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12 de junho de 2017

Os amigos do Filipe #2

Sou sempre eu que levo o Filipe à escola de manhã, sou quase sempre eu que o vou buscar ao ATL, sou sempre eu que o acompanho nas festas de aniversário e sou iinvariavelmente eu que vou às actividades escolares (dia da profissão, dia do conto, etc.).

Por altura do dia do Pai, o G. que detesta os jogos de futebol que sempre se organizam por esta ocasião, compareceu na mesma, mas sem entrar no jogo.

Um dos melhores amigos do Filipe, quando finalmente conheceu o G. faz uma festa autêntica:

- Yeeeeahhhhhhhhhhhhhhh, finalmente conheci o pai do Filipe!

O G. desatou a rir. Por aquela é que ele não esperava!

7 de outubro de 2016

Pertencer

Ao ver o filme Filomena (*), ocorreu-me...

As mães dão-nos um sentido de pertença, de sermos parte de algo, dum local, de alguém, de uma história de família...

Por mais que a vida dê voltas, será sempre a esse sentido de pertença, a essa origem, que voltaremos para nos situarmos, quando estamos perdidos, ou quando queremos decidir um caminho.

(*) - escusado será dizer que chorei que nem uma Madalena...

22 de abril de 2016

It takes a village...

Dizem que é "preciso uma aldeia para criar uma criança".

O pior é quando estamos sós no meio duma ilha deserta perdida no meio do oceano, desconhecida no mapa...

3 de maio de 2015

Dias agridoces

O dia da Mãe é sempre um dia complicado para mim.

Sinto-me grata por ser mãe e pelos filhos lindos, saudáveis e maravilhosos.

Sinto-me emocionada com as lembranças feitas na escola, com a colaboração deles.

Sinto-me tremendamente privilegiada por ter este papel importantíssimo nas suas vidas e por me ser dada esta oportunidade de amar dois seres da forma mais forte e genuína.

Mas... Há e haverá sempre um mas...

Sinto uma enorme tristeza por não ter a minha mãe comigo. Há 20 anos que não a abraço neste dia. E pior... Daqui por 3 dias será a data do seu aniversário...

E eu nunca senti tanto a falta da minha mãe como agora, que também sou mãe!

Mãe, onde quer que estejas... Adoro-te!!

25 de dezembro de 2014

Nataliversário ou Anivernatal

6 anos de Falipe.
6 anos de descoberta da maternidade.

Têm sido anos de muita alegria, felicidades, birras, choros, aprendizagens novas, preocupações (umas fundadas, outras apenas medos irracionais...), descobertas (de ti e de mim, enquanto mulher e mãe).

Tu és o meu tesouro, o meu amor pequenino, que me tem dado tanto! Com a tua inocência de criança, com a tua alegria contagiante, com a tua simpatia espontânea, tens-me ensinado a ser mais paciente e calma, a perdoar depressa sem reservas.

Mas também me tens mostrado o quanto dei "água pela barba" aos teus avós... Afinal de contas a tua teimosia veio de algum lado... Herança genética tramada por vezes...

Hoje é o teu aniversário, e eu celebro os teus 6 anos.

E eu celebro-me como mãe, que te ama profundamente e que há 6 anos por esta hora se apaixonou irremediavelmente por ti!

13 de outubro de 2014

Parar o tempo #2

Está frio lá fora.
Ameaça chover.

Tu dormes pacificamente na cama grande do teu mano.

Eu sentada no cadeirão, tricoto um casaco para ti.

Amanhã será dia de festa...

Faltam 4 dias para regressar ao trabalho... E deixar de ver os teus sorrisos e as tuas bochechas rechonchudas a toda a hora...

2 de setembro de 2014

Isto não é fácil...

Tentar fazer com que um miúdo de 5 anos esteja sossegado e faça pouco barulho porque o irmão bebé está a dormir é difícil.

Mas tentar evitar que um bebé pare de chorar porque há um adulto a dormir de dia para descansar da noite de trabalho... É muito mais complicado!!

27 de agosto de 2014

Mãe sofre!!!

Pela primeira vez, o Filipe teve que fazer análises, para despistar alergias, e para preparação para a cirurgia aos adenóides e ouvidos.

Acho que me custou mais a mim que a ele...

Apesar de medroso no início e nervoso quando viu que lhe iam espetar uma agulha, foi um valentão e não chorou como ficou muito quieto.

Valeu-lhe uma série de elogios da enfermeira!

