"A verdade pode não nos libertar, mas não há maior loucura do que mentirmos a nós próprios para retirar apenas uma satisfação passageira. Uma tal ilusão parece ser apenas uma desonestidade benigna; mais ninguém foi enganado ou lesado. Porém, as decisões que não se baseiam na realidade só podem ser más. Ter uma imagem clara de nós é, sem dúvida, impossível, tal como o é chegar ao fim dum dia sem ter encontrado, pelo menos uma ou duas vezes, as justificações para os erros cometidos. É quando há um conflito entre o que queremos ser e o que somos verdadeiramente que a dissonância cognitiva nos atinge, tornando-nos surdos e cegos."
In "A velhice chega demasiado cedo, a sabedoria demasiado tarde", de Gordon Livingstone
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15 de dezembro de 2015
2 de março de 2015
"Se tivesse de fugir, o que levaria?"
Esta questão é delicada.
Especialmente quando enquadrada desta forma.
Acontece-me sonhar muitas vezes que tenho que abandonar a minha casa às pressas, não sei muito bem a razão... Às vezes é um incêndio que consome tudo, outras é alguém que me persegue, com intenções menos agradáveis.
Talvez seja algum receio reprimido desde os tempos da adolescência, naquele dia do incêndio de 1993 que por pouco não destruiu a minha casa de Aljezur, onde na altura estava a passar férias com os meus pais. Ainda equacionámos ficar a "defender a casa", mas o meu pai decidiu-se pela nossa auto-preservação.
Nessa tarde, logo depois do almoço, reuni além das minhas roupas, a máquina de escrever que a minha mãe me tinha oferecido aos 9 anos, o meu walkman e as minhas cassetes preferidas. A escolha não foi muito difícil porque na altura as minhas "possessões materiais" não eram assim tantas e a maior e mais importante parte delas, estavam a salvo, na minha residência a pouco mais de 50 km dali.
Mas nos sonhos, muitas vezes sinto o pânico de ter que sair de minha casa só com a roupa do corpo e não haver tempo para levar comigo o que eu mais prezo. Há sonhos em que levo os livros, noutros os cd's eleitos dos eleitos.
Mas numa situação real... não sei a que me agarraria para levar comigo... não sei o que o discernimento urgente de quem tem que fugir com pouca coisa me levaria a escolher... o ouro? um livro? um objecto? comida? dinheiro? roupa?
Uma coisa talvez não quisesse mesmo deixar ficar para trás... o album de fotografias de família.
Especialmente quando enquadrada desta forma.
Acontece-me sonhar muitas vezes que tenho que abandonar a minha casa às pressas, não sei muito bem a razão... Às vezes é um incêndio que consome tudo, outras é alguém que me persegue, com intenções menos agradáveis.
Talvez seja algum receio reprimido desde os tempos da adolescência, naquele dia do incêndio de 1993 que por pouco não destruiu a minha casa de Aljezur, onde na altura estava a passar férias com os meus pais. Ainda equacionámos ficar a "defender a casa", mas o meu pai decidiu-se pela nossa auto-preservação.
Nessa tarde, logo depois do almoço, reuni além das minhas roupas, a máquina de escrever que a minha mãe me tinha oferecido aos 9 anos, o meu walkman e as minhas cassetes preferidas. A escolha não foi muito difícil porque na altura as minhas "possessões materiais" não eram assim tantas e a maior e mais importante parte delas, estavam a salvo, na minha residência a pouco mais de 50 km dali.
Mas nos sonhos, muitas vezes sinto o pânico de ter que sair de minha casa só com a roupa do corpo e não haver tempo para levar comigo o que eu mais prezo. Há sonhos em que levo os livros, noutros os cd's eleitos dos eleitos.
Mas numa situação real... não sei a que me agarraria para levar comigo... não sei o que o discernimento urgente de quem tem que fugir com pouca coisa me levaria a escolher... o ouro? um livro? um objecto? comida? dinheiro? roupa?
Uma coisa talvez não quisesse mesmo deixar ficar para trás... o album de fotografias de família.
12 de agosto de 2014
A culpa nunca morrerá solteira!
Enquanto existirem mães!
Quando a culpa morrer, será após um longo e infeliz casamento com o coração duma mãe.
Porque a culpa, essa, adora meter-se nos lugares mais recônditos do coração duma mulher que tenha prole e que a ame acima de tudo.
A culpa aloja-se ali, qual hospedeiro parasita, num casamento sem direito a divórcio, nem mesmo o litigioso, pautado por muitos momentos de tristeza e infelicidade, em que a culpa, cônjuge maléfico, se fica a rir a bandeiras despregadas de ter infligido dor profunda.
A culpa, cônjuge dominador, chicoteia o coração duma mãe de todas as formas possíveis que encontra, seja na pequena chantagem emocional, seja na agressão pura e dura, deixando-o prostrado de joelhos.
Por vezes, o coração consegue ser mais forte e dar um chega para lá na culpa, mas nunca se livra verdadeiramente dela, porque a culpa é muito boa a infernizar, incutindo dúvidas e inseguranças no coração da mãe. Isto quando não traz ao barulho a mente, que toma muitas vezes por amante temporária, enchendo-a de cucos e preocupações.
Por isso, a culpa, quando morrer, nunca irá solteira, porque o coração duma mãe foi para o altar com ela, no dia em que nasceu o seu primeiro filho, por quem se apaixonou.
Quando a culpa morrer, será após um longo e infeliz casamento com o coração duma mãe.
Porque a culpa, essa, adora meter-se nos lugares mais recônditos do coração duma mulher que tenha prole e que a ame acima de tudo.
A culpa aloja-se ali, qual hospedeiro parasita, num casamento sem direito a divórcio, nem mesmo o litigioso, pautado por muitos momentos de tristeza e infelicidade, em que a culpa, cônjuge maléfico, se fica a rir a bandeiras despregadas de ter infligido dor profunda.
