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19 de março de 2018

Ricardices #12

Estava na cozinha a fazer o jantar quando deixei cair umas quantas folhas de espinafre no chão.

Ricardo não se fez esperar...

- Mãe, tás a fazer asneira!

Eu respondi apenas "tens razão"...

Ao que ele remata:

- Tens que ter mais cuidado, mãe!

Bolas...

Não deixa passar nada em branco...

12 de agosto de 2017

Mãe sabichona

Estávamos a ver vídeos de música (da boa!) no YouTube quando o Filipe me perguntou porque é que o cantor fazia isto ou aquilo no vídeo.

Esta era já uma de muitas perguntas que ele me fazia sobre os vídeos que lhe fui mostrando.

Já sem saber bem o que dizer respondi:

- Não sei, filho. A mãe não sabe tudo...

- Sabes sim!

- Ai sim?! Porque achas que eu sei tudo?

- Porque és a minha mãe!!

É tão bom esta idade da inocência, em que eles olham para nós como seres todos poderosos!

15 de outubro de 2016

2 de setembro de 2016

Difícil de amar...

Tens sido um "desafio" desde o primeiro momento em que percebi que estavas mesmo a nascer!
Foste apressadíssimo e quiseste nascer 5 semanas antes, nada aconselhável, visto que ainda tinhas tempo para estar sossegado no quentinho da minha barriga e maturares tudo como deve ser...

Nascer prematuro fez-me recear mais por ti, do que por mim, apesar da pré-eclampsia severa que fez com que nascesses de cesariana, o que não deve ter sido agradável para ti. Certamente não o foi para mim, apesar de me tentar manter o mais serena e tranquila possível.

Depois... apesar de te amamentar com todo o empenho, as tuas necessidades alimentares eram maiores do que eu podia satisfazer e isso fez com que fosses internado na neonatologia às pressas, porque os níveis de glicose tinham descido a níveis nada aconselháveis, e ficaste ligado a fios e a máquinas que faziam bip ao primeiro sobressalto.

Eu só te queria comigo, mas a sorte ditou que o berço na minha enfermaria ficasse vazio, provocando olhares curiosos e piedosos das 500 visitas que as minhas "colegas" de enfermaria receberam ao longo dos 5 longos dias em que estive interna.

Assim que pude, corri arrastei-me com dores excruciantes para a neonatologia e pedi autorização perguntei se te podia segurar no colo, quase como faria com o bebé de outra pessoa. Assim que te tive nos meus braços, segurei-te durante mais de 1h até quase sentir os braços dormentes, apesar dos teus parcos 1950gr... as restantes 60 gr já tinhas perdido.

Passei o tempo todo que pude contigo, mesmo porque estar na enfermaria parecia um inferno, com o corropio de visitas das outras duas mães, que ficavam largamente após as horas autorizadas para visitas, não me deixando descansar de forma nenhuma...

Enquanto isso, o meu coração estava apertadíssimo, porque só queria que saísses da neonatologia para te poder ter comigo, sem fios e sem horários impostos.

Mas depois, fomos para casa, após 6 dias! E tu, que até ali eras uma criatura calma e serena, que tolerava tudo e mais alguma coisa, que se alimentava a horários regulares de 3h, quase religiosamente, passaste a querer impreterivelmente mamar de 1h30 em 1h30, o que me deixou os mamilos roxos e sentir dores inimagináveis, e só a minha decisão resoluta de te amamentar enquanto me fosse possível conseguiu vencer e perseverar.
A par da fome voraz e frequente, veio o choro gritos incessante nos intervalos das tuas refeições. O teu choro em volume nada aconselhável dia após dia, noite após noite deixou-me de rastos, se é que eu já não estava... O teu choro de decibéis acima da norma, acabei por descobrir depois num estudo cientifico sobre bebés prematuros, era normal e um mecanismo próprio de bebés nascidos muito antes da data prevista, como um instinto de sobrevivência, de forma a garantir que eras alimentado.

Dormir era uma miragem... e eu que gosto tanto preciso desesperadamente de dormir, ora querias mamar, ora choravas porque ficavas mal disposto, porque provavelmente o teu estômago pequenino ainda não estava maturado o suficiente para fazer uma digestão calma e serena.

Os primeiros 3 meses da tua vida são uma espécie de "nuvem acinzentada" de recordações, em que predominou o cansaço, a exaustão, o teu choro incessante e a minha incapacidade de ser uma mãe em condições para o teu irmão mais velho.

Depois, começaste a mamar mais espaçadamente mas o choro manteve-se à minima coisa.
O cansaço e a exaustão permaneceram uma constante... à medida que crescias, as dificuldades iam evoluindo, desde a tua recusa em ser mudado, o que incluiu quase sempre pontapés e gritos e muitos nervos meus e do teu pai.

Quando calhava a desabafar com alguém de fora do núcleo familiar, recebia em troca olhares e frases piedosas de "isso é só uma fase"... até que eu me fartei de ouvir a história das fases e evitei desabafar fosse com quem fosse! Mesmo com os meus familiares mais directos... passei a viver progressivamente mais isolada do mundo e a partilhar menos e menos da minha vida pessoal, porque a única pessoa que sabia aquilo porque estava a passar era (e é) o G.

