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21 de julho de 2016

Tiny beauty

Nos dias de caos desorganizado que é a minha vida actualmente, nem sempre consigo apreciar pequenos prazeres ou as coisas belas que o mundo que me rodeia encerra...

Sinto uma feroz falta de tempo, de paz, de serenidade e de tempo para respirar e olhar com olhos de ver.

Estar em comunhão com o que me rodeia sempre foi uma parte intrínseca de mim, poder parar e observar, absorver a cor, o som, a imagem rica do mundo à minha volta.

Por estes dias sinto-me um autómato, com uma rotina tirana, mecanizando a minha vida, sempre em correria ansiosa e até quiçá histérica para chegar a tudo e a todos os que me ditam vontades e necessidades e desejos que é necessário cumprir, sem que tenha tempo para parar e ouvir, ouvir-me, a mim, à minha vontade, à minha necessidade e ao meu desejo, por muito insignificante que seja...

Sinto-me devorada pelo mundo e pela rotina e afogada em cansaço e desgaste constante, persistente e diário...

Mas há beleza à minha volta, nas mais pequenas coisas... basta parar e olhar!




3 de setembro de 2015

Nó na garganta, aperto no coração, peso na alma


Tenho visto as imagens quase diariamente, com consternação.
O meu pensamento resvala sempre para a mesma conclusão: não os podemos aceitar todos, mas não os podemos deixar morrer!!!

Porque sinto e penso sempre que podíamos ser nós a querer entrar no país deles, em busca de refúgio, de paz, de dignidade para (sobre)viver!

Porque não há assim tantas décadas atrás, foi a Europa a ser devastada pela guerra, a ter cidades inteiras bombardeadas, carcaças de casas e prédios atestavam a destruição que o "bicho Homem" é capaz de atingir. E as pessoas fugiam para onde e como podiam... e muitos morreram na fuga. Homens, mulheres, crianças...

Como agora morrem os que tentam chegar à Europa, sejam sírios, curdos, afegãos, iraquianos, palestinianos, libaneses, senegaleses ou de outra qualquer nacionalidade.

No fundo, eles são apátridas.
Mas são pessoas de carne e osso, como eu, como tu, como todos nós!

E a imagem daquele menino ficou-me na retina.
Aquele menino chamava-se Aylan e tinha 3 anos.
O irmão dele, Galip, tinha 5 e morreu naquele mar também. Assim como Rehan, a mãe deles...


1 de junho de 2015

Vira o disco... E toca o mesmo!!

Ricardo doente com febre.
Amigdalite.
Falto um dia ao trabalho.
Ricardo melhora.
Filipe adoece com febre.
Amigdalite
Falto dois dias ao trabalho.
Filipe melhora.
Vou trabalhar.
Chego do trabalho febril.
Dói-me a cabeça, o corpo. Tenho suores e calafrios. Não consigo engolir.
Amigdalite.
Fico em casa dois dias.
Segunda-feira, vou trabalhar.
Filipe vai para a escola e Ricardo para o berçário.
À hora de almoço, telefonema:
Ricardo tem febre.
E tudo parece ter voltado à estaca zero...
E eu estou exausta! Farta!
Só me apetece dizer palavrões!!!

13 de abril de 2015

Constatações óbvias

É mais fácil educar uma criança de 6 anos do que um idoso de 81 anos.

É mais fácil convencer uma criança de 6 anos a comer as ervilhas do que um idoso de 81 anos que se recusa a comer e acha que o estamos a forçar.

É mais fácil ter paciência para uma criança de 6 anos do que para um idoso de 81 anos.

7 de abril de 2015

9 de dezembro de 2014

O SNS em estado comatoso

Terceira data marcada para a cirurgia aos adenóides do Falipe.

Os adenóides que inflamam e lhe afectam terrivelmente a audição.

Duas datas marcadas, desmarcadas e remarcadas por "falta de anestesista".