A culpa, cônjuge dominador, chicoteia o coração duma mãe de todas as formas possíveis que encontra, seja na pequena chantagem emocional, seja na agressão pura e dura, deixando-o prostrado de joelhos.
Por vezes, o coração consegue ser mais forte e dar um chega para lá na culpa, mas nunca se livra verdadeiramente dela, porque a culpa é muito boa a infernizar, incutindo dúvidas e inseguranças no coração da mãe. Isto quando não traz ao barulho a mente, que toma muitas vezes por amante temporária, enchendo-a de cucos e preocupações.
Por isso, a culpa, quando morrer, nunca irá solteira, porque o coração duma mãe foi para o altar com ela, no dia em que nasceu o seu primeiro filho, por quem se apaixonou.
29 de abril de 2014
Falipices #71
Logo pela manhã, começam as perguntas difíceis.
- Mãe, porque é que eu não consigo ver a minha cara?
Abriu a época de dúvidas existenciais...
- Mãe, porque é que eu não consigo ver a minha cara?
Abriu a época de dúvidas existenciais...
21 de janeiro de 2014
Semanário de Gravidez #1
Quando se entra em "estado de graça", há sempre o conselho de fazer um diário de gravidez. Como não tenho tempo nem muita paciência ou energia para isso, pelo menos numa base diária, nada como fazê-lo de forma semanal.
Se calhar já devia ter começado há mais tempo... afinal de contas, já se contam 18 semanas de gravidez... já passei da fase de gorduchinha roliça, para a fase lontra e encontro-me actualmente a entrar na fase baleia.
Ontem fui toda lampeira vestir as minhas calças de grávida... querias, não querias, Naná Maria?! Isso foi há 15 kgs atrás...
Ontem fui toda lampeira vestir as minhas calças de grávida... querias, não querias, Naná Maria?! Isso foi há 15 kgs atrás...
É incontornável estabelecer paralelos com a gravidez do Falipe, que no primeiro trimestre foi marcada por preocupações com a minha segurança física, já que nessa altura tinha que andar a subir e descer andaimes, para vistoriar as condições de montagem... a obra parecia-me uma espécie de zona de guerra cheia de perigos e eu tinha atenção a cada passo dos caminhos que fazia por entre cofragens e paredes de tijolo frescas.
Desta vez, a maior preocupação foi de cada vez que o Falipe me pedia colo, apesar de estar quase com 5 anos... custou-me imenso sentir que tinha que negar-lhe colo, arriscando assim suster os seus 22 kg nos meus braços, contrariando os avisos da minha médica de família.
Desta vez, a maior preocupação foi de cada vez que o Falipe me pedia colo, apesar de estar quase com 5 anos... custou-me imenso sentir que tinha que negar-lhe colo, arriscando assim suster os seus 22 kg nos meus braços, contrariando os avisos da minha médica de família.
Desta vez as preocupações que povoam a minha mente têm sido mais de ordem emocional, já que há aspectos a ter em conta quando se vai ter um segundo filho, de certa forma já mais ou menos sabemos ao que vamos... ou não! Por mais que tentemos ser práticas e racionais sobre estas questões, é fácil perceber que há sempre a possibilidade de ciúmes do primogénito e a eventualidade de este se sentir relegado para segundo plano e sentir que a atenção que antes era toda direccionada a si, é agora dividida e canalizada para um outro ser que ele mal conhece.
A acrescentar a estes pseudo-dramas-existenciais, temos o facto de as alminhas iluminadas que gerem os hospitais algarvios, agora fundidos num só, possivelmente terem caca de galinha no lugar do cérebro e acharem por bem que as mulheres que precisem de parir tenham que se deslocar a Faro, mesmo que para isso tenham que percorrer 60 km ou mais. O serviço de maternidade e obstetrícia existentes em Portimão estavam bem organizados e apetrechados, tanto de equipamento como de pessoal, mas em vez de se manter um serviço que funciona bem, não... toca a rebentar com tudo, sem qualquer consideração ou respeito pelos utentes... quando se pensava que somos um país "civilizado", eis quando nos apercebemos que não somos assim tão diferentes dum país de terceiro mundo...juro que se tiver o meu bebé em plena A22 ou EN 125, não responderei por mim... também já me passou pela ideia montar acampamento à porta do Hospital de Faro uns dias antes...
A pergunta sacramental que todos me colocam é: então e já sabes se é menino ou menina? O que leva sempre à mesma resposta... ainda é muito cedo para conseguir saber isso...
Mais de resto, estou feita uma sopeira! Só me apetece comer canja de galinha, caldo verde e todas as sopas existentes e mais algumas... se esta criança não gostar de sopa, não poderei dizer que não foi por falta de ter comido na gravidez!
O Falipe parece contente com a novidade de vir aí um/a irmã/o... mas ainda não se decidiu em relação ao que prefere,como se ele tivesse voto na matéria... já que nuns dias quer um irmão, e noutros prefere uma irmã. Já começou a querer inventar nomes, mas confesso que as suas escolhas me desagradam...
Os humores inconstantes não têm sido lá muito pacíficos, mas eu faço um esforço bem grande para os dominar e não deixar que eles levem a melhor de mim. Porque afinal de contas, as hormonas andam por aqui aos saltos, num labor frenético, mas os que me rodeiam não têm culpa nenhuma disso. E além do mais, eu posso ter mau feitio, mas não tenho qualquer perfil para ser uma grávida rabugenta!
Post editado - afinal a maternidade não vai fechar... mas pode dar-se o caso que o parto tenha que ser em Faro...