No teu primeiro ano de vida, dormiste apenas 2 noites completas, sendo que eu apenas dormi numa delas, porque a outra estava demasiado ansiosa com a cirurgia do teu irmão mais velho.
Foste progredindo, mas o choro... aquele choro aos gritos, que chegava a quase perfurar os meus tímpanos manteve-se. Passei a ter dificuldade em estar num espaço onde houvesse ruído, mesmo que fosse apenas pessoas a conversar mais alto. Passei a desligar o rádio do carro nas viagens de e para o trabalho, mesmo o rádio sendo a minha companhia habitual nas minhas viagens de carro.

Tentar fazer-te dormir na cama de grades foi uma tragédia que me levou às raias da loucura... Simplesmente não dava para te ouvir chorrar e berrar a pleno pulmão durante mais de 45m, connosco ali ao teu lado, nada te convenceu a dormir na tua cama, que para ti parecia ser uma gaiola. Esgotámos todas as ideias e tentativas possíveis que nos ocorreram... Após uma semana a dormir apenas e só 3h/noite, venceu-nos pelo cansaço e rendemo-nos a ter-te a dormir na nossa cama. O que apenas me permitia dormir, mas não descansar.

Tenho a certeza absoluta que por esta altura não devo ter andado muito longe de um esgotamento físico. Senti-me em certos momentos a raiar a loucura e a ter medo de mim mesma... Houve dias e dias em que não me lembrava de como tinha chegado ao trabalho, depois de te deixar na creche...

Por volta da altura em começaste a andar pelo teu pé, aos 13/14 meses começaste também a fazer birras. Não, tu não podias esperar pelos "terrible two" para começares a afirmar-te... agora que tens 2 anos, refinaste a arte da birra. Consegues berrar durante 1h de seguida apenas e só porque queres que te tiremos a t-shirt. Isto porque por alguma razão que não conseguimos entender, tu simplesmente não queres vestir t-shirt nenhuma... Quando fazes uma birra, normalmente pelas coisas mais insignificantes, não posso simplesmente tentar ignorar-te e virar-te as costas e ir à cozinha 2 minutos como fazia com o teu irmão... se te viro as costas, tu dobras a parada e promoves uma escalada de monta na birra e nos decibéis dos gritos, porque além da birra ficas ofendido e ressentido comigo por te ter tentado ignorar... Se te tento acalmar e convencer que não precisas de estar a berrar, ficas furioso comigo e foram mais que muitas as vezes que me bateste e/ou mordeste.

Para minha tristeza, foram demasiadas as vezes em que me vi obrigada a ceder às tuas vontades, apenas e só porque já não conseguia tolerar o ruído e o som do teu choro, contrariando todas as minhas convicções como mãe que deve educar, mas vendo-me obrigada a ceder só para que te calasses...

Adoras fazer asneiras, queres fazer tudo à tua maneira, e mesmo quando tinhas apenas 13 meses e eu te explicava que não podias fazer e depois tu me ignoravas, eu ralhava contigo e tu nunca me levaste a sério, rias-te com ar de gozo na minha cara e voltavas a fazer, à laia de desafio. Nem depois duma palmada ou outra deixavas de asneirar... Dei-te lamentavelmente mais palmadas do que as que deveria ou gostaria (que não gosto e nem nunca vou gostar!).

Idolatras o teu irmão, mas consegues ser muito mauzinho com ele, dás-lhe chapadas como gente grande e puxões de cabelos sem mais nem porquê, e depois ris-te... e eu passo boa parte do meu tempo a apartar-vos aos dois...

Contigo, tudo tem sido difícil, complicado, envolto em cansaço, fadiga, exaustão, nervos, berros e gritos (teus, meus, do teu pai e até mesmo do teu irmão...). As fases, as tais fases têm ido passando e se sucedendo umas às outras, mas a fase seguinte consegue sempre suplantar a fase anterior em dificuldade... ao contrário do que seria expectável.
E isso entristece-me profundamente, porque quando me dizem que "um dias vais ter saudades de quando ele era pequenino" a minha resposta costuma ser invariavelmente "não, não vou"!
Porque o que mais recordo não são os teus sorrisos lindos, fáceis e rasgados, o teu olhar de malandreco, esses olhos escuros e brilhantes como duas azeitonas pretas, ou as tuas pestanas enormes quando dormes qual anjinho, ou a forma como dizes as palavras atabalhoadamente, ou como pulas de alegria em cima da cama, ou a tua alegria ao tomar banho enquanto despejas água (e inundas o chão da casa-de-banho), ou a tua mestria em andar no triciclo, a tua capacidade de adaptação rápida e de aprender tudo sem dificuldade nenhuma, ou a tua capacidade de logo depois de teres sido um "bruto" pedires "scupa, mãe" e vires beijar-me e abraçar-me, e como me consegues fazer rir com as tuas palhaçadas.

Infelizmente, sinto que o que mais vou recordar não são as tremendas alegrias que me tens dado, mas sim o estado de cansaço e exaustão generalizada em que me encontro desde que nasceste...