Datas essas em que o Falipe deveria estar em perfeitas condições de saúde, leia-se: sem ranho, sem tosse, sem expectoração.

Difícil de conseguir nos dias frios e cinzentos que se sucedem desde finais de Outubro, por mais que o resguarde ou o leve a fazer haloterapia.

Finalmente, a data chegou sem desmarcações, nem desculpas de falta de anestesistas.
Falipe reune minimamente os requisitos exigidos para a cirurgia.

Os nervos crescem, apesar de saber que é uma cirurgia sem grandes complicações... mas crescem e agigantam-se. É uma anestesia geral e eu tenho medo... é o meu menino pequenino, que já é grande, quase-quase do meu tamanho.

Os nervos sobem de tom quando chega a hora de lhe colocar o penso anestésico onde irão inserir o cateter... ele recusa-se firmemente e nenhum argumento o convence, não restando alternativa a não ser manietá-lo e colocar o penso à força no braço do meu menino que se debate qual fera enjaulada.

Chegar ao hospital já atrasada e receosa pelos 20 minutos perdidos a tentar colocar o penso anestésico, que deveria ter estado colocado pelo menos 1h antes.

30 minutos do meu menino a perguntar se vai levar "uma pica" e que "eu não quero levar uma pica" (ainda paira na sua memória a dor das vacinas dos 5 anos...).

A enfermeira é um doce de pessoa e apesar de tudo, o meu menino tem que ser algo manietado para deixar colocar o cateter... O meu coração dói, porque sei que ele precisa desta cirurgia para poder ouvir como deve ser e não como se estivesse dentro dum aquário. Abraço-o e tento acalmá-lo e explicar que tudo vai correr bem.

1h20 minutos de cateter inserido na veia  do meu menino a debitar soro.
Falipe manifesta firmemente a sua vontade de não retornar ao hospital, nunca mais.

1h20 minutos depois do cateter inserido na veia a debitar soro, a chefe do serviço ambulatório comunica que o anestesista teve "uma imprevisto familiar inadiável" e como tal teve que se ir embora, pelo que a cirurgia terá que ser noutro dia, porque o serviço ambulatório "vai ser encerrado".

A cirurgia é cancelada porque o anestesista teve um imprevisto familiar inadiável e é o ÚNICO anestesista que o hospital tem. Não há mais nenhum médico disponível...

Um hospital que serve 5 concelhos e não sei quantos milhares de utentes.

O meu menino pequenino, já grande quase-quase do meu tamanho, vai ter que passar por tudo isto de novo...

17 de outubro de 2014

150 dias

Passaram-se 150 dias...

Hoje regressei ao trabalho.

Foi doloroso!
Como havia sido quando regressei ao trabalho aos 5 meses do Filipe.

Foi mais um corte, uma certa forma de separação...

Agora que estava a apreciar cada dia mais e mais os teus gritinhos, os teus brrr's, e me derretia ver os teus sorrisos rasgados, tão sinceros!

Eu sei que estás bem.
Eu sei que a vida continua, que tudo se vai cambiando, mas estava a apreciar tanto a tua companhia, que não queria que este dia do regresso ao trabalho chegasse tão depressa.

As hormonas também não ajudam. São umas cabras maléficas, que se regozijam da minha renitência em separar-me de ti.

Tu que me idolatras, que me segues com o olhar para onde vou. Que olhas para mim como não olhas para o teu pai ou para o teu irmão.

Eu sei que estás bem.
Eu sei que vou ficar bem.
Mas por agora... custa!

13 de outubro de 2014

Parar o tempo #2

Está frio lá fora.
Ameaça chover.

Tu dormes pacificamente na cama grande do teu mano.

Eu sentada no cadeirão, tricoto um casaco para ti.

Amanhã será dia de festa...

Faltam 4 dias para regressar ao trabalho... E deixar de ver os teus sorrisos e as tuas bochechas rechonchudas a toda a hora...

