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6 de maio de 2016

Parabéns, mãe!

Ao contrário do que sucede em anos anteriores, neste dia em que se assinala a tua data de aniversário, não me sinto triste ou sisuda, não me sinto "coitadinha" ou carrancuda.

Acordei serena e esse tem sido o meu estado de espírito.

Será isto aceitação, ou será simplesmente a certeza de que estás sempre comigo, seja em que dia for???!!

23 de junho de 2015

Maternas saudades

Há vinte anos que partiste. Duas décadas.

Dizem que o tempo tudo apaga e que ajuda a esbater a dor da ausência.

Mas enganam-se.

Porque a saudade de ti aumenta a cada dia que os meus filhos, os teus netos, crescem diante dos meus olhos.

Aumenta na exacta proporção do meu desejo de que estivesses ali para fazeres o papel tão natural de avó babada e serena, que deixaria marcas profundas nos meus filhos, se tivessem o privilégio de te conhecer.

Aumenta na proporção em que a minha curiosidade aumenta sobre os tempos em que fui bebé e queria que aqui estivesses para me elucidar.

Não esqueci o toque da tua pele, as rugas do teu rosto, o formato dos teus lábios, o esverdeado dos teus olhos, o formato das tuas mãos, dos teus dedos e das tuas unhas, nem a pele lisa e branca da tua barriga redondinha, à qual eu me encostava e encaixava perfeitamente no teu colo.

Não esqueci da tua alegria natural e vontade de estar sempre a cantarolar, da tua voz branda e paciente. Não esqueci da tua inteligência e generosidade espontânea para com os demais.

Não esqueci das lágrimas que derramaste quase às escondidas e da tristeza que sentiste quando percebeste que não ias estar presente na minha vida adulta.

Não esqueci da tua capacidade amar sem limites, de me amar, a mim e ao pai.
Foi com o teu exemplo de amor de mãe que me fiz mãe, e que aprendi a amar os meus filhos. Percebi que só podia ser assim.

Não esqueci da tua capacidade de me "dar asas" para fazer as minhas próprias escolhas, cometendo os meus erros, mesmo quando não compreendias ou não concordavas, para que eu aprendesse a decidir por mim mesma, e sabendo aceitar as consequências que daí adviessem.

Nunca me esquecerei de nada em ti.
Esta saudade nunca se vai desvanecer, nem esbater, nem apagar-se.
Esta saudade é o que preenche o espaço vazio que o teu corpo deixou.

6 de maio de 2015

75-20=saudade

Hoje completarias 75 anos.

Há 20 anos atrás neste dia, foi a última vez que te disse parabéns cara a cara, que te pude abraçar e, que sopraste as velas num bolo, sabendo já de antemão, que essa seria a última vez que o farias.

Dizem que o tempo tudo cura e que tudo acalma.
Mas a cada ano que passa, a cada vez que se assinala este dia no calendário, cada vez sinto maior e mais profunda a tristeza da tua ausência.

Porque sei que se não fosse a doença, possivelmente ainda cá estarias, para eu te poder abraçar, e dizer:

- Parabéns, mãe!

Os teus netos fariam desenhos com bonecos desproporcionais, com cabelos estranhos e desgrenhados e tu ficarias babadíssima perante tamanho talento.

3 de maio de 2015

Dias agridoces

O dia da Mãe é sempre um dia complicado para mim.

Sinto-me grata por ser mãe e pelos filhos lindos, saudáveis e maravilhosos.

Sinto-me emocionada com as lembranças feitas na escola, com a colaboração deles.

Sinto-me tremendamente privilegiada por ter este papel importantíssimo nas suas vidas e por me ser dada esta oportunidade de amar dois seres da forma mais forte e genuína.

Mas... Há e haverá sempre um mas...

Sinto uma enorme tristeza por não ter a minha mãe comigo. Há 20 anos que não a abraço neste dia. E pior... Daqui por 3 dias será a data do seu aniversário...

E eu nunca senti tanto a falta da minha mãe como agora, que também sou mãe!

Mãe, onde quer que estejas... Adoro-te!!

6 de setembro de 2014

Cada filho é uma promessa de longevidade

Quando se tem um filho, preocupamo-nos com o seu bem-estar, com o seu crescimento, e se serão felizes. Depois logo pensamos no que se irão tornar... médicos, bombeiros ou outra coisa qualquer...

No meu caso, desde que fui mãe pela primeira vez, passei a ter medo.