Às vezes, paro e olho para ti e penso no quanto te desejei na minha vida e no quanto estou feliz por estares aqui, por existires na minha e no quanto te amo, com todas as partes do meu ser e espanto-me como é possível eu amar tão profundamente uma pessoa tão pequena que me provocou tanta dor...e concluo que isto é amor incondicional, o único que conheço e que sei exercer!

8 de agosto de 2016

Eu sabia que este dia ia chegar!

O dia em que o meu filho me ia dizer que é fã das músicas do Justin Bieber........

Buaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhh

23 de dezembro de 2015

Época natalícia-aniversariante

O Natal está mesmo aí... e isso significa que o Falipe está prestes a completar mais um ano de vida!

O meu Menino Jesus completa 7 anos no próximo dia 25! E eu só penso como ele está crescido (aliás, está enorme!) e como o tempo parece passar numa correria tão apressada, quando eu só quero que ele - o Tempo - abrande, para eu poder viver todos os momentos possíveis com o máximo de atenção. Não quero perder nada e sinto que tenho perdido muito, que não consigo esticar-me e ir a todas com a presença e atenção devidas.

É incrível como se passaram 7 anos desde que me tornei mãe! Desde que passei pela tremenda experiência transformadora que é trazer ao mundo um ser que depende única e exclusivamente de nós, para tudo, para sobreviver, se nutrir, para crescer e desenvolver-se e para ser uma pessoa feliz e saudável! E passaram 7 anos desde que me tornei uma pessoa que nunca mais esteve sozinha! E não deixo de me surpreender a cada dia pela beleza do meu filho! Além de ser um menino lindo (sim, eu sou uma mãe babada e nada modesta!) é um ser sensível e muito perspicaz, inocente e tão sem maldade, curioso e inteligente, e teimoso e tagarela e irrequieto que me torra a paciência e esgota as energias, mas a quem eu amo com todas as forças do meu ser e de quem vibro de orgulho pelo menino que é!

Esta é a época de festas e jantares de Natal (este ano decidi dar uma de boicote aos jantares...) e o estranho é que sinto que estou lamechas, de lágrima fácil. Especialmente quando estive presente nas festas da escola primária e na festa da creche e ATL dos miúdos a ouvir todas aquelas músicas de Natal... talvez porque sinta a falta daqueles que deveriam estar presentes a ver os netos e não estão... a saudade aperta e deixa-me mais nostálgica e introspectiva e retira-me um pouco o espírito festivo que deveria ser a norma por esta altura.

A acrescentar a isto, este ano tem sido mauzinho para mim... tem sido um ano dificil e cheio de momentos menos bons e para ser inteiramente sincera, só quero mesmo que 2015 se vá com o vento, para passar a ser apenas uma recordação longínqua de um ano que não deixou saudades nenhumas.

Tenho alguma esperança em 2016, principalmente por ser um ano bissexto e por alguma superstição minha, costumam ser anos benéficos para mim. Pode ser que o ano novo que aí vem me traga a clareza de espírito e a coragem de tomar decisões difíceis (se calhar até são bastante fáceis e simples...) que podem mudar drasticamente a minha vida e da minha família, para melhor!

2 de outubro de 2015

Bochechas rechonchudas e caracóis

Cresces a uma velocidade estonteante, mais depressa do que sou capaz de assimilar.

Parece que ainda há dias eu ainda te amamentava de 90 em 90 minutos e tentava acalmar o teu choro gritante de má disposição e má digestão, enquanto me tentava manter acordada e mentalmente sã.

E agora tu já andas corres pela casa toda, já sobes sozinho ao triciclo do teu irmão e já aprendeste a andar sozinho na trotinete com a mestria de quem sabe mexer o volante e ir onde quer!

A nossa relação não tem sido mar nenhum de rosas, tem sido muito exigente e desgastante, tem sido duro para mim que não durmas bem e muito complicado de gerir as tuas constantes birras de vão do simples chorinho ao grito estridente em apenas 10 segundos, que me arrasa os neurónios e me deixa tipo barata tonta. Mudar-te a fralda é uma tarefa de monta, visto que me parece o equivalente a estar a lutar com um polvo, porque tu detestas que te mudem a fralda. As minhas costas gritam por descanso e a tendinite no ombro esquerdo exige alto e bom som que eu não ande sempre a aceder às tuas necessidades de colo constante, isto se quero deixar de ter dores excruciantes.

Mas o teu sorriso fácil e genuíno de menino malandro, o teu andar desengonçado, as tuas pernocas grossas e geniquentas que me deixam de sorriso apatetado, as tuas mãozinhas pequeninas que mexem em tudo e mais alguma coisa, que não deixam os armários e gavetas da cozinha em paz mais que dez minutos, os teus olhos escuros, como duas azeitonas que sorriem quando estás feliz, o teu falatório que eu não entendo porque é ininteligível neste ponto, fazem-me transbordar de amor e de alegria pela tua presença na minha vida.