E agora anda com o braço esticado, como se fosse um pardal de asa partida.

Um corajoso!

Eu é que sou uma coração fraco, não posso saber que espetam coisas afiadas nos meus meninos!

23 de maio de 2014

Miopia social selectiva

Por um lado dizem-me:

Eh pá, que grande barrigão! Estás enorme!

Por outro chego às filas de supermercado e o comentário é sempre:

Ah desculpe, não a vi...

Em que ficamos?!

* - desta feita posso afirmar que não usei da regra de prioridade à grávida em lado nenhum. Não calhou...

6 de maio de 2014

Dia da Minha Mãe

Fazes-me falta desde que partiste.
Fazes-me falta desde 1995.

Fizeste-me falta numa série de ocasiões importantes, momentos decisivos da minha existência, que eu queria partilhar contigo antes de o fazer com quem quer que fosse.

Às vezes parece que a falta que sinto de ti se esbate e se atenua ligeiramente, ficando no seu lugar a memória saudosa do teu rosto, das tuas mãos pequeninas de pele desgastada pelos anos de labuta no campo e depois na máquina de escrever, dos teus cabelos brancos a orlar os demais, o verde dos teus olhos. O espaço do teu colo que o meu corpo ocupava na perfeição. O calor do teu corpo e a força suave dos teus braços em volta de mim. Os teus beijos calorosos e a tua voz apaziguadora e serena. A tua eterna e infindável paciência para me aparar os ataques de mau génio e explosões de impulsividade próprias da idade e da minha personalidade "forte".

Fizeste-me tanta falta quando descobri que ia ser mãe, e mais ainda quando o fui de pleno direito. Fizeste-me falta por faltares ao meu filho, por não haver na vida dele o privilégio da tua presença. Há tanto de ti que não lhe pude ainda dizer, mas que sei que direi, porque o quero fazer e porque sei que ele vai querer saber quem era a avó Vera!

Mas fazes-me ainda mais falta agora. Agora que estou prestes a ser mãe de segunda volta. Faz-me falta a tua calma, a tua serenidade, a tua sensatez e profunda sabedoria para encontrar soluções simples. Fazes-me falta para me segurares a mão nesta etapa que sei que será doce e dura em simultâneo. Para me dizeres que está tudo bem e que tudo vai correr bem, enquanto me acaricias o rosto com as tuas mãos pequeninas.

Fazes-me falta agora mais que nunca por faltares aos meus filhos, aos meus meninos, pela ausência da tua presença luminosa na vida deles.


E enquanto eu só quero recordar-te num misto de felicidade por ser mãe plena e de saudosa dor por não te poder abraçar, ficando no meu espaço vital, há quem seja egoísta e hipócrita e queira celebrações à sua vontadinha, sob o argumento de agradar à sua mãe, aquela que nos restantes dias do ano maltratam psicologicamente com uma violência que me afecta. Cai-me mal, e a mãe não é minha! E eu decido fazer birra... e enquanto vou lambendo as minhas feridas, decido que não quero gramar fretes nem ir a almoços com gente que não sabe honrar a mãe que ainda têm.

11 de março de 2014

Os nossos filhos quase perfeitos

Ser mãe é olhar para os nossos filhos e vê-los com uns óculos especiais, que descartam toda e qualquer imperfeição, que obscurecem qualquer traço de fealdade (grande ou pequeno), que permitem ignorar deliberada e inconscientemente as principais características de feitio menos agradáveis desculpabilizando a nossa cria por ser teimosa, voluntariosa ou outra coisa qualquer terminada em "osa"... apelidando esses traços como "personalidade forte".

Ser mãe é querer e logo assumir que os nossos filhos são seres perfeitos, exemplares, magníficos, sumidades de inteligência e modelos de beleza. Aos nossos olhos eles são e sempre serão absolutamente perfeitos!

No fundo, nós sabemos que eles certamente terão imperfeições e é preciso algum esforço de reconhecimento dessas mesmas pequeninas falhas ou defeitos.

Bem dentro de nós acalentamos o desejo de que nenhum mal caia sobre eles, que nada os magoe ou lhes traga sofrimento, por menor que seja. Preferimos olhar para eles e ver apenas o que de bom herdaram de nós (do pai e da mãe e até mesmo dos avós) e atirar para trás das costas a possibilidade de trazerem dentro de si alguma herança genética ou "personalística" que se possa assemelhar aos nossos piores defeitos, incapacidades e imperfeições.