6 de setembro de 2014

Cada filho é uma promessa de longevidade

Quando se tem um filho, preocupamo-nos com o seu bem-estar, com o seu crescimento, e se serão felizes. Depois logo pensamos no que se irão tornar... médicos, bombeiros ou outra coisa qualquer...

No meu caso, desde que fui mãe pela primeira vez, passei a ter medo.

Medo por mim, pela minha integridade física e mental, pela minha vida. Porque isso agora era importante. Não porque tenha passado a ter medo da morte, ou de sofrer (pronto, eu até tenho porque sou uma piegas com pouca tolerância à dor...), mas porque passei a recear não estar cá para os meus filhos. Porque sei o que é crescer sem ter mãe... porque eu sei a falta que faz uma mãe na vida de qualquer pessoa!

Mas passei a viver com um medo tremendo de perder o meu filho, medo esse agora acrescentado duplamente.
Sim, eu tenho medo que uma doença má se abata sobre eles! Como qualquer mãe que ame os seus filhos! Porque na minha família o historial médico de doenças geneticamente "herdáveis" é negro!

E porque, como qualquer mãe ou pai, não quero nunca saber a dor que é perder um filho...

E esse medo sempre esteve bem presente em mim porque uma das imagens que guardo com mais nitidez na minha mente das vezes que acompanhei a minha mãe ao IPOFG, é a do rosto de um menino que não teria mais de 3 anos, na sala de espera para fazer análises. Recordo a cor do seu rosto, pálido, macerado e sem cor, mas principalmente da falta de brilho nos seus olhos que deveriam ser de um verde profundo, antes do diagnóstico e de todos os químicos de tratamento. O boné escondia a falta de cabelo, provocada pela quimio. Mas principalmente recordo a falta de vontade de brincar daquele menino, ali no meio daquela sala, cheia de gente doente e onde a falta de esperança e o medo do desfecho da doença gritavam num tom ensurdecedor, que só quem sente na pele, consegue ouvir!

Por isso, não pude ficar indiferente à notícia da partida da Princesa Nonô! Como não fiquei indiferente à partida de outras tantas crianças, meninos e meninas que lutavam contra as garras dessa maldita doença que não escolhe género, idade, cor da pele...

Porque de cada vez que sei de um caso novo, é sempre daquele menino na sala de espera para análises do IPOFG que me recordo. Só o vi daquela vez, não sei se venceu a luta ou não...

E quando soube ontem da partida da Princesa Nonô, o meu primeiro pensamento foi para os seus pais e familiares. Porque apesar de conhecer a dor de perder alguém para o cancro, não sei da dor de perder um filho... e porque morro de medo de algum dia me ver perante a materialização dessa realidade...

Para verem ao ponto a que o medo me tolhe... há dias dei por mim a dar graças por ter tido apenas rapazes, porque assim a "espada" do cancro de mama tem menores probabilidades de desferir golpes na minha prole. É estúpido, eu sei... mas ter a noção do perigo faz-nos ter estes pensamentos aparvatados assim!

6 de março de 2014

Amour

Eu sabia que não devia ter visto este filme... eu sabia que ver este filme traria ao de cima recordações passadas.

Achei curioso que a RTP tenha achado por bem informar antecipadamente que o filme continha cenas susceptíveis de ferir os mais sensíveis. É pena que lhe tenha aplicado uma bolinha vermelha no canto superior direito... à imagem de um qualquer filme violento, com cenas de nudez ou sexo explícito ou palavreado menos "adequado".

Este filme fere os mais sensíveis, sim! Porque retrata de uma forma bastante fiel e objectiva a nossa própria mortalidade, a (in)dignidade da velhice e os problemas a ela associados, a decrepitude do corpo de um qualquer ser humano e a tristeza que é ter um fim de vida sobre o qual não temos qualquer controlo.

Este filme merece ser visto! Mas preparem-se, porque não há cá floreados nem dourar de pílula sobre a nossa finitude.