Adoras estar ao ar livre e assim que vês a porta de casa aberta não descansas enquanto não vais para o quintal correr!
Achas estranha a sensação da areia da praia nos teus pés pequeninos mas depois queres sair por ali fora e não aceitas que te seguremos a mão. Porque tu és decidido e sabes que queres ir e para onde e ai de alguém que te tente alterar o caminho que queres seguir.

Tens uma energia inesgotável e uma fome de leão, adoras estar na banhoca e ficas chateado quando te tiramos de lá, exiges a minha atenção e a do teu pai constantemente, facto que temos ido gerindo da melhor forma que soubemos. Preferes o colo do pai ao meu, mas queres que seja eu a dar-te a comida e principalmente o biberão e esperneias irritado quando tentamos trocar os papéis.

Mas quando à noite, adormeces placidamente no meu colo ao ritmo do meu embalar, com o polegar na boca e a mão enfiada pelo meu decote abaixo, eu olho para o teu rosto de anjinho e abraço-te mais forte, porque quero congelar o tempo e ficar assim contigo. Nestes momentos, não quero que cresças, não quero que os meus braços se tornem pequenos demais para te abarcar na totalidade.

Meu furacãozinho!

6 de julho de 2015

Abraço de grupo

A noite tinha sido bera...

Andava a dever horas à cama havia mais de duas semanas...

Decidimos revezar-nos a dormir, para conseguirmos recuperar os sonos em atraso.

Quando cheguei à sala, e ambos os meus filhos me puseram a vista em cima, vi dois meninos lindos a correr, ou melhor, um a correr e o outro a gatinhar na minha direcção para me abraçar, ou melhor, um para me abraçar e o outro para me pedir colo.

Não há nada melhor que isto para uma mãe! Ainda para mais quando é a dobrar!

3 de julho de 2015

Dívidas parentais

"Na verdade, os nossos filhos não nos devem nada. Foi uma decisão nossa trazê-los ao mundo. Amá-los e suprir as suas necessidades foi a nossa obrigação enquanto pais e não um acto altruísta. Sabíamos desde o início que estávamos a criá-los para nos deixarem e sempre foi nossa obrigação ajudá-los a fazer isso sem sentirem o peso de um eterno sentimento de gratidão ou de dívida."

In "A velhice chega demasiado cedo, a sabedoria demasiado tarde" de Gordon Livingstone

30 de junho de 2015

Falipices #81

O Falipe, desde que o irmão nasceu, está sempre a manifestar a sua vontade de ter ainda mais irmãos.

O que é estranho, tendo em conta que o irmão passa metade do tempo a berrar e/ou aos gritos.

Há dias, voltou a tocar no assunto.

- Oh mãe, quando é voltas a ficar gordinha?!

Como não atingi onde ele queria chegar, perguntei:

- Mas queres que a mãe fique gordinha outra vez porquê? (como se eu não estivesse já uma baleia?!)

- Então, mãe?! Para teres outro bebé... eu queria mesmo uma mana!

E eu pensei para comigo: "meu querido filho, eu sei que queres muito ter mais irmãos, mas depois das mais de 365 noites sem dormir que se passaram desde que o teu irmão nasceu... não volto a ficar gordinha mesmo..."

16 de junho de 2015

Parábolas de sono

Em verdade vos digo:

Não há nada melhor do que noites bem dormidas.

Não há nada melhor que dormir 5/6 horas seguidas, sem qualquer interrupção.

20 de maio de 2015

1 ano = 12 meses = 365 dias

De vida.
Da tua vida.
De ti na minha vida, na vida do teu pai e do teu mano.

Hoje completas um ano e eu ainda estou incrédula.
A tua entrada no mundo foi antecipada, inesperada, atribulada e cheia de ansiedade (minha).

Os teus primeiros 6 dias de vida foram passados num berço na Neonatologia do hospital. Por isso, esta manhã percorri aquele longo corredor que fiz tantas vezes em apenas 6 dias, para ir deixar uma lembrança ao pessoal da unidade, em jeito de agradecimento por toda a ajuda que te deram (e me deram) naqueles 6 dias, mistos de receio, de dores, de medos, de esperança.

Às vezes, enquanto dormes nos meus braços, olho para ti e sinto um pânico enorme, porque de repente me recordo que poderias não ter singrado, e que eu poderia ter-te perdido. Mesmo depois de te ter conhecido! Mesmo depois de me ter apaixonado instantaneamente por ti, tão exactamente igual ao teu irmão, 6 anos antes.

Os dias em que estive na maternidade foram complicados. Estar numa enfermaria, na cama do meio, ladeada por duas mulheres cujos  berços estavam cheios, enquanto o meu permanecia vazio não foi uma realidade fácil de assimilar. Os olhares das visitas, com aquele ar de espanto e curiosidade davam cabo de mim e eu, que só queria estar perto de ti, percorria aquele longo corredor, a passinhos lentos, para não forçar a costura da cesariana, e sentava-me numa cadeira desconfortável durante horas, as que mediavam entre as refeições na enfermaria. Olhava para ti, tão pequenino, com apenas 2010 gr., que depois se reduziram às 1915 gr., e observava os fios ligados a ti, enquanto tu dormias placidamente.
Na primeira visita que te fiz depois de teres sido internado na Neonatologia, perguntei à enfermeira se te podia pegar ao colo, como que a pedir autorização, como se não fosses meu... e eu segurei-te no meu colo durante mais de 1h até ficar com os braços dormentes, não porque pesasses muito, mas porque te segurava com os braços em suspensão, como se nunca tivesse segurado um bebé meu nos braços.