Medo por mim, pela minha integridade física e mental, pela minha vida. Porque isso agora era importante. Não porque tenha passado a ter medo da morte, ou de sofrer (pronto, eu até tenho porque sou uma piegas com pouca tolerância à dor...), mas porque passei a recear não estar cá para os meus filhos. Porque sei o que é crescer sem ter mãe... porque eu sei a falta que faz uma mãe na vida de qualquer pessoa!

Mas passei a viver com um medo tremendo de perder o meu filho, medo esse agora acrescentado duplamente.
Sim, eu tenho medo que uma doença má se abata sobre eles! Como qualquer mãe que ame os seus filhos! Porque na minha família o historial médico de doenças geneticamente "herdáveis" é negro!

E porque, como qualquer mãe ou pai, não quero nunca saber a dor que é perder um filho...

E esse medo sempre esteve bem presente em mim porque uma das imagens que guardo com mais nitidez na minha mente das vezes que acompanhei a minha mãe ao IPOFG, é a do rosto de um menino que não teria mais de 3 anos, na sala de espera para fazer análises. Recordo a cor do seu rosto, pálido, macerado e sem cor, mas principalmente da falta de brilho nos seus olhos que deveriam ser de um verde profundo, antes do diagnóstico e de todos os químicos de tratamento. O boné escondia a falta de cabelo, provocada pela quimio. Mas principalmente recordo a falta de vontade de brincar daquele menino, ali no meio daquela sala, cheia de gente doente e onde a falta de esperança e o medo do desfecho da doença gritavam num tom ensurdecedor, que só quem sente na pele, consegue ouvir!

Por isso, não pude ficar indiferente à notícia da partida da Princesa Nonô! Como não fiquei indiferente à partida de outras tantas crianças, meninos e meninas que lutavam contra as garras dessa maldita doença que não escolhe género, idade, cor da pele...

Porque de cada vez que sei de um caso novo, é sempre daquele menino na sala de espera para análises do IPOFG que me recordo. Só o vi daquela vez, não sei se venceu a luta ou não...

E quando soube ontem da partida da Princesa Nonô, o meu primeiro pensamento foi para os seus pais e familiares. Porque apesar de conhecer a dor de perder alguém para o cancro, não sei da dor de perder um filho... e porque morro de medo de algum dia me ver perante a materialização dessa realidade...

Para verem ao ponto a que o medo me tolhe... há dias dei por mim a dar graças por ter tido apenas rapazes, porque assim a "espada" do cancro de mama tem menores probabilidades de desferir golpes na minha prole. É estúpido, eu sei... mas ter a noção do perigo faz-nos ter estes pensamentos aparvatados assim!

25 de junho de 2014

Senhor Abel, o avô babado...

Tens estado sempre no meu pensamento desde que o Ricardo nasceu. 

Sei que ficarias babado com o teu novo neto.
Ficarias profundamente maravilhado diante da perfeição do seu rosto.

Sei que ficarias a olhar para ele sussurrando palavras doces de avô, dizendo que o seu narizinho é "batatudo" e pequenino. Dirias que ele cheira a "pequeninos", como fazias comigo quando era pequenina (e mesmo em idade adulta!) e ainda tiveste oportunidade de fazer com o Falipe. 

Ias ficar tempos infindos a mexer nas suas mãos mini-mini e absolutamente espantado com os seus dedos esguios e compridos. 

E eu ia ficar deliciada com os teus olhos de alegria e emocionada com as tuas palavras de puro amor sussurradas aos meus filhos, teus netos!

Porque tu não ias caber em ti de contente, por seres avô de novo.

6 de maio de 2014

Dia da Minha Mãe

Fazes-me falta desde que partiste.
Fazes-me falta desde 1995.

Fizeste-me falta numa série de ocasiões importantes, momentos decisivos da minha existência, que eu queria partilhar contigo antes de o fazer com quem quer que fosse.

Às vezes parece que a falta que sinto de ti se esbate e se atenua ligeiramente, ficando no seu lugar a memória saudosa do teu rosto, das tuas mãos pequeninas de pele desgastada pelos anos de labuta no campo e depois na máquina de escrever, dos teus cabelos brancos a orlar os demais, o verde dos teus olhos. O espaço do teu colo que o meu corpo ocupava na perfeição. O calor do teu corpo e a força suave dos teus braços em volta de mim. Os teus beijos calorosos e a tua voz apaziguadora e serena. A tua eterna e infindável paciência para me aparar os ataques de mau génio e explosões de impulsividade próprias da idade e da minha personalidade "forte".