28 de junho de 2013

Demónios angelicais e uma enorme lição sobre racismo


Uma experiência numa turma da 3.ª classe que demonstra o quanto podemos encarnar o demónio, o quanto assimilamos aquilo que nos transmitem e como somos capazes de níveis inacreditáveis de maldade e crueldade...

31 de maio de 2013

A escolha da Angelina Jolie

Quando li o artigo que a Angelina Jolie publicou a explicar as razões que a levaram a submeter-se a uma dupla mastectomia, tudo ressoou em mim.

Percebi todas as razões e mais algumas pelas quais ela tomou a decisão dificílima de remover uma parte do seu corpo. Não me venham cá tentar convencer que é decisão tomada de ânimo leve, porque não é! É uma decisão radical, seja de que ponto vista for. Por muito que ela tenha todos os meios financeiros ao dispôr que lhe permitam a colocação de implantes, não deixa de ser complicado aceitar remover os seios. Qualquer mulher que goste minimamente de si, gosta dos seus seios e eles fazem parte integrante do seu corpo.

Dito isto, só lhe posso louvar a coragem por ter tomado essa decisão! 
Porque eu, não sei se teria o mesmo "desprendimento" e não sei se conseguiria abdicar duma parte do meu corpo assim desta forma. 
Ainda hoje, passados quase 18 anos da morte da minha mãe para um cancro de mama, que a corroeu lentamente e a fez definhar dolorosamente, degradar-se progressivamente física e e mentalmente diante dos meus olhos e dos do meu pai, não consigo equacionar sequer a hipótese de vir a herdar geneticamente a doença. Quanto mais equacionar uma tomada de medidas desta natureza...

Possivelmente, se fosse confrontada com as probabilidades estatísticas que a Angelina Jolie recebeu, faria exactamente a mesma coisa! Fá-lo-ia pelas mesmas razões que ela invocou: a probabilidade de prolongar a vida pelos seus filhos e quem sabe os netos. Foi uma decisão tomada por amor aos seus filhos e isso só revela o quão acertada foi.

Porque a doença é ruim, agressiva, um grandessíssima puta para quem dela padece. 
Mas é igualmente ruim, agressiva e uma grandessíssima puta para quem ama a pessoa doente. 
Porque nos tolhe, nos torna impotentes e nos confronta com uma profunda injustiça! E no fim de tudo, rouba-nos os sonhos, corrói-nos a esperança e alguma réstia de vontade de ser feliz...

Apesar de haver vida para além da doença, e felizmente a medicina tem registado avanços enormes que permitiram aumentar a taxa de sobrevivência em alguns tipos de cancro, quem perdeu alguém querido na batalha nunca mais será o mesmo. Fica com cicatrizes invisíveis, mas profundíssimas para todo o sempre! Sobrevive também, ultrapassa, racionaliza, vota algumas coisas ao esquecimento para poder continuar. 
Mas as marcas ficam, para sempre!
Por isso, entendo que a Angelina tenha querido evitar que os filhos dela recebam as marcas que ela própria carrega em si, pela perda da sua mãe.

Algures no meio da luta da minha mãe, escrevi isto, num dos muitos momentos de desespero:

"Já desisti de querer casar-me e ter filhos. Não tenho amor nenhum para lhes dar, porque no coração só tenho amargura e sofrimento. Assim não magoo ninguém. Já não sei quem sou, já tinha poucos sonhos e agora não não tenho nenhuns."

Hoje leio isto e relativizo, porque há muito dramatismo infantil nele contido... vendo bem, eu estava em plena adolescência, que por si só, é um período conturbado da vida de qualquer um. Mas relativizo-o todos os dias de alguma forma, porque tive que o fazer! Porque não poderia deixar de o fazer! Porque seria profundamente injusto para com a memória da minha mãe... que lutou até aos últimos minutos, para sobreviver... por mim!

11 de janeiro de 2013

Custa muito?!

As pessoas em geral andam frustradas, raivosas, tensas, negativas, irritadiças, melindram-se com uma facilidade abismal.