Os teus primeiros três meses foram muito complicados para mim, e ainda hoje recordo esse tempo como um tempo enevoado, que não sei se vivi ou se apenas passei por ele, porque tu querias mamar de 1h30 em 1h30 (dia e noite) e choravas a bom chorar nos intervalos, aflito porque querias bolsar e nem sempre conseguias, apesar de arrotares com facilidade.
E é esta a sensação que tenho do teu primeiro ano, que foram dias e meses muito complicados para mim, na gestão da tremenda privação de sono, na gestão do teu choro compulsivo, e aos gritos, que me fez desesperar tantas e tantas vezes, que me arrasa e deixa de rastos.

Têm sido dias e meses agridoces, porque és um bebé lindíssimo, quando bem disposto exibes o maior e mais lindo sorriso, a toda a gente sem excepção. És dono duma força física tremenda e tens uma genica sem igual.
Os teus olhos como duas azeitonas pretas, com umas pestanas longas derretem-me o coração e as bochechas rechonchudas com os lábios perfeitos fazem o resto!
Os teus dois dentes completam o quadro de menino lindo e fofo, que me torna na mãe mais babada à face da terra.
És tagarela desde cedo, e apesar de só tardiamente teres aprendido a gatinhar, caramba... assim que aprendeste o conceito de auto-mobilidade, tem sido um ver-se-te-avias e creio que daqui por poucos dias estarás a andar pelo teu próprio pé sem necessidade nenhuma de apoio.
Antevejo já que será melhor começar a colocar trancas nas gavetas e armários, porque tu já ficas maluco quando abro um armário da cozinha diante dos teus olhos, como se tivesses ganho a lotaria!
És louco pelo teu irmão, mas és safadolas e puxas-lhe os cabelos e querer morder-lhe, apesar de seres "bi-dente".
Gostas muito de mim, mas preferes claramente o colo do teu pai, seu vendido!
És um reguila tremendo, que me tem pregado vários sustos nestes 12 meses. Presumo que vais ser ainda mais teimoso e voluntarioso que o teu irmão, que a meu ver, agora é um santo!

E eu adoro-te com toda a fibra do meu ser!
Parabéns, meu cachucho reguila.

27 de abril de 2015

Falhar

Sinto que têm sido vãs as minhas tentativas de estar presente, de te acompanhar, de te dar a atenção que acho que precisas. E que mereces!

Sinto que te falho tantas vezes, e prometo que não o farei outras tantas vezes, sem nunca me sentir capaz de reverter a situação.

Naquela tarde, no dia seguinte ao teu irmão ter nascido, vi-te e olhei para ti com outros olhos. Senti um estremecer no peito, como que a questionar-me como e porque é que te achava agora enorme, gigante, tão crescido. Como se o meu menino pequenino que eu deixara em casa cerca de 48h antes se tivesse agigantado e crescido desmesuradamente na minha ausência.
Como é que tinha isso sucedido?!

Os dias que estive no hospital passei-os preocupada contigo. Quando acompanhava o teu irmão na Neonatologia, pensava nele, mas estava preocupada contigo.
Quando fui para casa, pensava em ti, mas estava preocupada com ele, que ainda ficara no hospital.

O facto de o teu irmão ser um bebé muito exigente, despojou-me das minhas capacidades de te assistir. Ou pelo menos sinto isso...
Emociono-me quando me recordo de momentos passados, só eu e tu, de tudo o que me ensinaste (e ainda ensinas diariamente) e do quanto cresci contigo, ao mesmo tempo que voltava a ser criança e regressava indirectamente à minha infância, através dos teus olhos. Tenho saudades de todas as noites em que te lia uma história sentada na cadeira de baloiço, enquanto te embalava suavemente no meu colo.

As histórias permanecem, mas são tantas vezes interrompidas pelo choro do teu irmão... E agora não há embalar, mas passou a haver as tuas perguntas sobre a história, a tua curiosidade, a tua procura por perceber as coisas.

O estado de privação de sono em que tenho vivido não tem tido os melhores efeitos no meu estado de espírito, e por vezes dou-me conta do quão exigente estou a ser contigo, do quão ríspida sou contigo por vezes. Quando me apercebo disso, volto àquela tarde, no dia seguinte ao teu irmão ter nascido, e percebo que tu já eras crescido, mas a meus olhos, eras ainda um bebé-menino.

Continuas a ser o meu bebé-menino, que foi crescendo nos intervalos do meu cansaço, da minha privação de sono, da atenção que o teu irmão precisa. Continuas a ser o meu menino sensível, meigo e perspicaz, e tão inocente.
E eu não quero que essa inocência se desvaneça nem tão cedo. Quero preservar esse coração puro o máximo de tempo que conseguir!
E por vezes fico sobressaltada ao pensar se estás a ter uma infância feliz...