Fizeste-me tanta falta quando descobri que ia ser mãe, e mais ainda quando o fui de pleno direito. Fizeste-me falta por faltares ao meu filho, por não haver na vida dele o privilégio da tua presença. Há tanto de ti que não lhe pude ainda dizer, mas que sei que direi, porque o quero fazer e porque sei que ele vai querer saber quem era a avó Vera!

Mas fazes-me ainda mais falta agora. Agora que estou prestes a ser mãe de segunda volta. Faz-me falta a tua calma, a tua serenidade, a tua sensatez e profunda sabedoria para encontrar soluções simples. Fazes-me falta para me segurares a mão nesta etapa que sei que será doce e dura em simultâneo. Para me dizeres que está tudo bem e que tudo vai correr bem, enquanto me acaricias o rosto com as tuas mãos pequeninas.

Fazes-me falta agora mais que nunca por faltares aos meus filhos, aos meus meninos, pela ausência da tua presença luminosa na vida deles.


E enquanto eu só quero recordar-te num misto de felicidade por ser mãe plena e de saudosa dor por não te poder abraçar, ficando no meu espaço vital, há quem seja egoísta e hipócrita e queira celebrações à sua vontadinha, sob o argumento de agradar à sua mãe, aquela que nos restantes dias do ano maltratam psicologicamente com uma violência que me afecta. Cai-me mal, e a mãe não é minha! E eu decido fazer birra... e enquanto vou lambendo as minhas feridas, decido que não quero gramar fretes nem ir a almoços com gente que não sabe honrar a mãe que ainda têm.

8 de dezembro de 2013

Fazes tanta falta!

4 anos.
Já se passaram 4 anos...

O que mais me ficou na memória foi o choro convulsivo em que me afundei depois de ter desligado o telefone com a enfermeira que me comunicou que tinhas partido finalmente. Aquele choro que me sufocava, que tomou conta de mim até me sentar prostrada no meio do corredor do apartamento.
Primeiro chorei de alívio, mas depois de dor... só de dor...

Fazes falta!
Fazes tanta falta!
A mim, mas principalmente ao teu neto. Que ia adorar ouvir-te contar as milhentas histórias que tu sempre contaste e que tão bem sabias contar. Todas aquelas histórias que faziam rir qualquer um e que deixavam qualquer um atento, para saber o desfecho!
Fazes falta para imitar um fado corrido, como quem imita um acordeão e com cujos os acordes eu cresci a ouvir-te.

E ter-te-ia feito tanta falta conheceres o teu neto, porque ele seria o tesouro no fim do arco-íris, que amenizaria um pouco a tua solidão, pela ausência da mãe.

Como não estás cá, tentarei eu contar as histórias que te ouvi desde criança... se bem que não terão tanta piada... mas ele saberá que era uma história do Vô 'Bel!

1 de novembro de 2013

No dia de Todos os Santos...

Em vez de assinalar o Halloween ou o Dia das Bruxas, ou que seja destas festas importadas...

Em vez de brincar aos fantasmas, aos monstros e às bruxas, assumi seriamente a minha obrigação de filha única, e fui tratar da tua lápide tumular, pai.

Escrever a dedicatória para ser gravada na fria pedra mármore foi uma tarefa complexa para mim, que quase 4 anos passados, sinto que ainda não consigo ter o distanciamento necessário para escrever a saudade que carrego e a tristeza de não estares cá. Há o espaço de gravação a ser considerado, e também o custo da gravação à letra...

Eu sei que já deveria ter tratado deste assunto, mas a força para o fazer, só agora reuni...

A escolha da fotografia não foi tarefa menos simples. Porque apesar de eu gostar mais desta ou daquela fotografia, recordo-me bem que as detestavas por esta ou aquela razão e dizias sempre que não tinhas "ficado bem"!

O senhor que me atendeu na oficina de mármores fez-me perguntas para as quais não sabia bem as respostas... a não ser dizer aquilo que ele já depreendera: 

É a primeira vez que mando fazer uma lápide!

Espero bem que nem tão cedo tenha que tratar de mais alguma...