Ora isto é convicção para dar azo a muitos choques e desilusões. Especialmente quando descobrimos que apesar de sermos ceguetas de um olho e precisarmos de óculos desde tenra idade e para o resto da vida, fomos incapazes de perceber que o nosso filho encerra a herança genética de hipermétrope, mas num nível agravado. Queremos que eles continuem perfeitos e duvidamos do diagnóstico, incrédulos perante a nossa própria cegueira incapacitante, que não nos deixou ver que ele escondia um problema de visão que o fará usar óculos desde tenra idade e para o resto da vida.

Queremos ouvir segundas, terceiras, quartas e infinitésimas opiniões, se isso significar que nos digam que afinal eles não vão ter que passar pelo estigma do "quatro-olhos", do "pitosga", do "menino dos óculos de lentes de fundo de garrafão", nem se vão aborrecer sempre que as lentes ficarem embaciadas porque andaram a correr que nem uns doidos no recreio, nem ter que justificar cabisbaixos aos pais como partiram as hastes.

Depois do choque inicial e da percepção exacta da realidade começar a assentar no nosso pensamento, percebemos que usar óculos é de somenos, porque há problemas bem piores na vida. E heranças genéticas bem mais pesadas que não convém nada carregar...

6 de março de 2014

Amour

Eu sabia que não devia ter visto este filme... eu sabia que ver este filme traria ao de cima recordações passadas.

Achei curioso que a RTP tenha achado por bem informar antecipadamente que o filme continha cenas susceptíveis de ferir os mais sensíveis. É pena que lhe tenha aplicado uma bolinha vermelha no canto superior direito... à imagem de um qualquer filme violento, com cenas de nudez ou sexo explícito ou palavreado menos "adequado".

Este filme fere os mais sensíveis, sim! Porque retrata de uma forma bastante fiel e objectiva a nossa própria mortalidade, a (in)dignidade da velhice e os problemas a ela associados, a decrepitude do corpo de um qualquer ser humano e a tristeza que é ter um fim de vida sobre o qual não temos qualquer controlo.

Este filme merece ser visto! Mas preparem-se, porque não há cá floreados nem dourar de pílula sobre a nossa finitude.


21 de fevereiro de 2014

Conselhos sobre gravidez e maternidade no masculino

No último semanário comentei que os melhores conselhos que recebi vieram de colegas meus de trabalho, todos eles pais, uns de um filho, outros já pais de segunda volta.

A Magda ficou curiosa e a M&M também sobre que dicas seriam essas...

Assim sendo, aqui vai uma pequena lista de coisas que me aconselharam e que eu ainda me recordo:

- não compres esterilizador de biberões! é caro, e depois não vais usar aquilo quase nunca!

- a melhor marca de biberões é a Avent, as tetinas são as que evitam melhor que o bebé engula ar

- não te aflijas por te dar brancas! É normal as mulheres grávidas terem esquecimentos e lapsos de memória...

- nas primeiras duas semanas restringe as visitas a tua casa, diz para avisarem antes de ir. Vais estar super cansada, com os horários todos trocados e há pessoal que não tem noção dos horários... e se aparecerem sem aviso prévio, não tenhas problemas nenhuns em mandá-los pelo caminho que vieram! Ah e nem penses em pôr-te a acordar o bebé só porque a malta o quer ver (aqui tenho a dizer que não precisei explicar isto aos meus amigos e familiares, porque todos estavam sensibilizados!)

- se o bebé tiver cólicas, é usar uma sonda de gases (sim, tive um colega que não só me falou na sonda, como me trouxe uma para eu ver e exemplificou como se usava e tudo, perante a minha estupefacção!)

- é melhor tirares a licença de cinco meses e não de quatro! Vais ver que mesmo os cinco meses não te vão chegar... vais querer ficar em casa mais tempo (sim, eu ainda ponderei tirar só 4 meses... porque receei dar em maluca por estar tanto tempo afastada da minha actividade profissional... mas eles estavam cobertos de razão! No dia que regressei ao trabalho, chorei baba e ranho desde que saí de casa até chegar ao trabalho, 17 km e 20 minutos depois!)

- quando estiveres em casa de licença, deixa a lide doméstica para segundo plano, senão não vais dar conta do recado...

Houve mesmo colegas, os pais de segunda volta, que me chegaram a dar alguns conselhos sobre como lidar com o filho mais velho, caso tivesse o segundo. O que melhor me recordo é que deveria sempre ir buscar primeiro o mais velho à escola e só depois o segundo.