A acrescentar a estes pseudo-dramas-existenciais, temos o facto de as alminhas iluminadas que gerem os hospitais algarvios, agora fundidos num só, possivelmente terem caca de galinha no lugar do cérebro e acharem por bem que as mulheres que precisem de parir tenham que se deslocar a Faro, mesmo que para isso tenham que percorrer 60 km ou mais. O serviço de maternidade e obstetrícia existentes em Portimão estavam bem organizados e apetrechados, tanto de equipamento como de pessoal, mas em vez de se manter um serviço que funciona bem, não... toca a rebentar com tudo, sem qualquer consideração ou respeito pelos utentes... quando se pensava que somos um país "civilizado", eis quando nos apercebemos que não somos assim tão diferentes dum país de terceiro mundo...
A pergunta sacramental que todos me colocam é: então e já sabes se é menino ou menina? O que leva sempre à mesma resposta... ainda é muito cedo para conseguir saber isso...
Mais de resto, estou feita uma sopeira! Só me apetece comer canja de galinha, caldo verde e todas as sopas existentes e mais algumas... se esta criança não gostar de sopa, não poderei dizer que não foi por falta de ter comido na gravidez!
O Falipe parece contente com a novidade de vir aí um/a irmã/o... mas ainda não se decidiu em relação ao que prefere,
Os humores inconstantes não têm sido lá muito pacíficos, mas eu faço um esforço bem grande para os dominar e não deixar que eles levem a melhor de mim. Porque afinal de contas, as hormonas andam por aqui aos saltos, num labor frenético, mas os que me rodeiam não têm culpa nenhuma disso. E além do mais, eu posso ter mau feitio, mas não tenho qualquer perfil para ser uma grávida rabugenta!
Post editado - afinal a maternidade não vai fechar... mas pode dar-se o caso que o parto tenha que ser em Faro...
31 de dezembro de 2013
Adeus, 2013... Olá 2014!!
Mais um ano que finda.
À laia de balanço do ano de 2013, este foi um ano "desafiante", para não usar outro termo.
Se analisar bem as coisas, creio que para mim foi um ano de "D. Quixote"... porque combati moinhos invisíveis, numa luta interna comigo mesma.
Foi um ano de travessia no deserto, de conhecer mais uma série de facetas próprias, e nem todas elas boas...
Foi um ano de esperança, e subsequentes desilusões, particularmente vindas de pessoas mesmo muito próximas.
Foi o ano em que receei passar a barreira dos 35 anos, para depois os aceitar e receber de braços abertos e gritar "venham eles, e seja lá o que for que tragam, estou cá para tudo!"
Foi um ano de ver o meu filho crescer feliz e saudável, como sempre desejei.
Foi um ano em que reaprendi a lição de que por vezes, é preciso desistir dum desejo e arrumá-lo na gaveta, para que ele depois se concretize e mostre que não é preciso acreditar em Deus, para ter fé! Porque ela está dentro de nós e daquilo que sonhamos e desejamos.
Foi um ano de alargar horizontes, de ver amizades virtuais tornarem-se bem reais.
No fundo, foi um ano de crescimento. Foi um ano de auto-conhecimento, sem sair muito do lugar.
À laia de balanço do ano de 2013, este foi um ano "desafiante", para não usar outro termo.
Se analisar bem as coisas, creio que para mim foi um ano de "D. Quixote"... porque combati moinhos invisíveis, numa luta interna comigo mesma.
Foi um ano de travessia no deserto, de conhecer mais uma série de facetas próprias, e nem todas elas boas...
Foi um ano de esperança, e subsequentes desilusões, particularmente vindas de pessoas mesmo muito próximas.
Foi o ano em que receei passar a barreira dos 35 anos, para depois os aceitar e receber de braços abertos e gritar "venham eles, e seja lá o que for que tragam, estou cá para tudo!"
Foi um ano de ver o meu filho crescer feliz e saudável, como sempre desejei.
Foi um ano em que reaprendi a lição de que por vezes, é preciso desistir dum desejo e arrumá-lo na gaveta, para que ele depois se concretize e mostre que não é preciso acreditar em Deus, para ter fé! Porque ela está dentro de nós e daquilo que sonhamos e desejamos.
Foi um ano de alargar horizontes, de ver amizades virtuais tornarem-se bem reais.
No fundo, foi um ano de crescimento. Foi um ano de auto-conhecimento, sem sair muito do lugar.
13 de dezembro de 2013
A soma de toda a dor
Fiquei consternada quando soube pela Melissa que a Cecília tinha finalmente partido.
Foi consternada que li uma mensagem no FB que a mãe da Cecília escreveu para ela, depois de ela ter partido.
Assim como fico de coração apertado, quase estrangulado, sempre que vejo divulgados cada vez mais e mais casos de crianças a quem o maldito cancro decidiu "visitar"...Porque me vem sempre à memória o rosto dum menino de cerca de três anos com quem me cruzei no IPOFG, numa das vezes que acompanhei a minha mãe aos tratamentos. O rosto dele ficou para sempre gravado na minha memória, o seu rosto de anjo, feições perfeitas, completamente careca, tentando brincar numa sala de espera da sala de análises clínicas. O que melhor recordo nele, além da sua doçura, foi a falta de brilho nos olhos, tão particular e característica numa criança daquela idade...
Nunca soube se ele conseguiu vencer ou se perdeu a batalha como a Cecília...
A imagem daquele menino pairou muitas vezes no meu pensamento depois do meu filho ter nascido. Com o historial médico da minha família e conhecendo demasiado bem a dor de ter perdido a minha mãe para o cancro de mama e depois o meu pai para um adenoma da hipófise (nome pomposo para dizer tumor), eram inúmeras as noites em que olhava para o meu filho a dormir pacificamente na sua cama de grades e pedia a Deus, aos céus, ao universo, a alguém ou mesmo a ninguém, que não me fizesse passar pela dor de perder o meu filho para essa maldita doença que tudo mina, corrói e destrói, até não restar nada...