23 de junho de 2013

Maioridade

18 anos.
Sem ti!
Nestes 18 anos, concluí o ensino secundário com excelente média. Iniciei e terminei uma licenciatura. Iniciei e concluí duas especializações em áreas diferentes.
Nestes 18 anos namorei alguns até encontrar aquele que escolhi para companheiro de vida.
Comprei apartamento e criei uma espécie de lar. Vendi apartamento à permuta por uma casa e aí construí o nosso lar verdadeiro.
Engravidei e fui mãe do menino mais lindo e doce! Descobri a felicidade que reside em ser mãe.
Discuti muito com o pai, fizemos as pazes e criamos uma base de entendimento. Depois vi o pai partir antes de ver o neto apagar a primeira velinha. E aí sim, senti-me órfã...
Nestes 18 anos trabalhei e fiquei desempregada, até ficar efectiva e ser reconhecida pelo meu desempenho.
Viajei, fui ao cinema, li livros e descobri que afinal gosto de crochet e tricot e costura!
Fui feliz, fiz novos amigos, mantive os bons comigo e continuo a fazer amizades!
Nestes 18 anos, não passou um dia que não te recorde, que não te sinta a falta e não me pergunte que conselho sábio e sensato me darias! Mas todos os dias a dor se atenua um pouco porque estou certa de que me acompanhas e sorris perante a mulher que me tornei!
Mas sinto muitas vezes a falta do teu abraço e do conforto do teu colo de mulher pequena!!!

15 de maio de 2013

Falipices #43 - Explicações difíceis

No passado domingo, não sei bem como o assunto veio à baila... creio que começou com um qualquer comentário do Falipe enquanto segurava a minha mão para se apoiar, enquanto descíamos as escadas. Acho que surgiu com a pergunta inocente de "tu não tens mãe, mamã?".

Eu soube naquele instante que teria que lhe dar explicações além do "claro que sim!".

Por alguma razão que não sei bem explicar ou racionalizar, as raras vezes que lhe falei da minha mãe, era ele ainda um bebé e eu falava-lhe dela enquanto o embalava. Mas depois, não sei... de algum modo deixei de o fazer, talvez por pressentir que agora seria diferente, que ele não ficaria apenas a ouvir as minhas histórias da D. Vera, por saber que inevitavelmente se seguiriam perguntas. Talvez sentisse que não estava ainda preparada para as dar, ou então, tinha simplesmente receio das perguntas que ele iria colocar...

A melhor solução que encontrei foi dizer-lhe que sim, que também eu tive uma mãe. A melhor forma que tive que lhe falar dela foi pegar na fotografia que guardo há 17 anos na moldura de madeira, uma das últimas que ela tirou antes de tudo descambar... antes da quimio, antes da mastectomia, antes da radio e antes da morfina e dos comprimidos para dormir em doses cavalares.

Enquanto lhe mostrava a foto, disse-lhe:
- Esta era a minha mãe.
E ele apenas perguntou: 
- Como ela chama-se?!
- Chamava-se Vera. Era a minha mãe, e a tua avó.
E ele desatou a explicar-me que ela era como as árvores e as flores, que quando vem o sol depois da chuva e os passarinhos, num emaranhado inocente de descrição, que me permitiu perceber que ele pensou que ela era a Primavera.
Logo de seguida, pergunta-me pelo meu pai... como se quisesse saber se eu também tinha pai.
Peguei então na fotografia do meu pai quando ele tinha mais ou menos a minha idade e expliquei-lhe que ele era o meu pai e que era aquele senhor de quem eu por vezes lhe falava, o avô Abel.
Ele ouviu as minhas respostas com muita atenção e por fim perguntou:
- Eles 'tão onde, mãe?

Eu só soube dizer-lhe que eles já não estão cá... e ele percebeu, creio eu!

- Estão ali lá em cima? (expressão que começou a usar recentemente para se referir ao céu...)
- Sim, acho que sim!

Depois seguiu perguntando sobre todos os rostos que viu nas muitas fotografias de amigos queridos e familiares que prezo, com a sua curiosidade natural.

Se desta vez, consegui responder de forma simples e conter o prenúncio de tremelique do queixo e a comichão inexplicável na garganta que sinto sempre que estou prestes a deixar desabar as lágrimas rosto abaixo, não sei como me portarei numa outra ocasião em que as perguntas comecem a ser mais incisivas...

6 de maio de 2013

Feliz aniversário, mãe

73 velas que se acenderiam.
O abraço apertado que te daria, para voltar a sentir o calor do teu colo de mãe.
O brilho dos teus olhos e a luz do teu sorriso.
De certeza que te chamaria carinhosamente a "minha baixota".

Estes dias (ontem e hoje) já não doem tanto... mas a saudade envolve-me os pensamentos.
Estás sempre comigo, no meu coração e no meu pensamento, mas nestes dias recordo tanto mais de ti...

