25 de julho de 2012

Casas de portas abertas

parte antiga da vila de Aljezur - retirado da net

Quando era miúda adorava ir com a minha mãe à vila, especialmente se a deslocação fosse à zona da vila antiga.
Gostava de andar pelas ruas estreitas e íngremes.
Gostava de ir à fábrica do sr. Ricardo Vilhena, porque adorava ver o moinho a trabalhar e vê-lo dar ao pedal para ensacar a farinha. Lembro-me que foi lá que vi os primeiros calendários de mulheres nuas (muitos mais vi nos oito anos que trabalhei nas obras) ao lado de calendários com gatinhos e pintainhos e patinhos.
Gostava das ruas de calçada e das casas térreas com uma porta e duas janelinhas de madeira.
Fascinava-me ver que as pessoas se sentavam no poial das casas a tratar das suas coisas ou apenas para descansar e conversar um bocadinho, invariavelmente sobre a vida alheia.
Achava curioso ver que as portas das casas estavam sempre abertas, mesmo que os donos tivessem ido a casa da vizinha ou mais ao fundo da rua. 
Do alto dos meus seis ou sete anos, achava tudo isto muito estranho porque vivia num apartamento na cidade, onde as portas eram trancadas à chave caso nos ausentássemos dela.
Adorava aquela forma desprendida de deixar as portas abertas ou os postigos abertos de par em par, a jeito de se poder chegar ao trinco da porta pelo lado de dentro. Era para mim uma forma de rapidamente acolher qualquer visita que calhasse a aparecer, nem que fosse para dar as boas tardes e saber se estavam todos bons de saúde.
Às vezes, quando passo pela vila, sinto saudades desses tempos de inocência e de honestidade, em que se podia sair de casa, deixar o postigo ou a porta aberta, apenas com uma cortina de tiras de plástico esvoaçando e que impedia que as moscas entrassem.
Às vezes apetece-me voltar a ser menina, voltar a ser inocente numa vila intocada pelo receio de roubos e assaltos e calcorrear as ruas de calçada, e cumprimentar as pessoas com a maior das naturalidades.

20 de junho de 2012

Melissinha inspired

Eu sou uma copiona... inspirei-me na Melissinha e fui na senda da Melissa, pela mão da Ana C.

Esta é uma das cenas mais marcantes de um grande filme. 
Toda a história aí retratada atingiu-me duramente. 
Deixou-me de rastos por dias e dias... 
Lembro-me de o ter visto numa sessão de cinema, no D. Dinis em Coimbra, estava eu no meu 2.º ano de faculdade. Sei que foi às 16h e eu fiquei de pé o tempo todo, porque as cadeiras eram poucas e eu tinha chegado em cima da hora...
A injustiça que descreve, a aleatoriedade de uma prisão, a busca esfomeada de bodes expiatórios pelas autoridades, a luta de um homem para repor o seu bom nome e a sua honra e recuperar a sua liberdade... cenas específicas do filme ficaram-me gravadas na mente por dias e dias... mas esta em particular.


1 de junho de 2012

Tradições de criança

Ainda a propósito de infância, porque realmente tenho tantos bons momentos dessa altura da minha vida, no Dia da Criança, a minha mãe punha-me sempre na mesa de cabeceira antes de eu despertar um bilhetinho com um verso escrito por ela e com um exemplar destes em cima.
tirada da net
Podia não haver brinquedos ou grandes prendas, mas este gesto de carinho fazia o meu dia tão feliz!!!

Feliz dia da criança, para os que são crianças e para todos os adultos também, porque estou certa que alguns albergam verdadeiras crianças no seu ser!

17 de maio de 2012

17-05-1912

Nascia a Alzira...
A minha avó materna.
A quem teria herdado o nome próprio, não fosse o seu infeliz falecimento na madrugada do dia que iria receber a notícia de que eu estava a "caminho", precisamente oito meses e dois dias antes de eu nascer.

Casou nova, aos 21, por influência de uma família pobre, esfaimada e de pé descalço gananciosa, interesseira, com um senhor de posses, de 78 anos de idade, dando um valente "golpe do baú"

A este casamento por conveniência devo todos os terrenos e as posses que recebi de herança, graças ao seu esforço de mulher de pêlo na venta, acrescido do espírito empreendedor do meu avô, mantido por devoção e sensatez da minha mãe, juntamente com o trabalho e dedicação do meu pai, que nunca delapidaram o património adquirido por meio de tal boda!