A razão pela qual pedia agora insistentemente, tem a ver com o facto de após ter perdido ambos os pais para a doença, ter durante anos adoptado uma atitude um tanto arrogante perante a morte, como se fosse demasiado azar para uma pessoa só (já que a probabilidade dum relâmpago atingir o mesmo sítio mais que uma vez é altamente improvável...). Além do mais, várias vezes me disseram "podes ter sorte, e a doença saltar uma geração"...
Agora que o meu filho dormia ali na cama de grades pacificamente, achei-me estupidamente arrogante e além do mais, simplesmente parva por acreditar no saltar de geração da genética cancerosa.
Percebi o tamanho da minha estupidez, pois jamais desejaria conhecer a dor de perder um filho, fosse para o cancro ou outra doença qualquer, ou qualquer outro acontecimento que pudesse arrancar dos meus braços de mãe aquele ser inocente, lindo e puro que conquistou o meu coração na primeira vez que ouvi o seu coração batendo a "galope" dentro do meu ventre!
Nesses momentos e ainda hoje, pedi que se o cancro tiver que aparecer novamente na minha família lagarto, lagarto, lagarto, que acerte em mim e nunca no meu filho! Já conheço a dor de perder os meus ascendentes, não quero jamais conhecer a dor de perder os meus descendentes!
Porque às primeiras perdas sobrevivi... a custo!
À perda dum filho sucumbiria certamente! Como diz a Gralha, vergaria! Até ficar prostrada e sem qualquer réstia de vontade de viver.
Por isso, não começo a compreender a dor que os pais e toda a família da Cecília devem estar a passar neste momento... ficando apenas o fraco consolo de saber que ela não sofre mais...
Por isso, não começo a compreender a dor que os pais e toda a família da Cecília devem estar a passar neste momento... ficando apenas o fraco consolo de saber que ela não sofre mais...
11 de outubro de 2013
Alta competição infantil
Não querendo meter a foice em seara alheia, nem mandar postas de
pescada sobre a forma como cada um decide educar o seu filho e sobre o
que entende ser o melhor para eles...
Mas juro que se me dá uma urticária malina e me assola um tique de nervoso nas pestanas do canto do meu olho esquerdo sempre que ouço mães de meninos e meninas da idade do meu filho (4/5 anos) a afirmar convictas que querem que os seus filhos pratiquem desporto de alta competição...
Subconscientemente, sou levada a pensar que na base deste desejo deve residir alguma frustração mal canalizada ou um sonho qualquer que se lhes ficou por concretizar... mas isto deve ser só o lado mais preconceituoso do meu cérebro que sai da jaula por uns segundos! Ou então, é mesmo só a minha veia preguiçosa, pouco desportiva e nada propensa ao exercício físico regular...
Acredito que os pais queiram o melhor para os seus filhos, certamente! No entanto, tenho algumas dificuldades em compreender que queiram que os seus filhos, com apenas 4 anos, se submetam a treinos fisicamente intensos, vários dias por semana (incluindo sábados) durante mais de 2 horas cada treino.
Não duvido que haja crianças que adoram isto e que isso as faz felizes, por terem apetência para a coisa... afinal de contas há tanto atleta de alta competição que começou assim mesmo, nestas idades...
Mas confesso que este tema me provoca alguns calafrios no pensamento, porque acho que crianças desta idade devem fazer exercício físico regular, sim... mas como divertimento, como brincadeira, como forma de extravasar as suas imensas energias. O desporto deve ser lúdico e não uma corrida para chegar às medalhas em tão tenra idade. E muito menos para saciar uma qualquer sede dos paizinhos...
Mas juro que se me dá uma urticária malina e me assola um tique de nervoso nas pestanas do canto do meu olho esquerdo sempre que ouço mães de meninos e meninas da idade do meu filho (4/5 anos) a afirmar convictas que querem que os seus filhos pratiquem desporto de alta competição...
Subconscientemente, sou levada a pensar que na base deste desejo deve residir alguma frustração mal canalizada ou um sonho qualquer que se lhes ficou por concretizar... mas isto deve ser só o lado mais preconceituoso do meu cérebro que sai da jaula por uns segundos! Ou então, é mesmo só a minha veia preguiçosa, pouco desportiva e nada propensa ao exercício físico regular...
Acredito que os pais queiram o melhor para os seus filhos, certamente! No entanto, tenho algumas dificuldades em compreender que queiram que os seus filhos, com apenas 4 anos, se submetam a treinos fisicamente intensos, vários dias por semana (incluindo sábados) durante mais de 2 horas cada treino.
Não duvido que haja crianças que adoram isto e que isso as faz felizes, por terem apetência para a coisa... afinal de contas há tanto atleta de alta competição que começou assim mesmo, nestas idades...
Mas confesso que este tema me provoca alguns calafrios no pensamento, porque acho que crianças desta idade devem fazer exercício físico regular, sim... mas como divertimento, como brincadeira, como forma de extravasar as suas imensas energias. O desporto deve ser lúdico e não uma corrida para chegar às medalhas em tão tenra idade. E muito menos para saciar uma qualquer sede dos paizinhos...
24 de setembro de 2013
E se...
Não sei se é do Outono que começou num autêntico dia de verão, para logo de seguida mostrar o seu cinzentismo, se é saudosismo pós-férias...
"E se..." parece ser a expressão que tem começado uma série de reflexões familiares.
Eu prefiro pensar que tudo acontece no seu tempo, que sem uns acontecimentos outros não podem ainda ocorrer.
Que não vale a pena estar com "e se..." em relação ao que já foi. Quando muito, apenas em relação ao que está por vir...
Que não vale a pena estar com "e se..." em relação ao que já foi. Quando muito, apenas em relação ao que está por vir...
21 de setembro de 2013
Não sei fazer isso, mas sei fazer aquilo!