Os teus olhos esverdeados, o teu cabelo liso e curto, com as entradas esbranquiçadas. Mas depois recordo o cabelo totalmente grisalho e atirar para o ondulado que cresceu após 6 dolorosos tratamentos de quimioterapia.
Recordo as tuas rugas, em especial os pés de galinha ao canto dos teus olhos doces.
Os teus dedos anelares ligeiramente tortos, a quererem encostar ao dedo médio. As tuas unhas ovais nas tuas mãos pequenas, tão diferentes das minhas.
Recordo o som da tua voz, mas essa memória esvai-se lentamente com o decorrer dos anos. Ainda me dá vontade de rir quando me lembro de ti a enrolares a língua na tua assumida inaptidão para falar inglês, que ao mesmo tempo pronunciava correctamente o francês aprendido com a D. Rocha. 
Recordo a tua barriga redondinha e de pele lisa, sobre a qual eu deitava a minha cabeça quando tinha sono e o pai não estava em casa. 
Recordo as gargalhadas que me fazias dar quando tiravas a prótese dentária e me fazias caretas com os quatro dentes da frente em falta.
Recordo a tua paciência enorme e a sensatez da tua serenidade.
Recordo o calor do teu amor por mim e a segurança dos teus braços de mãe!
Recordo os beijinhos à esquimó e os bombons que me deixavas nos dias especiais.

Para muitos, eu serei sempre a Verinha, porque as pessoas têm dificuldade em memorizar o meu nome...
E se dantes isso me incomodava, hoje já não... porque parte de quem sou, como mulher e especialmente agora como mãe, devo-o a ti! E também à ausência de ti...

22 de março de 2013

22 Março 1938

Hoje completarias 75 anos.
Hoje iria visitar-te e dar-te-ia um enorme abraço e muitos beijinhos, como sempre fazia.
Ficaríamos a conversar sobre isto e aquilo, sobre o que fizeste, o que eu fiz, contar-te-ia todas as tropelias do teu adorado neto, de quem morrias de saudades, mesmo que ele tivesse apenas 6 ou 7 meses... Irias rir com aquele teu gargalhar tão característico e passarias a mão pelo teu cabelo grisalho e ondulado, num tique nervoso.

Eu sei que tivémos tantas divergências, eu sei que a partir da minha adolescência te viste em papos de aranha para compreender-me, para me aceitares com o meu feitio, com a minha personalidade efusiva e impulsiva. 
Eu sei que em muitas ocasiões fui injusta contigo e lamentavelmente só após a maternidade compreendi isso, e já não fui a tempo... 
Em certas ocasiões ainda faço o gesto instintivo e irreflectido de pegar no telefone para te ligar... e talvez por isso ainda tenho o teu número de telemóvel na minha lista de contactos...

Apesar de as nossas discussões terem deixado marcas permanentes na minha memória, e por isso luto por ser capaz de aceitar críticas sem reagir mal e de forma defensiva, sem grande sucesso... recordo muito mais os nossos momentos a dois, quando eu era pequena e te idolatrava, te considerava o meu herói e o modelo de homem que eu queria na minha vida, para ser meu companheiro.

Recordo igualmente as tuas mãos envelhecidas por muitos anos de vida a trabalhar, principalmente no campo. Recordo as rugas e as cicatrizes que tinhas nas mãos e nunca esquecerei que o formato da minha mão é a cópia quase exacta da tua e de como eu adorava comparar a minha mão à tua!

E para sempre guardarei na memória que me chamavas carinhosamente "caganita" e mesmo com 31 anos, me beijavas e dizias que eu "cheirava a pequeninos!"...



21 de fevereiro de 2013

A comida da minha mãezinha é melhor que a minha!

Naquelas fases críticas em que se me esgota a total capacidade de não me repetir nos pratos que cozinho, em que a inspiração culinária me abandona e sinto uma total aversão ao estar encostada à bancada de roda de tachos e panelas, é quando as saudades da minha mãe mais me atacam.

Sou acometida dum profundo saudosismo da sua comida, apesar da recordação de sabores e aromas ser cada vez mais ténue e progressivamente esbatida pelos já longos 18 anos de ausência.
Não sei se o que sinto são saudades da sua comida ou se é mesmo de ter a possibilidade de ficar um dia sem cozinhar e poder simplesmente ir comer a casa da mãe, como tantos filhos de mães vivas fazem, sem que tenham a noção do riquíssimo privilégio de que gozam!
Em certos domingos, gostava de poder sentir-me aliviada perante a perspectiva de ir a casa dos pais, comer uma rica feijoada ou umas lulas recheadas, que mais ninguém consegue replicar!