Era uma mulher alta, bem provida de peitos, como aliás era apanágio das mulheres todas de família; era forte, obstinada e possuidora de uma generosidade enorme, segundo sempre ouvi dizer!

Terá encontrado o amor quando, após enviuvar, conheceu o meu avô, com quem casou em segundas núpcias.

Além das terras e casas que dela herdei, carrego na matriz o "mau feitio", a teimosia e um sentido de justiça muito próprios. Segundo me diz quem me conhece e a conheceu igualmente...

Mulher que não se afoitava por qualquer dificuldade ou obstáculo, capaz de trabalhar incansavelmente de sol a sol, fervia em pouca água, como com a mesma rapidez se derretia perante a pobreza e um pedido de esmola.

Guardo dela os bordados, o crochet, os lençóis e toalhas com as suas iniciais.

Gostaria de ter-te conhecido avó! Nem que fosse para nos enfrentarmos na mesma medida de teimosia, impaciência e mau "génio"... se bem que a minha mãe convenceu-me que terias comigo um coração derretido, e que serias uma avó dócil, dedicada e amorosa!
bule do serviço de chá de porcelana da China - no tempo da minha avó, ter uma "chinesice" destas era só para pessoas abastadas e com "status"

8 de abril de 2012

Boa Páscoa


tirada de Pinterest
A minha será, como habitualmente, passada na companhia da família e amigos.
De há uns anos a esta parte, ganhámos o hábito de ir almoçar fora, e depois fazer uma espécie de pic-nic onde há sempre folares de ovos e aguardente de medronho.

Mas a tradição da Páscoa na minha família nem sempre foi assim...
Longe vão os anos em que se acendia o forno do pão e se tendiam os folares, que depois iam ao forno assentes em cima duma folha de palma. Havia preceitos rigorosos no amassar dos folares, dado que sexta-feira de manhã era dia santo. Se não me falha a memória, em minha casa, a quinta à tarde era considerada santa e a manhã de sexta também, mas da parte da tarde, já se podia trabalhar e amassar os folares, que ficavam a crescer, cobertos de mantas, muito mais horas que o pão, porque o açucar não deixava a massa levedar tão depressa.

Dava-se a prova dos folares aos vizinhos e restante família e, as madrinhas faziam sempre um folar para oferecer aos seus afilhados.
Lembro-me que adorava a Páscoa porque isso significava que ia haver uma "freira" só para mim! Uma freira era um folar com apenas um ovo, que a minha mãe costumava decorar, desenhando a lápis no ovo o rosto de uma mulher!
Iamos à missa pascal ao domingo de manhã e depois almoçávamos em casa e só depois íamos a casa da família dar as provas.
Gostava também desta época porque era sempre altura de receber vários pacotes de amêndoas doces, oferecidas pelas tias-avós, à laia de mimo aos mais pequenos da família.
Realmente, a tradição já não é que era...

Tenham todos uma boa Páscoa, com ou sem tradição!

30 de março de 2012

A oliveira


Enorme e frondosa, junto ao tanque de água.
A maior de todas as que o meu avô tinha nas suas terras, e a que dava mais azeitona e azeite.
Onde o meu pai, a pedido da minha mãe, colocou um tanque de lavar roupa, para que ela pudesse estar à sombra nas manhãs de sábado, destinadas às lides de lavadeira.
Onde me sentei tantas vezes, fazendo companhia à minha mãe, brincando com as flores do campo, que nasciam bravias, e observando os bichinhos na sua labuta quotidiana.
Debaixo dela o meu avô guardava as enfusas cheias de água para beber, para estarem frescas quando regressássemos a casa à hora do almoço.
Foi debaixo desta oliveira que descobri que havia escaravelhos capazes de modelar estrume numa bola perfeita e empurrá-la encosta acima como quem tem um guindaste.
Adorava sentar-me à sua sombra e ficar quieta a ouvir o som dos restolhar dos ramos quando o vento lhe dava.
Não me sento debaixo desta oliveira há bem mais de uma década, o caminho para lhe chegar está praticamente impedido pelo silvado que se vê na imagem... que ido ganhando terreno devido à falta de arado e enxada para trabalhar a terra.
Fiquei a observá-la cá de cima, e senti uma tremenda nostalgia!
Porque de certo modo crescemos juntas...