Não perdoam o mais pequeno lapso, deslize ou descuido.

E quando alguém lhes dirige um "desculpe" sincero, um reconhecimento de que erraram e estão arrependidas, as feições permanecem carrancudas, fechadas, sombrias e ressentidas.

Onde foi que todos nós deixámos a sensibilidade ser substituída pelo egoísmo e pelo egocentrismo, ao ponto de não sermos capazes de aceitar naturalmente um pedido de desculpas, de continuarmos a querer descarregar num desconhecido toda a raiva e frustração que sentimos connosco, com os pais ou os filhos, com a classe política e o mundo em geral?!...

Porque é nos tornámos um tanto ou quanto incapazes de esboçar um sorriso, em aceitação de um singelo pedido de desculpas?!...

30 de dezembro de 2012

Porque em 2012 nem tudo foi mau...

Apesar de ter sido aquilo a que chamo o "ano de seca" ou "o ano da travessia no deserto", porque os dias sucederam-se numa cadência vulgar, repetitiva e sem grandes mudanças, é claro que nem tudo foi mau ou menos bom! Houve é claro momentos de felicidade, de paz e de serenidade.
Mas o sentimento geral não foi dos melhores...
Foi um ano que senti ser de marasmo, estagnação, de marcar passo, sem nunca retroceder ou avançar. Senti-me amarrada e amordaçada por correntes e cordas invisíveis, mas que me impediram totalmente de progredir ou de avançar em qualquer direcção!
Foi um ano em que tive a sensação de vazio sempre presente e de falta de realização pessoal e profissional.
Foi um ano em que me senti embrutecer lentamente, de dia para dia, e senti-me impotente para contrariar essa maré, apesar de estar plenamente consciente dela.
Foi um ano de introspecção e isolamento, umas vezes auto-imposto, outras vezes forçado, pela indiferença e falta de atenção dos demais ao essencial, o que acabava forçosamente por me atirar para mais auto-isolamento, numa espécie de círculo vicioso.
Foi um ano de luta feroz entre eu e mim mesma e isso teve os seus efeitos benéficos, nomeadamente o de finalmente conseguir encerrar o luto pelo meu pai. Mas o facto de me digladiar diariamente comigo mesma teve efeitos perniciosos na minha pessoa habitualmente bem disposta  socialmente predisposta e optimista.
Foi um ano em que me tornei mais caseira, mais comedida nos gastos e inclusivamente comecei a poupar de forma consistente e persistente. Foi o ano em que apesar de não ser funcionária pública, senti na pele todos os cortes impostos à classe, e fui-me encolhendo sobre mim mesma do ponto de vista financeiro e fiscal, agradecendo apenas a dádiva de ter emprego e ordenado pago a tempo e horas, sem excepção!
Foi o ano em que aprendi artes manuais, com especial ênfase no tricot, e completei projectos com as minhas mãos que não sonhara que seria capaz de fazer um dia. Escusado será dizer que foi nestas artes que encontrei boa parte dos momentos de paz e serenidade.
Foi um ano em que vi o meu filho crescer a olhos vistos, num ritmo muito mais rápido do que aquele que foi caracterizando os meus dias e foi com espanto que o vi abotoar o seu primeiro botão, no pijama, e desligar o computador carregando em todos os botões correctos e mexer-se no youtube com mais perspicácia e sabedoria do que eu própria. Os melhores momentos foram certamente aqueles em que ele correu para mim, com o seu mais feliz e me disse espontaneamente "gosto de ti, mamã!".
Foi o ano em que a minha família se alargou e demos as boas vindas ao bebé R. e vi a minha prima M. tornar-se mãe, como sempre sonhara!
Foi o ano em que fiz uma semana de férias a 3 na minha adorada Arrifana e aí sim, obtive um dos maiores momentos de alegria, serenidade e boa vida!
Foi o ano em que me atulhei de comida para dar de "beber à dor" que sentia algures dentro da minha alma, e por fim, descobri que tinha uma compulsão com a comida e que era altura de simplesmente parar de me agredir! No dia em que alguém me fez duas perguntas bastante simples: "porque é que continua a boicotar-se?" e "porque é que se levanta da cama todos os dias?"
Foi o ano em que li Záfon, John Green, Chris Cleeve e mais uma série de livros e reconciliei-me com a leitura! Graças à blogsfera, ao facebook e ao Goodreads!
Foi o ano em que a amizade virtual passou para o real e com isso reforçou-se! Mais uma cortesia da blogosfera!
Foi o ano em que plantei tomates e pimentos e nenhum deu frutos, mas colhi espinafres suficientes para uma sopa e alface suficiente para uma salada!
Foi o ano em que percebi que mais depressa se adquire um mau hábito do que se consegue enraizar um bom hábito, e em que lutei ferozmente para contrariar essa tendência!