Porque desde que soube que estava grávida de ti, só tenho querido e desejado dar-te mundos e fundos, e toda a felicidade e alegria que eu possa proporcionar-te!

Eu sei que ultimamente andas preocupado com a morte, e o meu coração apertou-se ainda mais quando vi o estado assustado em que ficaste, quando me viste cair nas escadas esta manhã. Mas não te preocupes, foi só uma queda aparatosa, e a mãe só ficou um bocado "amassada"...

Enquanto eu puder e me for permitido, eu estarei sempre contigo! Não vou a lado nenhum!

16 de abril de 2015

Filho ladino

És traquina.
Gostas de me dar chapadas com as tuas mãozinhas rechonchudas. Tens a "mão pesada"... e depois ris-te com ar de safado, que já compreende que está a fazer asneira. Puxas os meus cabelos e tentas enfiar os teus dedos nos meus olhos e nariz. Quando reclamo e digo "não-não", ris com ar gozão. Meu pequeno diabrete.

És sorridente. De sorriso fácil. De sorriso franco e rasgado. Sorris com uma facilidade avassaladora e conquistas num segundo quem tens pela frente. Os teus dois dentinhos completam o quadro e tornam-te ainda mais cutxi-cutxi!

Quando não sorris, algo não está bem em ti. É fácil perceber.

És bem disposto. Por norma.

Mas também és chorão. Muito. Em certos dias, até demais.
Quando não respondemos ao teu choro, mudas de nível e passas ao modo gritador. Aquele choro de gritos que me estremece o cérebro, ressoa e vibra nos ouvidos e me deixa exausta no espaço de cinco minutos. Aquele choro de gritos que só pode e vai aumentar de decibéis, a níveis que requerem protecção auricular.

Odeias chupetas. E biberões. Coisas de borracha ou silicone para pôr na boca, contigo nem pensar!

És enérgico, geniquento como te chamo. Mexes em tudo o que apanhas pela frente e apesar de ainda não conseguires, queres chegar a tudo e por isso esticas-te o máximo que consegues. Às vezes, já consegues arrastar o rabiosque duma forma meio esquisita, um pouco de lado, como se fosses um caranguejo.

Gostas de colo. Adoras colo. Mas o colo não pode estar parado. Tem que estar em movimento. O colo tem que circular pela casa. Senão... lá vem o choro. Gostas do meu colo, mas para adormecer, preferes o do pai.

Detestas estar sozinho. Ficas mesmo chateado e ligas o botão do choro se acaso te viro as costas, nem que seja para ir buscar qualquer coisa ali ao lado.

Quando temos visitas ou vamos a casa de família ou amigos, és a criança mais serena, sorridente e pacata de que há memória. Fazes-me passar por "mentirosa" quando digo que tens sido um bebé exigente. Porque tu és um poço de calmaria e simpatia na presença de terceiros.

As noites não são pacíficas. Nada pacíficas. Desde que nasceste dormiste apenas 3 noites de seguida, nenhuma delas consecutiva. As outras todas têm sido marcadas por muito choro, por muitos acordares sobressaltados, por muito embalo para te conseguir acalmar e pôr novamente a dormir. Por muito espernear.

Adoras o teu irmão. Ficas muito atento a olhar para ele e para o que ele faz. És curioso com ele, queres mexer nas coisas dele, queres agarrá-lo e puxá-lo. Ris-te à gargalhada com ele, quando ele decide fazer garatujas contigo. Mas quando tens sono, ele não não se pode chegar a ti, que começas logo a ficar impertinente. Já a dar a entender que vais ser um malandro com o teu irmão.

"Falas" pelos cotovelos. O que me leva a crer que vais ser ainda maior tagarela que o teu irmão. Só tenho pena de ainda não ter conseguido descortinar o que significa "bem-bembe"... No entanto, os sons mais habituais da tua linguagem são "ma-ma-mã-man"... palpita-me que te vou ouvir muitas vezes a chamar por mim.

Tens exigido de mim energia, força e paciência em níveis que nunca pensei conseguir reunir. Tenho suportado cansaço, nervos e muito mais privação de sono do que alguma vez julguei ser-me possível aguentar.

E no entanto, amo-te com todas as forças possíveis do meu coração!

19 de março de 2015

Do dia do pai lá de casa

Apesar de estar sozinha com os dois rapazes, consegui fazer um bolo de mirtilos para levar para a festa do dia do pai no jardim de infância do Filipe.

O Ricardo colaborou como um lindo menino e esteve sossegadamente a brincar com tampas de plástico dos iogurtes e a tirar ao chão tudo o mais que lhe pus na frente.

Enquanto isso, eu e o Filipe fizemos um bolo, e foi bom de ver o enorme entusiasmo dele, muito maior do que nas outras vezes que fazemos um bolo, porque para ele, este era especial, por ser para o pai e para levar para a escola.

O pai provavelmente nem o vai provar, a julgar pelo que aconteceu na festa do ano passado... (num universo de 25 pais, havia apenas 5 bolos...)

