No ido ano de 1978, pelas 22h10 nascia no Hospital Distrital da cidade uma menina, 5 minutos depois de um rapaz e 10 minutos antes de dois outros rapazes.
Ela era esguia e levezinha. Dormiu a santa noite embalada pelo choro incessante dos outros três meninos...
Ela foi a maior alegria da vida da sua mãe e o pai não cabia em si de contente!
Não herdou o nome de sua avó Alzira, mas recebeu um nome invulgar, dizem que de origem aristocrática, já que os trovadores lhes (às damas) dedicavam trovas e canções de amor!
Cresceu rebelde, travessurenta e meiga. Viveu o bom da cidade e conheceu o melhor da vida no campo! Soube o que era viver numa casa onde as paredes eram de taipa caiadas, chão de terra que tinha que ser "ogado" e não havia electricidade ou água canalizada.
Sempre com os seus óculos por companhia... desde os 3 anos de idade. Até aos 16, quando passou por dois anos de revolta... e recusa em usar óculos!
Fascinada pelo seu avô materno, respingava com a avó paterna, que lhe estava sempre a ralhar, e a quem ela levantava a mão em sinal de intenção de dar uma palmada...
Foi uma adolescente tímida, bem comportada, segunda melhor aluna da turma, que lhe valeu a alcunha de marrona com elevada aptidão para a língua estrangeira e para a disciplina de História, mas vocação quase nula para a educação física, com excepção do serviço no voleibol e o guardar das redes no andebol. Correr e saltar em altura ou comprimento não eram com ela e fazia quase invariavelmente má figura...
Dos 13 aos 16 anos viveu juntamente com o seu pai o inferno drama pelo qual a sua mãe passou, por sofrer de cancro de mama, quimioterapia, mastectomia total e radioterapia com tudo o que isso implicou...
No último dia de escola do seu 11.º ano viu a sua mãe partir finalmente, após 4 meses a definhar agonizantemente, apesar das doses cavalares de morfina e comprimidos para dormir.
Viu o pai enclausurar-se em sofrimento por ter perdido a sua grande e eterna companheira e decidiu naquele momento que iria procurar consolo na praia da Arrifana e afastar a tristeza da falta da sua mãe, ocupando-se a trabalhar a servir à mesa no restaurante propriedade da sua prima.
Viu o pai enclausurar-se em sofrimento por ter perdido a sua grande e eterna companheira e decidiu naquele momento que iria procurar consolo na praia da Arrifana e afastar a tristeza da falta da sua mãe, ocupando-se a trabalhar a servir à mesa no restaurante propriedade da sua prima.
Preparou-se para concretizar o sonho que a sua mãe tinha para si, e um mês antes de completar os 18 anos, começou as aulas na universidade, a 500 km de casa. Deixou-se da timidez e decidiu abraçar o seu lado de algarvia marafada, extrovertida, bem disposta e de gargalhada fácil e sonora!
Completou a licenciatura com notas medianas, a contrastar com os habituais 17/18 na pauta dos tempos do secundário. Mas nesses quatro anos e meio em que foi estudante do ensino superior sentiu que cresceu dez ou cem tamanhos em horizontes, no abandonar de preconceitos e na aceitação dos outros e na tolerância perante opiniões diferentes das suas! Faz amigos para o resto da vida!
Pouco depois dos 22 anos defendeu a tese de licenciatura sobre o conflito israelo-árabe com nota final de 15, da qual muito se orgulha.
Chega a ingressar em mestrado na mesma área de licenciatura, o que a traz à capital. Após cinco meses de agonizante lavagem ao cérebro durante as aulas, praticada por docentes claramente de ideologia de extrema centro direita, regressa à terra natal para ter um qualquer emprego que lhe dê sustento, porque trabalhar na sua área académica só de borla e por se sentir como cordeiro para a matança todos os dias que entrava num qualquer transporte público.
Após dois anos de trabalhos precários, e farta de se sentir imprestável, frustrada e um parasita da sociedade, decide que é melhor pegar no "canudo" e metê-lo na gaveta e ir fazer formação profissional que lhe permita a empregabilidade e que faça com que ouça constantemente nas entrevistas de emprego que tem habilitações literárias a mais, mas que lhe falta experiência profissional.
Após uma especialização em SHST, vai trabalhar para as "obras" e aprende (novamente!) que os mais educados não são os que têm maior grau académico. Convive profissionalmente com pessoas dos mais diversos quadrantes e mais diversas nacionalidades e sente-se realizada profissionalmente, apesar de sentir na pele um latente desprezo de engenheiros por "doutores"... logo ela, que nunca mediu as pessoas pelo título académico que precede o nome de cada um! Ganha estaleca, e conquista algum respeito entre os seus colegas de trabalho que por vezes se esquecem que ela é mulher, coisa que ela até agradece! Obstinada e teimosa, por gostar de levar a sua avante e não se calar quando tem algo engasgatado, ganha a alcunha de "furacão".
Aos 22 anos conhece aquele que escolheu para seu companheiro e aos 27 anos amantizam-se, segundo palavras de seu pai.
Após um jantar de Consoada e abertura da prendas, é mãe aos 30 anos, no dia 25 de Dezembro, dum menino doce e lindo. Abranda no mau feitio, porque a maternidade lhe trouxe nova perspectiva sobre a vida, fazendo-lhe ver que afinal a realização profissional não é de todo o mais importante, mas sim um meio para atingir um fim: pagar contas!
Por essa altura decide começar um blog, que lhe permite conhecer pessoas fantásticas e com quem sente que se enriqueceu pessoal e culturalmente!
Pouco depois dos 31 vive o drama de ter o seu pai internado na capital com um tumor cerebral, ficando em coma durante quase dois meses, na sequência da cirurgia para o remover.
Antes do seu filho completar um ano, fica irremediavelmente orfã de pais e quase sem vestígios dos seus antepassados. Mas é herdeira de património...
Aos 32 muda de emprego e larga as "obras" que já lhe tinham trazido tanto desgaste, cabelo branco e aversão a condições climatéricas extremas.
Por essa altura, ganha interesse por artes e lavores e descobre que ainda sabe fazer crochet e costurar à máquina. Nessa altura aprende finalmente a tricotar. Por conta disso, abre um outro blog, orientado para as artes manuais e conhece mais pessoas fantásticas e aprende imenso.
Vive uma vida rotineira, paga contas, paga impostos de monta, sente a crise na pele como qualquer português.
Completa 35 anos neste dia, na companhia do seu companheiro e do seu filho, que são a sua família amada!
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