Ainda guardo o velho e desbotado bloco A5 da marca Castelo, cheio de manchas de gordura, marcas da muita utilização, onde uma certa tarde, aos meus 16 anos redigi religiosamente o ditado que a minha mãe, já quase nos limites da sua doença e receando que a lucidez a abandonasse, todas as principais receitas que ela conhecia de cor e salteado. A vitela estufada, os pastéis de batata doce, a feijoada e as suas inigualáveis filhós fofas e crocantes, o ingrediente secreto das favas (apesar de ela saber que eu as detestava, mas eu teria que cozinhar para o meu pai...) e do feijão verde com batatas... Naquela tarde em que ela tacitamente me passou a tarefa de ser a cozinheira da casa, ao ditar-me todas as suas habituais receitas. 
Por isso, guardo o caderno Castelo de linhas, já com algumas folhas a ameaçarem desprender-se, como uma relíquia!

Quando leio as receitas que a minha mãe me ditou, percebo que foi ela me incutiu a mania de cozinhar a "olhómetro", sem quantidades medidas ao mililitro ou à grama... Porque foi com ela que aprendi a reconhecer o sabor através da prova e a calcular aproximadamente as quantidades. 

Mas mesmo assim, a comida da minha mãezinha sempre foi melhor que a minha!
E eu tenho saudades da comidinha da minha mãe... e de a ouvir perguntar se me alimentei bem!

23 de dezembro de 2012

Epifanias do luto #2

"Eu acho que finalmente entendi o vazio que quis tapar!
Foi o vazio da tua morte, pai, e do luto mal feito que mantive de há três anos para cá. 
Porque fiz um luto superficial! 
Porque fiz um luto em piloto automático, gravei-o no pensamento como uma cassete que punha a rolar sempre que o assunto «morte do pai» vinha à baila. 
Porque é que digo que o luto por ti foi mal feito, pai? Porque o luto é toda uma forma de aceitação e de estar em paz com essa realidade que foi perder-te. É aceitar que as mágoas entre nós estão lá atrás e que as devo simplesmente «largar». Mas aceitando que tenho saudades tuas, porque depois da aceitação é isso que fica, é isso que permanece! É a saudade...
Mas muito mais a lembrança de ti, de tantos momentos passados, bons e maus. 
E perceber que todas as culpas que carrego comigo foram apenas culpas que congeminei em pensamento e depositei como pedregulhos no meu coração e grilhões nos meus tornozelos e pulsos, e que me têm atalhado a progressão. Porque eu ando para a frente, mas a passos muito lentos! Ou então tenho andado em círculos à procura de algo que está fora dessa circunferência...
(...)

Por isso, creio que hoje compreendi que finalmente comecei a encerrar o processo de luto, que foi algo atribulado, porque finalmente aceitei que tu partiste e que já não importa se podia ter feito mais para te prolongar a vida e principalmente para te minimizar a solidão em que vivias!
Finalmente aceitei sem culpas que o que está feito, feito está e senti-me em paz com isso. 
Não posso negar que chorarei na mesma quando a saudade de ti se crava no meu coração com mais força, mas torna-se mais fácil recordar-te e sorrir, porque o aperto no meu peito se desvaneceu..."

Escritos, 29Nov2012

22 de dezembro de 2012

Epifanias do luto #1

"A dor permanece escondida no mais recôndito espaço da minha memória. 
A tristeza e a dor foram enviadas para o mais fundo do subconsciente.
Na devida altura em que os meus olhos deviam ter desaguado os rios do meu sofrimento, não houve tempo, não houve hipótese...
Compromissos e reuniões fúteis, pura perda de tempo, com homens arrogantes e cheios de certezas, exigiam de mim a presença de espírito e a clareza de raciocínio próprios de alguém que não a Naná recém órfã...exigiam um estar que eu não era capaz de cumprir, mas cumpri mesmo perante a insensibilidade destes homens que nunca perderam nada na vida ou nunca souberam o que era perda. Já eu, com tão pouca idade, conhecia a perda de um progenitor bem demais... 
Estes homens arrogantes que ainda ousaram escarnecer da minha tristeza e usá-la como razões para me atacarem no desempenho profissional. Mas eu permaneci de cabeça erguida, não sei ainda bem à custa de que forças e em nome do quê ou de quem... mas escolhi não dar parte fraca diante de homens ignorantes do que é a morte... já que eu, por esta altura já quase a tratava por tu! 
Homens ignorantes e altivos que sucumbiriam facilmente à enorme e profunda tristeza de perder alguém que nos deu vida. 
Passei a viver maquinalmente, como forma de me manter à altura daquilo que me era exigido!
 
Quando eu precisava chorar convulsivamente até ficar sem fôlego e o ar me faltar porque os soluços me impediam de fazer esse simples exercício de inspirar e expirar, tive que engolir tudo... porque chorar tornou-se supérfluo diante das necessidades maiores do meu pequeno filho. Não porque ele não me deixasse, mas apenas e tão só porque não quis que ele visse e sentisse as minhas lágrimas... Decerto deve ter sentido a minha tristeza, porque eu sentia a sua agitação, diferente do habitual.
 
