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25 de janeiro de 2013

Contemplar

Teria eu uns oito, nove anos quando comecei a aperceber-me que o meu pai chegava a casa, estacionava o nosso velhinho Fiat 127 azul escuro em frente ao prédio e ali ficava, sentado, sem sair do carro para entrar em casa. 
Ficava ali por uns dez a quinze minutos a contemplar o vazio, como que alheado de tudo e de todos à sua volta. 
Comecei a espiá-lo por detrás dos cortinados rendados da janela do meu quarto. Ficava meio encolhida a vê-lo a contemplar o vazio, sentado no nosso Fiat 127, sentado ao volante... Era como se estivesse a acompanhá-lo, mesmo sem que ele soubesse.
Parecia que ele estivesse a fazer um compasso de espera, antes de entrar em casa. Como se em casa não pudesse ter tempo ou espaço para ficar sentado a contemplar o vazio...
Eu questionava-me sobre o que poderia levar o meu pai, esse homem alto e forte, bem disposto e carinhoso, a ficar sentado dentro do carro a olhar fixamente para o nada.
Questionava-me sobre que pensamentos lhe estariam a ensombrar o espírito. Vezes houve que gostava de ser um pequenino ser com poderes para lhe ler os pensamentos.
Naquele contemplar havia como que uma certa expressão de tristeza no rosto... como se ele estivesse a tentar fugir à realidade... e eu queria tanto perceber o que lhe ia no pensamento e no coração.

Há umas semanas atrás, dei por mim, sentada dentro do carro, ao volante, parada e quieta a contemplar o vazio, em frente à porta do infantário do meu filho. 
Naquele momento fixava um ponto qualquer que nem sei bem qual era, mas os meus olhos estavam abertos, sem pestanejar. No entanto, não viam nada de concreto, não observavam qualquer pormenor... 
O pensamento permanecia parado, oco, como se o cérebro estivesse desligado. Como se tivesse hibernado instantaneamente... 
Sei que estive neste estado, nesta espécie de transe contemplativa, por uns bons dez minutos. Durante esse tempo, olhei fixamente o vazio e não pensei em rigorosamente nada... Não sei sequer que propósito este estado tinha para mim...

E de súbito, tal como sucedia com o meu pai, como que "despertei" e caí em mim, retirei a chave da ignição do carro e saí para ir ao encontro do meu pequeno tesouro.

Porém, tive a percepção de que algum modo, foi como se recuasse no tempo... mas a uma pessoa diferente.

16 de janeiro de 2013

Janelas de oportunidade


Há quem siga os seus sonhos, dê um salto de fé, que troque o certo pelo incerto. 

Há quem seja forçado a isso e se sinta esmagado pela dúvida, do "não sei se vou, se fico!", pelas circunstâncias da vida.

Há quem prefira a estabilidade, a rotina, uma espécie de certeza ritmada nas suas vidas e fique num desnorte quando algo faz o "barco abanar" e a vida "estremecer na base"...

Eu, quando confrontada com situações de mudança drástica, depois do estremeção inicial, encaro que toda a mudança encerra um potencial enorme e que prefiro arriscar, mesmo que me arrependa depois. No meu caso, prefiro sinceramente arrepender-me depois de ter corrido mal, do que arrepender-me de nunca ter sequer tentado!