Agora que o Falipe entrou no ensino pré-escolar público e para o ano já começará na escola primária (oh meu Deus, mas jááááááá´??!),
sinto-me bastante mais sensível a questões como estas: às dificuldades
de aprendizagem, aos métodos de ensino, à capacidade dos professores em
ensinar e estimular os seus alunos, de forma diferenciada para ir de encontro aos diferentes níveis e capacidades individuais de cada
aluno.
Não é por achar que o Falipe
não é inteligente ou que terá dificuldades em aprender, mas cada
criança tem o seu ritmo, cada uma tem certas e
determinadas aptidões que outros poderão ter em excesso ou em defeito.
As minhas dúvidas residem mais em perceber quais são as matérias nas
quais o meu filho se sente mais à vontade e quais aquelas que o
interessam menos.
Não quero de todo
que ele aprenda e saiba tudo ou seja um génio, não é nada disso... afinal de contas ele
tem uma vida inteira de aprendizagem quotidiana pela frente, em tantos
aspectos. Todos nós aprendemos algo todos os dias, se a isso estivermos
dispostos!
Mas
falo por mim, nem sempre ser de rápida e fácil aprendizagem significa
que teremos a vida facilitada...
Durante o meu percurso escolar
situei-me quase sempre entre os três melhores da turma a que pertencia.
Se com alguns professores, esse facto me granjeava atenção e elogios por
parte do professor - por vezes excessivamente, em detrimento de colegas
meus que possivelmente necessitariam de mais apoio da parte do docente
do que eu - com outros isso significava que era deixada em paz para me
orientar sozinha, sem grande orientação por parte do professor, o que
nem sempre se revelou benéfico.
Em
algumas matérias em que era menos boa, valeu-me a minha mãe! Foi com ela
que aprendi a tabuada correctamente (ainda hoje a sei!!) e como tal
aprendi a fazer contas de multiplicar, mesmo as mais complexas. Já nas
contas de dividir tenho a agradecer à D. Dina, a minha professora da 3.ª
classe, que era da "velha guarda" e descobriu-me a careca em
três tempos: que eu simplesmente não entendia a mecânica das contas de
dividir... e como tal chamou-me ao quadro preto (esse acto tão solene!) e explicou-me tudo tim-tim por
tim-tim!
Foi graças à minha mãe, que
sempre me deu apoio escolar em casa, que aprendi a manusear e consultar
correctamente um dicionário. Foi graças a ela que percebi a importância
deste livro enorme! Como tal, devo-lhe em boa parte o facto de saber
escrever correctamente a minha língua, ou pelo menos assim o acredito.
Por
ter tido esta experiência, é que sei a importância do apoio dos pais na
educação escolar dos seus filhos. Não são só os professores que
ensinam, essa tarefa não é exclusiva deles! Os pais devem contribuir também para isso, porque afinal de contas, também nós andámos na escola, também já fomos alunos, sentimos dificuldades em aprender isto ou aquilo, e além do mais, também nós possuímos conhecimentos que podemos e devemos transmitir aos nossos filhos!
26 de agosto de 2013
Diz que parece que fazer coisas sozinha é coisa de pessoas-meio-estranhas...
A propósito deste post da Sal, teci o seguinte comentário:
"É uma cena que me irrita mesmo, porque não se pode fazer coisas que nos dão prazer sozinhas?! Qual é o mal?!
Eu adoro ir para a praia sozinha, ao cinema sozinha e teria adorado ir à Fatacil sozinha... assim via o que me apetecia, à minha maneira e não teria perdido metade da feira por conta do ritmo dos outros..." (*)
Eu adoro ir para a praia sozinha, ao cinema sozinha e teria adorado ir à Fatacil sozinha... assim via o que me apetecia, à minha maneira e não teria perdido metade da feira por conta do ritmo dos outros..." (*)
Não sei de é de ser filha única e ter crescido um pouco a brincar sozinha, fingindo estar acompanhada, que desde cedo me habituei a fazer "coisas" sozinha.
No entanto, na nossa sociedade, o facto de não nos importarmos e até mesmo desejarmos fazer coisas sozinha, é mal visto! Ou pelo menos, olham-nos com aquele ar de "esta fulana deve ter um parafuso mal apertado" ou "pobrezinha, não encontra nenhuma alminha caridosa que a queira acompanhar sem ser arrastado..."
E isto aborrece-me profundamente! Porque cargas d'água hei-de eu ir acompanhada a qualquer lado, só porque sim, se isso significa que das duas uma: a) um de nós está a fazer um frete tremendo, ou b) alguém abdica de desfrutar condignamente da coisa que está a fazer!??
Não sou de pagar fretes a ninguém, como tal também dispenso que os façam por mim!
Isto tudo leva-me aos saudosos anos de 1998/99 (em que eu fui tão feliz!), nesses tempos que apelidei de "a minha fase egoísta", em que não dava satisfações a ninguém a não ser a mim mesma, ia se queria ir, vinha se queria vir, ficava se queria ficar e tantas coisas coisas que fazia só porque sim, porque me apetecia! E podia!...
Nunca me conheci tanto a mim mesma como nesses tempos, que foram deveras úteis para que soubesse quem eu sou, o queria da vida, o que não queria na minha vida (incluindo pessoas...), o que gosto muito, pouco ou nada. Descobri aquilo que me fazia vibrar e querer ir mais além, e aquilo que me fazia mal e me deixava encolhida em posição fetal, com medo ou aversão.
Esses tempos foram-me muito úteis, voltaria a passar por eles de novo sem qualquer problema, e digo muitas vezes que há pessoas que deveriam passar por uma fase assim nas suas vidas, para descobrirem um pouco melhor quem são verdadeiramente e como podem ser mais felizes.
Acho muito triste que se passe uma existência solitária, estando sempre acompanhada!
(*)Digamos que ainda não digeri bem o facto de que gastei 5€ num bilhete
para ir ver uma feira que me interessava, para ter que andar a
"toque-de-caixa" e ver tudo de relance... aliás, o pouco que consegui ver!