Carpir foi sempre sendo adiado, em nome de valores mais urgentes e prementes. A dor foi mitigada a martelo e coberta em esquecimento. Nas raras ocasiões em que as lágrimas ganharam a batalha, era sempre de fugida e às escondidas...de algum modo os demais esperavam que eu mostrasse o meu lado mais forte, que fosse a "força da natureza" que sempre se apresentou diante deles. O "furacão" como alguns me apelidavam carinhosamente...
Mas tudo o que mais desejava era entregar-me à dor, deixar que ela me abraçasse e que a lágrimas me brotassem dos olhos até eles ficarem doridos e eu adormecer de cansaço e exaustão... esse fadiga incomportável que eu sentia mesmo sem chorar, todos os dias!
 
Recalquei para o fundo de mim tudo o que me trazia tristeza. Continuei em vão a comportar-me como se ainda cá estivesses... cheguei mesmo a pegar no telefone para te ligar como fazia dia sim dia não, mas depois aquela parte do cérebro dizia apenas que já não podia, sem invocar o motivo...
 
Depois esperei meses antes que fosse capaz de dar destino aos teus pertences, uma tarefa que fui adiando pela dificuldade que eu própria lhe cunhei. As forças faltavam-me e o meu coração estremecia sempre que isso me perpassava o pensamento. Comecei timidamente, mas tive que parar, porque o efeito foi devastador... deitei no contentor coisas tuas à bruta, com uma violência similar a um rasgar de carne, como que para me ferir propositadamente, uma penitência auto imposta... um castigo a mim mesma, por não te ter chorado com o respeito e o amor que se impunha e que tu merecias...
Aquele pedido de desculpas que te fiz duas semanas antes, por todos os diferendos que tivémos, todas as batalhas de incompreensão mútua que travámos... ainda hoje não sei se o leve aceno que fizeste foi um movimento involuntário ou se o fizeste por estares consciente mesmo debaixo do coma profundo... e com isso quisesses apaziguar a minha tristeza por já não ouvir a tua voz e assim convocasses as tréguas que sempre precisámos e que se tinham ido sedimentando ao longos dos teus últimos tempos de vida.
Bloqueei na minha mente a tua imagem jazente de fato vestido, ladeado pelo lençol de cetim da urna. Essa imagem ficou gravada mas dormente até à noite em que do nada emergiu, quando via um episódio da Anatomia de Grey. Já não mais pude negar tal acontecimento. Não pude desta vez manter a impávia como no momento em que aconteceu...
Dei vazão à dor e aquela tua imagem, gélido e pálido, caminha comigo desde então no pensamento, a memória vívida, como se do próprio momento se tratasse!
Das tuas posses e pertences desfiz-me mais ou menos, mais de dezoito meses passados do teu desaparecimento, por imposição de obras que encetei naquela casa que ainda hoje digo que é tua, apesar de estar no meu nome, como diz a tua irmã mais velha e bem. 
Foi forçado o declutter dos teus bens materiais, mas eu continuava e ainda continuo agarrada aos bens emocionais que me deste, que preciso ir exorcizando lentamente, porque tudo o resto foi feito à velocidade de um comboio de alta velocidade, que de mim não se compadeceu... ao contrário do que aconteceu com a mãe, não deixei que a tua morte me definisse... ou pelo menos quis crer que não! Estava enganada, redondamente... todas as perdas marcam a alma, como um ferro quente, que me deixa em carne viva...
No entanto, é assim que começo lentamente a iniciar um luto que deveria ter iniciado antes mesmo de teres partido, porque o desfecho já se conhecia... começo demasiado tarde, mas finalmente começo. Meu querido pai, meu herói na infância, homem a quem admirei qualidades, a quem sempre senti o amor e carinho e mais tarde, o orgulho, apesar de sempre ensombrado por críticas, umas abertas, outras mais encapotadas. A quem dei a alegria de um neto, que tristemente não pudeste acompanhar mais tempo, como sempre quiseste e como sempre desejei!
Apesar de todos os diferendos que tivemos, não poderei nunca negar o quanto te amei e ainda te amo. Por eu te amar tanto, o teu neto hoje sabe que teve um "vô Bél", mas ainda não sabe como traz encerrado na sua genética traços teus, que só quem te conheceu consegue identificar!
Este é um primeiro adeus, pai. Não a ti, mas à dor e à tristeza de te ter perdido e à incerteza que carreguei sobre se poderia ter feito mais por ti, para evitar as consequências do tumor que te vitimou, silencioso.
Decido hoje que não posso mais carregar essa incerteza, porque o que foi já o foi e nada mais se pode fazer para o desfazer!
Decido hoje, como decidi há 13 ou 14 anos, depois da morte da mãe, que as coisas acontecem de uma determinada maneira, porque era necessário que assim fosse... e não mais posso chorar sobre um leite derramado, em que não tenho poder para alterar seja o que for!
Hoje decido preservar a tua memória, a melhor dela! A do homem e pai que eu sempre admirei!
Amo-te muito papá"
 