Mas o importante mesmo, teria sido eu ter-me lembrado de levar o bolo para a escola, e não o ter deixado em cima do balcão da cozinha, lindo e cheiroso...

Do mal o menos, o pai leva o seu próprio bolo!



17 de março de 2015

Apetece-me

Escrever.
Não escrever de todo.

Escrever sem reservas, desaguando os pensamentos que pululam como enguias no meu cérebro cansado e privado um pouco menos de sono.

Escrever condicionadamente, porque às vezes menos é mais e não havia necessidade de desaguar rios de palavreado sem sentido só porque sim.

Ficar sentada em silêncio dentro do carro e apenas deixar entrar o ruído de fundo dos carros que passam na estrada enquanto tento respirar profundamente ao olhar a paisagem solarenga junto ao rio, evitando pensar no cansaço de dar banho a dois miúdos sozinha, fazer jantar, brincar, mimar, deitar porque já é tarde e as pálpebras teimam em cerrar-se, porque o pai teve que ir trabalhar pela noite adentro.

Ir a correr ao encontro dos meus meninos, com os seus sorrisos sinceros e francos, carregados de inocência, que me olham como a um ídolo. Abraçá-los apertada e demoradamente e fechar os olhos para registar estes momentos que não voltarão a ser...e receber deles aquilo que há de mais puro, de mais genuíno e mais valioso.

Ser uma mãe-coragem daquelas que se desdobra em quinhentas mil tarefas, que não se cansa nunca, que não se exaspera nem levanta a voz quando ambos os rapazes se dispõem em modo "gritador", fazendo sucumbir até o cérebro mais bem repousado, que se cuida e apruma e é o pináculo da feminilidade graciosa de mãe-mulher "resolvida" e "resoluta".

Ser a mãe que revira os olhos sempre que lê os sábios conselhos para ser uma mãe-mais-isto-e-mais-aquilo, que tem vontade de chicotear essas mães que apregoam aos sete ventos que tudo fazem e conseguem sem aparente esforço, porque no fundo elas são o exemplo acabado de uma tremenda fraude! Sim, fraude!! E percebo que nunca quereria ser aquele tipo de mãe, porque é irreal. Porque qualquer mulher que tente igualar aqueles padrões estará condenada logo à partida, derrotada na vã conquista de uma maternidade que só está disponível a quem tem sistemas de apoio dignos desse nome.

Ser uma pessoa cheia de objectivos e ambições, que faz e que vai à luta, que se esforça, que se esgadanha a tentar chegar onde quer e ao que quer, que não se conforma, que não se rende sem lutar.

Ser a pessoa que olha a vida da forma mais realista que consegue, e decide que há um momento para simplesmente passar pelos dias sem se preocupar muito com objectivos cumpridos, porque mais tarde haverá tempo para isso tudo.


26 de fevereiro de 2015

9 meses e 6 dias

Carinha laroca!
Cada dia mais laroca, com as bochechas mais lindas e rechonchudas de que há memória.

Tens o sorriso mais fácil e rasgado do mundo, é um sorriso espontâneo e franco, que te sai com uma naturalidade maior, apenas e só porque te dirigiram a atenção.

Gostas muito que te dirijam a palavra, gostas de atenção, gostas que conversem contigo e na maior parte das vezes, palras em resposta.

Adoras os teus pés. Minto, tens uma verdadeira fixação por eles, o que me dificulta a muda de fralda.

Chuchas no dedo (maioritariamente o polegar). Nos dedos, os que houverem disponíveis. Os teus, os meus, os do teu pai e só não chuchas nos do teu irmão porque ele simplesmente não deixa.

Aprendeste a atirar tudo para o chão. Ou melhor, a deixar cair graciosamente para o lado da cadeira, como que indirectamente a dizer: "podes apanhar"!

És sossegado e calmo. A maior parte do tempo. Quando nada te incomoda. Consegues estar sossegado e calmo bastante tempo. Mas tem dias... porque depois há dias em que passas mais tempo a chorar e aos gritos do que propriamente sossegado.

Gostas de palrar. Vais ser um tagarela, certamente. Provavelmente ainda mais que o teu irmão, que já leva bolas vermelhas de mau comportamento, porque é incapaz de permanecer em silêncio, sem tagarelar mais do que dois minutos.

Aprendeste a bater palmas e eu emocionei-me como uma garotinha a primeira vez que te vi chocar as palmas, com tamanha certeza e precisão.

Não gostas nada que te deixem sozinho numa sala, nem que seja por dois ou três minutos. Há dias em que basta que eu te vire as costas, nem que seja para ir ali ao lado, para tu começares numa gritaria estridente que me atordoa os sentidos.

Dormes sestas de 45 minutos durante o dia e à noite a coisa não é nada pacífica, para minha grande desgraça. Os teus sonos intermitentes são o maior contributo teu para as minhas tremendas olheiras e valentes dores de cabeça, que me acompanham durante o dia.

Adoras a hora do banho, especialmente porque agora descobriste que consegues baldear mais de metade da água da banheira para fora!

Idolatras o teu irmão e queres estar sempre perto dele e agarrá-lo.