11 de julho de 2013
Certezas
Tu só sabes verdadeiramente o quanto queres algo na tua vida, quando a possibilidade de o concretizar te é retirada, quando te barram o caminho para lá chegar...
27 de junho de 2013
Estranha serenidade
Este ano lectivo do Falipe não correu da melhor forma...
A escolinha onde ele anda desde os 18 meses de idade, neste ano lectivo, não primou pela organização e muito menos pela qualidade do serviço. A sensação que eu e vários outros pais começámos a ter, até se tornar uma constatação da realidade, foi de que o serviço que pagamos se traduzia em cada vez pior qualidade e cada vez menos actividades desenvolvidas.
Eu e o G. já havíamos decidido que este seria o último ano lectivo em que o Falipe iria frequentar uma IPSS a tempo inteiro e que iríamos inscrevê-lo no ensino público.
Se já tínhamos esta decisão tomada, as várias situações desagradáveis que foram sucessivamente acontecendo na "escolinha" ajudaram a cimentar essa decisão e contribuíram para a total perda de confiança na instituição, especialmente ao nível da direcção pedagógica e de serviços e, consequentemente ajudou a que optássemos pela mudança de escola para prolongamento de horário, quando ele entrar no ensino público.
Amanhã será o último dia do Falipe na "escolinha" e eu tenho andado estranhamente serena perante esta realidade... na próxima semana ele irá iniciar o período de férias desportivas, para se ir já adaptando à escola que o irá acolher em prolongamento de horário.
Há dias caiu-me a ficha momentaneamente de que a partir de segunda-feira ele passará a estar a cargo de pessoas que não conheço... e senti um aperto no coração de mãe assumidamente galinácea...
Mas se noutra ocasião similar, sofri horrores por antecipação e deixei de dormir em condições na semana que precedeu a mudança, desta vez, até parece que nada se irá passar.
Se da outra vez saí da escola lavada em lágrimas por estar a mudar o meu pequeno filhote de escola, a afastá-lo das crianças que se tinham tornado seus amigos, desta vez sinto uma indiferença perante essa realidade, que até me assusta...
Se noutras alturas pensava e repensava as minhas decisões e tentava antecipar todas as possíveis consequências de uma mudança por mim decidida na vida do meu filho, desta vez não o fiz... De alguma modo, a decisão que tomei baseia-se na convicção de que esta mudança será certamente benéfica para ele e contribuirá largamente para o seu desenvolvimento pessoal.
Talvez seja também a convicção de que o Falipe é uma criança que se adapta com uma facilidade incrível e até parece estar entusiasmado com a novidade de ir para outra escola.
11 de abril de 2013
Amarras
Vivemos cheios de amarras, de elos que nos apertam e sufocam.
Sentimos o aperto em que elas nos vão levando, na rotina quotidiana, na monotonia de horários certos a cumprir.
Sentimos o quanto nos sufocam, nos retiram oxigénio e nos tentam impedir de ir à luta concretizar sonhos e projectos de vida.
Sentimos o estrangular que elas nos provocam sempre que vemos as notícias e sabemos o caminho que o país leva por estes tempos conturbados e incertos de falta de esperança.
Mas há que quebrá-las!
Há que rompê-las!
Há que soltar-nos delas!
Sejam elas visíveis, palpáveis ou meras produções imaginárias da nossa mente sobrecarregada e sobre-lotada de obrigações, de compromissos, de expectativas que necessitam ser preenchidas.
E talvez cheguemos à simples conclusão de que todas as amarras que sentimos em torno do nosso pescoço, pulsos e tornozelos, fomos nós que as criámos e que nos manietamos a nós mesmas.
5 de abril de 2013
O que queres ser quando fores grande?!
Não me lembro nunca de ter sabido com toda a certeza, daquela que vem do profundo das entranhas, o que queria ser quando crescesse.
Recordo-me mesmo de que estava sempre a mudar de profissão, ou não fosse a indecisão uma das minhas características.
Mas só sou indecisa quando aquilo que está "em cima da mesa" para ser decidido, não me inspira a 100%, quando há algo que suscita mais dúvidas que certezas, passe a redundância do raciocínio.
Quando há algo que quero muito, a indecisão nem sequer se apresenta, não há dúvidas, há apenas aquela convicção firme, instantânea e espontânea, quase como se fosse uma realidade predeterminística (esta palavra existe?!)
Não sei se foi por nunca saber ao certo o que queria ser quando fosse grande que já mudei de rumo profissional umas quantas vezes, saltitando duma profissão para outra... houve uns tempos em que senti que aquele título profissional específico me definia, que se encaixava, que me identificava. Até ter mudado novamente de emprego e como tal de título profissional.
Hoje em dia, sinto-me uma espécie de híbrido... nem sou carne nem sou peixe, e nem me aparento a um legume...
Hoje em dia, estou absolutamente convicta de que ainda saltitarei para outra qualquer ocupação profissional. E para já é essa a certeza mais acertada que tenho!
E não é só porque os tempos de hoje se caracterizam por já não existirem empregos para a vida. Eu bem sei que sempre me senti grata por essa realidade... descobri isso naqueles 4 dias que fui fazer um biscate numa empresa de cerâmica conimbricense, a tirar pratos dos moldes (a bater punho para ajudar o meu pai a pagar propinas, como diria o Miguel Gonçalves...) e por isso dei graças aos meus pais por terem investido na minha educação, o que me abriu um leque muito maior de escolhas no campo profissional, em vez de ter que me cingir a empregos cuja progressão profissional era completamente diminuta... não que os menospreze, nada disso! Todos os trabalhos são dignos e temos que dignificar quem os realiza. Mas naqueles quatro dias agradeci por ter a possibilidade de escolher entre ter um emprego a tirar pratos dos moldes para o resto da vida ou fazer outra coisa qualquer que me desse mais prazer!