1 de janeiro de 2014

Ano Novo, Vida Nova!

Se tudo correr bem, 2014 será um ano mesmo importante!


Será o ano em que serei mamã de novo!
E o Falipe vai ter um irmão/ã!

1 de novembro de 2013

No dia de Todos os Santos...

Em vez de assinalar o Halloween ou o Dia das Bruxas, ou que seja destas festas importadas...

Em vez de brincar aos fantasmas, aos monstros e às bruxas, assumi seriamente a minha obrigação de filha única, e fui tratar da tua lápide tumular, pai.

Escrever a dedicatória para ser gravada na fria pedra mármore foi uma tarefa complexa para mim, que quase 4 anos passados, sinto que ainda não consigo ter o distanciamento necessário para escrever a saudade que carrego e a tristeza de não estares cá. Há o espaço de gravação a ser considerado, e também o custo da gravação à letra...

Eu sei que já deveria ter tratado deste assunto, mas a força para o fazer, só agora reuni...

A escolha da fotografia não foi tarefa menos simples. Porque apesar de eu gostar mais desta ou daquela fotografia, recordo-me bem que as detestavas por esta ou aquela razão e dizias sempre que não tinhas "ficado bem"!

O senhor que me atendeu na oficina de mármores fez-me perguntas para as quais não sabia bem as respostas... a não ser dizer aquilo que ele já depreendera: 

É a primeira vez que mando fazer uma lápide!

Espero bem que nem tão cedo tenha que tratar de mais alguma...

11 de outubro de 2013

Alta competição infantil

Não querendo meter a foice em seara alheia, nem mandar postas de pescada sobre a forma como cada um decide educar o seu filho e sobre o que entende ser o melhor para eles...

Mas juro que se me dá uma urticária malina e me assola um tique de nervoso nas pestanas do canto do meu olho esquerdo sempre que ouço mães de meninos e meninas da idade do meu filho (4/5 anos) a afirmar convictas que querem que os seus filhos pratiquem desporto de alta competição...

Subconscientemente, sou levada a pensar que na base deste desejo deve residir alguma frustração mal canalizada ou um sonho qualquer que se lhes ficou por concretizar... mas isto deve ser só o lado mais preconceituoso do meu cérebro que sai da jaula por uns segundos! Ou então, é mesmo só a minha veia preguiçosa, pouco desportiva e nada propensa ao exercício físico regular...

Acredito que os pais queiram o melhor para os seus filhos, certamente! No entanto, tenho algumas dificuldades em compreender que queiram que os seus filhos, com apenas 4 anos, se submetam a treinos fisicamente intensos, vários dias por semana (incluindo sábados) durante mais de 2 horas cada treino.

Não duvido que haja crianças que adoram isto e que isso as faz felizes, por terem apetência para a coisa... afinal de contas há tanto atleta de alta competição que começou assim mesmo, nestas idades...

Mas confesso que este tema me provoca alguns calafrios no pensamento, porque acho que crianças desta idade devem fazer exercício físico regular, sim... mas como divertimento, como brincadeira, como forma de extravasar as suas imensas energias. O desporto deve ser lúdico e não uma corrida para chegar às medalhas em tão tenra idade. E muito menos para saciar uma qualquer sede dos paizinhos...


13 de julho de 2013

Coração de mãe temporariamente parado...

Naqueles dois ou três segundos que mediaram eu ter desviado o olhar de ti, mesmo ao meu lado, sentado no bordo da piscina, e o te ter visto no fundo da piscina, qual boneco que foi lentamente ao fundo... 

O meu corpo reagiu instintiva e instantaneamente para te agarrar os braços que tinhas ao alto, a pedir socorro!

Assim que te retirei da piscina, o teu coração pulava descompassado do susto e algo receoso que eu te ralhasse por teres ignorado os meus avisos sucessivos e cada vez mais veementes de que tivesses cuidado, para não escorregares do bordo da piscina. 

O teu corpinho de menino tremia assustado por conta da água que engoliste, na tentativa vã de respirar...

Não estiveste na água mais do que dois ou três segundos, mas foram os suficientes para o meu coração de mãe se suspender temporariamente!

Apesar disso, o meu corpo reagiu em piloto automático, enquanto te tentava acalmar e fazer com que o susto te passasse.