Escritos, 24Abril2012

23 de junho de 2012

17 anos

Há 17 anos que não estás comigo.
São tantos os anos que estás ausente como os anos que estivemos juntas!

E a falta que sinto de ti não diminuiu, não se desvaneceu... cresceu numa saudade imensa!
Às vezes entro em pânico e receio que a minha memória me falhe e eu já não me consiga recordar dos traços do teu rosto, da cor dos teus olhos verdes lindos, do toque das tuas mãos pequeninas, do teu busto avantajado onde eu encostava a cabeça, da tua barriga grande e redondinha, do teu cabelo curto e liso, já adivinhando as cãs; sem que tenha que recorrer à ajuda das fotografias.

Mas tu estás sempre comigo, no meu pensamento, e nas conversas imaginárias que travo contigo na minha mente, como se fosses a minha eterna consciência.

Mas és mais do que isso, és o meu anjo da guarda!
És a minha mãe!

Aquela que me telefonava para saber se eu estava bem, se tinha comido bem, se tinha dormido bem, todos os dias sem falhar.
Aquela com quem eu adorava dormir "em cadeirinha".
Aquela que eu abracei fortemente todos os dias até partires, esperando que assim, com os meus abraços, o maldito cancro se fosse embora e te deixasse em paz!
Aquela que me amou acima de tudo, com todos os meus defeitos (enormes, alguns, por sinal) e que sempre me deu compreensão, mesmo que não concordasse com as minhas escolhas.

Aquela que será sempre a minha referência no meu papel de mãe e de educadora!

Passei metade da minha vida contigo e outra metade sem ti.... 

11 de maio de 2012

Marcação para jantar

 Ontem quando me sentei na esplanada a ler um excelente livro, pedi um café. Trouxeram-me um com um pacote de açúcar, ainda da campanha lançada por ocasião do dia da Mãe.

Eu observei o pacote (um enorme hábito que adquiri ao longo do anos) e dei por mim a achar uma ideia muito simples e bonita, mas concluí que infelizmente, para mim, não valeria a pena preencher os espaços em branco... 
Até os poderia preencher, mas não teria a quem entregá-lo... ou então seria uma marcação para um jantar celestial, não sei...

Guardei-o para um dia quem sabe, o jantar com a mãe seja agendado, não por mim, mas pelo meu filho!

31 de março de 2012

Dia 31 - Saudade

A maior de todas...

Aquela que não me abandona nunca...

A que sinto da minha mãe!

Dos mimos dela, da sua preocupação comigo, dos seus beijinhos à esquimó e dos abraços de mãe pequenina e baixota!

2 de março de 2012

Dia 2 - Mãe/Pai

Perdi-os demasiado cedo na minha vida!
Foram o meu pilar e digo com orgulho que tive os melhores pais do mundo, porque me ensinaram a ser uma pessoa decente, civilizada, e bem-educada. 
Incutiram-me valores que quero transmitir aos meus filhos, de igual forma!
E sempre lhes agradeci por isso, em alturas importantes da minha vida!

Esta foi a dedicatória, na minha tese de licenciatura:

"A quem me mostrou o mundo como ele é...
A quem me ensinou a caminhar mais além...
A quem me fez evoluir... e ambicionar algo mais...
A quem me ensinou a não baixar a cabeça perante as dificuldades...
A quem me induziu a sonhar... e a lutar para concretizar os meus sonhos...
A quem me transmitiu esperança!
A quem me incutiu força!
A quem me mostrou a perseverança!
A quem me fez viver!!!
A quem muito admiro,
A quem hei-de manter a memória viva,
A quem agora presto homenagem:

À minha mãe..."

E esta foi a dedicatória, no meu trabalho de projecto de pós-graduação:

"Ao meu pai,
que sempre me apoiou e 
me ajudou a ser feliz
pessoal e profissionalmente."

Sinto tanto a falta deles na minha vida!!...