No entanto, sempre soube com toda a certeza que não queria ser bailarina... apesar de ficar horas a ver a boneca da caixa de música da minha mãe, que veio da Índia, rodar sobre si mesma, sempre ao som dos mesmos acordes.
3 de abril de 2013
A exigência da perfeição
Nos dias que correm, sinto que vivemos uma vida cheia de exigências, que crescem de dia para dia, que se agigantam diante de nós e que nos deixam tolhidos na vontade, transidos de medo. De medo de falhar, de não estar à altura, de não conseguir encaixar totalmente no molde padrão dos demais, daqueles que clamam ser felizes.
Exigem que sejamos perfeitas na vida pessoal, na vida familiar, na maternidade, na carreira profissional, que sejamos criativos, que sejamos filantropos, que ajudemos os outros num gesto de puro altruísmo e abnegação, que sejamos cultos e letrados, que sejamos optimistas, que sejamos pessoas de cara alegre, que sejamos pessoas fortes, que sejamos pessoas carregadas de projectos e sonhos, que saibamos como ser felizes!
Parece ser imperativo que sejamos capazes de dizer clara e inequivocamente o que queremos da vida, de sabermos com certeza milimétrica aquilo que nos faz feliz, aquilo que nos move.
Parece ser cada vez mais uma exigência de que sejamos capazes de inspirar os outros, de motivar os outros, de sermos líderes de uma manada qualquer de carneiragem, de sermos um ídolo para vários, um exemplo de integridade ou de génio criativo a quem todos querem igualar. O pior é quando nem somos capazes de nos auto-motivar...
Quanto mais ouço e leio por aí que temos que ser capazes de tomar as rédeas do destino, de seguir os nossos sonhos, de avançarmos de mangas arregaçadas para trilhar o caminho que nos leva à felicidade, só consigo é focar-me no facto de que isto dito assim parece uma tarefa facílima, que não implica grande esforço e que depende apenas de uma pequena coisa, aparentemente insignificante: a força de vontade!
Quanto mais os ouço clamar a felicidade porque seguiram o seu coração, coadjuvados pela sua enorme força de vontade, quanto mais os ouço apregoar que atingiram o nirvana, de que descobriram a forma de serem felizes todos os dias e vivem serenamente na sua perfeita vida, eu interrogo-me mais e mais sobre mim mesma...
Interrogo-me sobre as minhas próprias incapacidades, sobre a minha falta de domínio sobre essa coisa abstracta chamada força de vontade, que eu conheço bem, porque já a confrontei tantas a tantas vezes, nem sempre conseguindo dominá-la.
Interrogo-me porque é que os meus sonhos não são claros e muito menos precisos, e até mesmo se é suposto que eles sejam assim o sejam.
Interrogo-me sobre esta incapacidade de não conseguir enxergar o caminho por onde avançar, e interrogo-me se é por isso que me deixo estar queda e quieta, sem sair do lugar.
Interrogo-me sobre uma incapacidade adquirida de me sentir surda perante os propósitos do meu coração, e interrogo-me mesmo se sou eu que estou surda perante os seus desígnios ou se foi ele que hibernou e entrou em voto de silêncio, deixando de proferir as suas vontades.
Olho em minha volta e interrogo-me se esta gente tão esplendorosamente perfeita o é na verdade...
Começo a suspeitar que tudo isso não passa de uma trapaça tremenda e de uma enorme encenação. E que eu é que estou errada por ser tão transparente e tão espontaneamente materializar as minhas próprias dúvidas.
Mais ainda, interrogo-me sobre de onde veio esta tão grande necessidade de fazermos aquilo que nos faz felizes a toda a hora e a todo o minuto. De onde surgiu esta enorme necessidade de seguir frases feitas, que nos servem de inspiração... e fico abismada com a quantidade de clichés e tiradas carregadas de suprema sabedoria que existem sempre em tudo quanto é lugar, sempre a chamar-nos a atenção e por o dedo na "minha ferida"...
Será mesmo preciso aspirar à grandeza para sermos felizes?!
Creio que sempre soube a resposta a isto: não!
21 de março de 2013
"Quer o destino que eu não caia no destino"
A natureza humana é um quebra-cabeças e poucos se podem gabar de ter conseguido sequer começar a entender os seus milhares de segredos.
A natureza do ser humano é ser permanentemente insatisfeito e muitos de nós vivemos, em maior ou menor grau, algum tipo de contradição de sentimentos, emoções, atitudes e acções.
Todos nós em algum ponto da nossa vida, já nos sentimos bem com uma coisa que até nos entristece e aquilo que é motivo de felicidade até não nos traz alegria nenhuma, sem que consigamos explicar as razões de tamanha contradição.
Todos nós já dissemos alguma coisa, quando sentíamos o oposto e todos nos sentimos de uma determinada forma, mas agimos em sentido totalmente oposto.
No fundo, a nossa essência assenta no facto de sermos um poço de contradições, de incoerências, de impermanência, de o que sentimos não bater a bota com a perdigota com o que dizemos e fazemos.
Talvez por isso tenha começado a conseguir compreender um nadinha a velha tirada batida e rebatida de "andar em buscar de nós mesmos, para nos encontrarmos"!
Habitamos em nós, mas andamos sempre em busca de nós mesmos, como um cão que anda em torno de si mesmo a tentar caçar a sua própria cauda.
Sofremos de inquietude permanente por esta insatisfação que borbulha na sombra de nós mesmos.
E nem sempre é possível expressar esta inquietude e descrever este estado de insatisfação latente... nuns será isso que os move, que os motiva, que lhes fornece o impulso de continuar e avançar em busca de algo mais. Noutros será exactamente isso que os tolhe, que os acobarda, que os amedronta.