Foi só quando te vi a saltar dentro do castelo insuflável, feliz e já esquecido do percalço aquático, que o meu coração se acelerou erraticamente e caí em mim e no perigo em que estiveste... e comecei a tremer que nem varas verdes por dentro!

tirada da APSI

23 de dezembro de 2012

Epifanias do luto #2

"Eu acho que finalmente entendi o vazio que quis tapar!
Foi o vazio da tua morte, pai, e do luto mal feito que mantive de há três anos para cá. 
Porque fiz um luto superficial! 
Porque fiz um luto em piloto automático, gravei-o no pensamento como uma cassete que punha a rolar sempre que o assunto «morte do pai» vinha à baila. 
Porque é que digo que o luto por ti foi mal feito, pai? Porque o luto é toda uma forma de aceitação e de estar em paz com essa realidade que foi perder-te. É aceitar que as mágoas entre nós estão lá atrás e que as devo simplesmente «largar». Mas aceitando que tenho saudades tuas, porque depois da aceitação é isso que fica, é isso que permanece! É a saudade...
Mas muito mais a lembrança de ti, de tantos momentos passados, bons e maus. 
E perceber que todas as culpas que carrego comigo foram apenas culpas que congeminei em pensamento e depositei como pedregulhos no meu coração e grilhões nos meus tornozelos e pulsos, e que me têm atalhado a progressão. Porque eu ando para a frente, mas a passos muito lentos! Ou então tenho andado em círculos à procura de algo que está fora dessa circunferência...
(...)

Por isso, creio que hoje compreendi que finalmente comecei a encerrar o processo de luto, que foi algo atribulado, porque finalmente aceitei que tu partiste e que já não importa se podia ter feito mais para te prolongar a vida e principalmente para te minimizar a solidão em que vivias!
Finalmente aceitei sem culpas que o que está feito, feito está e senti-me em paz com isso. 
Não posso negar que chorarei na mesma quando a saudade de ti se crava no meu coração com mais força, mas torna-se mais fácil recordar-te e sorrir, porque o aperto no meu peito se desvaneceu..."

Escritos, 29Nov2012

22 de dezembro de 2012

Epifanias do luto #1

"A dor permanece escondida no mais recôndito espaço da minha memória. 
A tristeza e a dor foram enviadas para o mais fundo do subconsciente.
Na devida altura em que os meus olhos deviam ter desaguado os rios do meu sofrimento, não houve tempo, não houve hipótese...
Compromissos e reuniões fúteis, pura perda de tempo, com homens arrogantes e cheios de certezas, exigiam de mim a presença de espírito e a clareza de raciocínio próprios de alguém que não a Naná recém órfã...exigiam um estar que eu não era capaz de cumprir, mas cumpri mesmo perante a insensibilidade destes homens que nunca perderam nada na vida ou nunca souberam o que era perda. Já eu, com tão pouca idade, conhecia a perda de um progenitor bem demais... 
Estes homens arrogantes que ainda ousaram escarnecer da minha tristeza e usá-la como razões para me atacarem no desempenho profissional. Mas eu permaneci de cabeça erguida, não sei ainda bem à custa de que forças e em nome do quê ou de quem... mas escolhi não dar parte fraca diante de homens ignorantes do que é a morte... já que eu, por esta altura já quase a tratava por tu! 
Homens ignorantes e altivos que sucumbiriam facilmente à enorme e profunda tristeza de perder alguém que nos deu vida. 
Passei a viver maquinalmente, como forma de me manter à altura daquilo que me era exigido!
 
Quando eu precisava chorar convulsivamente até ficar sem fôlego e o ar me faltar porque os soluços me impediam de fazer esse simples exercício de inspirar e expirar, tive que engolir tudo... porque chorar tornou-se supérfluo diante das necessidades maiores do meu pequeno filho. Não porque ele não me deixasse, mas apenas e tão só porque não quis que ele visse e sentisse as minhas lágrimas... Decerto deve ter sentido a minha tristeza, porque eu sentia a sua agitação, diferente do habitual.
 
Carpir foi sempre sendo adiado, em nome de valores mais urgentes e prementes. A dor foi mitigada a martelo e coberta em esquecimento. Nas raras ocasiões em que as lágrimas ganharam a batalha, era sempre de fugida e às escondidas...de algum modo os demais esperavam que eu mostrasse o meu lado mais forte, que fosse a "força da natureza" que sempre se apresentou diante deles. O "furacão" como alguns me apelidavam carinhosamente...
Mas tudo o que mais desejava era entregar-me à dor, deixar que ela me abraçasse e que a lágrimas me brotassem dos olhos até eles ficarem doridos e eu adormecer de cansaço e exaustão... esse fadiga incomportável que eu sentia mesmo sem chorar, todos os dias!
 