Ficas hipnotizado com o piscar da luz do comando da televisão. Com o meu telemóvel e o do teu pai. Quando o teu irmão jogas jogos no tablet atiras-te a ele e ao tablet a querer abarcá-los aos dois, o que enerva o teu irmão profundamente.

És um rechonchudo de primeira, e o pediatra ficou feliz por finalmente teres parado de "aumentar de péso como un foguéte", (como ele diz no seu espanhol aportuguesado), tão diferente do bebé sapinho, que nasceu com apenas 2010 gr. A minha coluna e ombros agradecem também por isso. Mas eu adoro a tua barriguinha e pernocas maciças, que dá vontade de apertar carinhosamente e cobrir de beijos.

És o meu carinha laroca, o meu (pica)xuxo, o meu Rica.
És o meu menino fofo, por quem o meu coração transborda de amor verdadeiro.
És uma benção maior que recebi!

3 de fevereiro de 2015

Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes

Em tempos que já lá vão, o meu pai costumava contar que eu, por volta dos seis anos de idade (nos saudosos anos 80), um dia ao almoço, lhe perguntei com a maior das naturalidades:

- Ó pai, quando é que te divorcias da mãe?

Escusado será dizer que o meu pobre pai ficou perplexo e sem saber o que me responder... apenas conseguiu perguntar-me a razão da pergunta.

A minha resposta foi pronta e decidida: os pais dos meus amigos estão todos a divorciar-se, eu também quero! (ai como eu era ingénua...)


Recentemente, o Falipe ficou a saber que eu e o pai não somos efectiva e legalmente casados.

Não sei ainda muito bem a que propósito a conversa surgiu, mas ontem saiu-se com esta pergunta:

- Ó mãe, quando é que casas com o pai?

A minha resposta foi bem mais fácil... "tens que perguntar isso ao teu pai!"

Mas ele insistiu com um "eu queria mesmo que tu e o pai se casassem!" e para finalizar, rematou "queria que se casassem pela igreja!"(*)


Lamento dizer-te meu filho que nesse departamento não terás muita sorte... já que o teu pai é um ateu convicto!


(*) - aqui tenho que admitir que houve alguns "alarmes" a tocar, porque a juntar à conversa de que gosta muito de Jesus há umas semanas, quer-me parecer que ele anda a ter umas noções de religião cristã sem o nosso conhecimento...

9 de dezembro de 2014

O SNS em estado comatoso

Terceira data marcada para a cirurgia aos adenóides do Falipe.

Os adenóides que inflamam e lhe afectam terrivelmente a audição.

Duas datas marcadas, desmarcadas e remarcadas por "falta de anestesista".

Datas essas em que o Falipe deveria estar em perfeitas condições de saúde, leia-se: sem ranho, sem tosse, sem expectoração.

Difícil de conseguir nos dias frios e cinzentos que se sucedem desde finais de Outubro, por mais que o resguarde ou o leve a fazer haloterapia.

Finalmente, a data chegou sem desmarcações, nem desculpas de falta de anestesistas.
Falipe reune minimamente os requisitos exigidos para a cirurgia.

Os nervos crescem, apesar de saber que é uma cirurgia sem grandes complicações... mas crescem e agigantam-se. É uma anestesia geral e eu tenho medo... é o meu menino pequenino, que já é grande, quase-quase do meu tamanho.

Os nervos sobem de tom quando chega a hora de lhe colocar o penso anestésico onde irão inserir o cateter... ele recusa-se firmemente e nenhum argumento o convence, não restando alternativa a não ser manietá-lo e colocar o penso à força no braço do meu menino que se debate qual fera enjaulada.

Chegar ao hospital já atrasada e receosa pelos 20 minutos perdidos a tentar colocar o penso anestésico, que deveria ter estado colocado pelo menos 1h antes.

30 minutos do meu menino a perguntar se vai levar "uma pica" e que "eu não quero levar uma pica" (ainda paira na sua memória a dor das vacinas dos 5 anos...).

A enfermeira é um doce de pessoa e apesar de tudo, o meu menino tem que ser algo manietado para deixar colocar o cateter... O meu coração dói, porque sei que ele precisa desta cirurgia para poder ouvir como deve ser e não como se estivesse dentro dum aquário. Abraço-o e tento acalmá-lo e explicar que tudo vai correr bem.

1h20 minutos de cateter inserido na veia  do meu menino a debitar soro.
Falipe manifesta firmemente a sua vontade de não retornar ao hospital, nunca mais.

1h20 minutos depois do cateter inserido na veia a debitar soro, a chefe do serviço ambulatório comunica que o anestesista teve "uma imprevisto familiar inadiável" e como tal teve que se ir embora, pelo que a cirurgia terá que ser noutro dia, porque o serviço ambulatório "vai ser encerrado".

A cirurgia é cancelada porque o anestesista teve um imprevisto familiar inadiável e é o ÚNICO anestesista que o hospital tem. Não há mais nenhum médico disponível...

Um hospital que serve 5 concelhos e não sei quantos milhares de utentes.

O meu menino pequenino, já grande quase-quase do meu tamanho, vai ter que passar por tudo isto de novo...