E eu confesso que já fui bem mais destemida, bem mais desprovida de incoerências, bem mais plena de certezas sobre que caminhos tomar, sobre que sonhos queria concretizar, muito mais firme em manter-me fiel a um fio condutor de valores e princípios, pelo qual sempre me orientei.
Por isso, por estes dias sinto que vivo "na incerteza que nada mais certo existe, além da grande certeza de não estar certa de nada"!!
"Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum
Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente
Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste
Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro
Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada"
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum
Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente
Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste
Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro
Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada"
6 de março de 2013
8 de fevereiro de 2013
O medo #2
"Life shrinks or expands in proportion to one's courage!"
O medo, esse maldito, enredou-me lenta e silenciosamente nos seus tentáculos. Fez de mim uma
cobarde.
À medida que tomava conta de mim, levou-me a ir adiando coisas, conversas,
debates, decisões, acções.
Fez-me lenta e progressivamente ir receando o futuro, e incutiu-me um certo pavor perante as
consequências de actos de coragem e de uma qualquer tomada de atitude, motivada por alguma forma de valentia.
Fui-me rendendo aos receios e às incertezas que construí, sem querer pagar para ver.
Escondi-me atrás da rotina do quotidiano, lapidando subrepticiamente o meu brilho e o meu brio.
Erodiu a minha auto-estima, sufocando-me com os seus murmúrios, como as ondas erodem as rochas das falésias, dando-lhe uma forma diferente, mais polida, mais macia, menos rude e selvagem...
Depois trouxe a ansiedade e somou-lhe as dúvidas a toda a hora.
Amedrontou-me com todos os cenários de crise, de aumento de impostos, de desemprego. Fez com que me encolhesse sobre mim mesma, deixando-me curvada e prostrada perante o panorama negro que se agigantava diante dos meus olhos e em todo o meu redor.
Por muito que tentasse libertar-me destas correntes invisíveis, as palavras crise e austeridade cercavam-me por onde quer que fosse. Encurralou-me, como fez a tantos outros, e deu uma valente sova na minha moral...
Os medos dos outros, juntaram-se ao meu, qual gangue organizado... e eu fui-me rebaixando cada dia mais um bocadinho, cedendo terreno dentro do pensamento e do coração.
Foi-me aprisionando e eu fui permitindo e aceitando a minha "gaiola".
Tornei-me um tanto sombria. Perdi perspectiva. Perdi capacidade de auto-crítica e de me distanciar para poder analisar a situação.
Acrescentou-lhe a crescente desilusão perante mim mesma, por ter cedido. Por ter perdido a capacidade de rebentar amarras e simplesmente arriscar, porque a intuição a isso me impelia.
A voz da certeza, foi ficando pequenina, mas nunca se calou... mas foi enfraquecendo e em algumas ocasiões remeteu-se ao silêncio. Um silêncio pesado e doloroso!
Deixei de conseguir perceber onde terminava a influência dos medos dos outros sobre mim, e onde começava o meu próprio medo. Rendi-me a ele e fui continuamente alimentando a sua fome, sequiosa. Essa fome à qual nunca respondi não.
E eu, outrora destemida, valente e voluntariosa nas minhas decisões acções, tornei-me alguém tolhida pelo medo, incapaz de enfrentar o incerto, mesmo com a perspectiva de mudança para melhor...
E pior, plenamente consciente da besta que albergava e acolhia.
Consciente e entristecida pela constatação da realidade.
25 de janeiro de 2013
Contemplar
Teria eu uns oito, nove anos quando comecei a aperceber-me que o meu pai chegava a casa, estacionava o nosso velhinho Fiat 127 azul escuro em frente ao prédio e ali ficava, sentado, sem sair do carro para entrar em casa.
Ficava ali por uns dez a quinze minutos a contemplar o vazio, como que alheado de tudo e de todos à sua volta.
Comecei a espiá-lo por detrás dos cortinados rendados da janela do meu quarto. Ficava meio encolhida a vê-lo a contemplar o vazio, sentado no nosso Fiat 127, sentado ao volante... Era como se estivesse a acompanhá-lo, mesmo sem que ele soubesse.
Parecia que ele estivesse a fazer um compasso de espera, antes de entrar em casa. Como se em casa não pudesse ter tempo ou espaço para ficar sentado a contemplar o vazio...
Eu questionava-me sobre o que poderia levar o meu pai, esse homem alto e forte, bem disposto e carinhoso, a ficar sentado dentro do carro a olhar fixamente para o nada.
Questionava-me sobre que pensamentos lhe estariam a ensombrar o espírito. Vezes houve que gostava de ser um pequenino ser com poderes para lhe ler os pensamentos.
Naquele contemplar havia como que uma certa expressão de tristeza no rosto... como se ele estivesse a tentar fugir à realidade... e eu queria tanto perceber o que lhe ia no pensamento e no coração.
Há umas semanas atrás, dei por mim, sentada dentro do carro, ao volante, parada e quieta a contemplar o vazio, em frente à porta do infantário do meu filho.
Naquele momento fixava um ponto qualquer que nem sei bem qual era, mas os meus olhos estavam abertos, sem pestanejar. No entanto, não viam nada de concreto, não observavam qualquer pormenor...
O pensamento permanecia parado, oco, como se o cérebro estivesse desligado. Como se tivesse hibernado instantaneamente...
Sei que estive neste estado, nesta espécie de transe contemplativa, por uns bons dez minutos. Durante esse tempo, olhei fixamente o vazio e não pensei em rigorosamente nada... Não sei sequer que propósito este estado tinha para mim...
E de súbito, tal como sucedia com o meu pai, como que "despertei" e caí em mim, retirei a chave da ignição do carro e saí para ir ao encontro do meu pequeno tesouro.
Porém, tive a percepção de que algum modo, foi como se recuasse no tempo... mas a uma pessoa diferente.
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