Recalquei para o fundo de mim tudo o que me trazia tristeza. Continuei em vão a comportar-me como se ainda cá estivesses... cheguei mesmo a pegar no telefone para te ligar como fazia dia sim dia não, mas depois aquela parte do cérebro dizia apenas que já não podia, sem invocar o motivo...
 
Depois esperei meses antes que fosse capaz de dar destino aos teus pertences, uma tarefa que fui adiando pela dificuldade que eu própria lhe cunhei. As forças faltavam-me e o meu coração estremecia sempre que isso me perpassava o pensamento. Comecei timidamente, mas tive que parar, porque o efeito foi devastador... deitei no contentor coisas tuas à bruta, com uma violência similar a um rasgar de carne, como que para me ferir propositadamente, uma penitência auto imposta... um castigo a mim mesma, por não te ter chorado com o respeito e o amor que se impunha e que tu merecias...
Aquele pedido de desculpas que te fiz duas semanas antes, por todos os diferendos que tivémos, todas as batalhas de incompreensão mútua que travámos... ainda hoje não sei se o leve aceno que fizeste foi um movimento involuntário ou se o fizeste por estares consciente mesmo debaixo do coma profundo... e com isso quisesses apaziguar a minha tristeza por já não ouvir a tua voz e assim convocasses as tréguas que sempre precisámos e que se tinham ido sedimentando ao longos dos teus últimos tempos de vida.
Bloqueei na minha mente a tua imagem jazente de fato vestido, ladeado pelo lençol de cetim da urna. Essa imagem ficou gravada mas dormente até à noite em que do nada emergiu, quando via um episódio da Anatomia de Grey. Já não mais pude negar tal acontecimento. Não pude desta vez manter a impávia como no momento em que aconteceu...
Dei vazão à dor e aquela tua imagem, gélido e pálido, caminha comigo desde então no pensamento, a memória vívida, como se do próprio momento se tratasse!
Das tuas posses e pertences desfiz-me mais ou menos, mais de dezoito meses passados do teu desaparecimento, por imposição de obras que encetei naquela casa que ainda hoje digo que é tua, apesar de estar no meu nome, como diz a tua irmã mais velha e bem. 
Foi forçado o declutter dos teus bens materiais, mas eu continuava e ainda continuo agarrada aos bens emocionais que me deste, que preciso ir exorcizando lentamente, porque tudo o resto foi feito à velocidade de um comboio de alta velocidade, que de mim não se compadeceu... ao contrário do que aconteceu com a mãe, não deixei que a tua morte me definisse... ou pelo menos quis crer que não! Estava enganada, redondamente... todas as perdas marcam a alma, como um ferro quente, que me deixa em carne viva...
No entanto, é assim que começo lentamente a iniciar um luto que deveria ter iniciado antes mesmo de teres partido, porque o desfecho já se conhecia... começo demasiado tarde, mas finalmente começo. Meu querido pai, meu herói na infância, homem a quem admirei qualidades, a quem sempre senti o amor e carinho e mais tarde, o orgulho, apesar de sempre ensombrado por críticas, umas abertas, outras mais encapotadas. A quem dei a alegria de um neto, que tristemente não pudeste acompanhar mais tempo, como sempre quiseste e como sempre desejei!
Apesar de todos os diferendos que tivemos, não poderei nunca negar o quanto te amei e ainda te amo. Por eu te amar tanto, o teu neto hoje sabe que teve um "vô Bél", mas ainda não sabe como traz encerrado na sua genética traços teus, que só quem te conheceu consegue identificar!
Este é um primeiro adeus, pai. Não a ti, mas à dor e à tristeza de te ter perdido e à incerteza que carreguei sobre se poderia ter feito mais por ti, para evitar as consequências do tumor que te vitimou, silencioso.
Decido hoje que não posso mais carregar essa incerteza, porque o que foi já o foi e nada mais se pode fazer para o desfazer!
Decido hoje, como decidi há 13 ou 14 anos, depois da morte da mãe, que as coisas acontecem de uma determinada maneira, porque era necessário que assim fosse... e não mais posso chorar sobre um leite derramado, em que não tenho poder para alterar seja o que for!
Hoje decido preservar a tua memória, a melhor dela! A do homem e pai que eu sempre admirei!
Amo-te muito papá"
 
Escritos, 24Abril2012