Foi um ano em que muito sucedeu, mas que sinto que não fui muito longe, vá-se lá saber porquê...

28 de novembro de 2012

Últimos encontros

Há umas semanas atrás reencontrei (encontrou-me ele) um amigo de infância, com quem brinquei tanto, especialmente nas semanas da Fatacil, porque as nossas mães eram colegas de trabalho e tinham que assegurar a banca da entidade patronal.

Há uns cinco ou seis anos atrás encontrei a mãe dele, que tinha por mim um carinho especial, particularmente depois da minha mãe ter adoecido. Num passeio de fim-de-semana, esbarrei na casa deles e vi-a no quintal. Estivémos um pouco à conversa e ela perguntou-me: "o teu pai ainda é vivo?"
Achei a pergunta estranha, porque o meu pai podia já ser um velhote mas ainda tinha só 69 anos...

Quando o J. me encontrou mandei-lhe uma mensagem a perguntar pela mãe dele e foi quando soube que estava mesmo muito doente, com um melanoma.

Não esperava de todo encontrá-la ontem durante a minha hora de almoço e apesar de estar em cima da hora, ficámos um bocado a conversar. 
Ela falou comigo com uma calma que sempre teve, mas que agora se juntava a um certo conformismo de quem sabe perfeitamente que os seus dias estão a chegar ao fim. 
Porque o melanoma se espalhou para os pulmões e para os ossos. 
Mas ela agradece o efeito que a radioterapia teve no tratamento dos ossos do pé, porque agora já pode sair da cama e andar relativamente bem e assim vir ver o mar, a conduzir a sua velha Renault 4L, como fez ontem.

E ela voltou a fazer-me a mesma pergunta: "o teu pai ainda é vivo?" e desta vez não achei a pergunta nada estranha, porque a resposta já não era a mesma... quando lhe disse que ele tinha tido um tumor no cérebro, ela disse-me que o seu desejo principal era que o cancro não se espalhasse para o cérebro, que era só o que pedia... sim, porque até ao momento derradeiro, a esperança existe sempre, mesmo que em pequenas doses! Porque há sempre algo que pode ser pior do que já temos...

Mostrei-lhe as fotos do meu filho com o orgulho de mãe babada que sou e naquele momento tive dificuldade em conseguir conter as lágrimas e a emoção de perceber que este será possivelmente o nosso último encontro. Porque o tratamento experimental que ela irá fazer, segundo ela não tem nada de curativo e é meramente paliativo.

E despedimo-nos ao fim de cinco minutos como quem se despede para uma vida inteira... e eu sempre odiei despedidas! Mas fiquei feliz por aquele inesperado encontro, por aqueles cinco minutos. E desejei não ter que ir trabalhar, porque assim convidava-a para irmos beber um chá a qualquer lado e conversarmos um pouco sobre a vida!

1 de outubro de 2012

Recuso-me!

"Depois de ouvir esta notícia hoje de manhã, e de me recordar o que vivi há doze anos atrás, a conclusão a que chego é que eu sou culpada por parte do grande buraco orçamental.A minha mãe viveu três anos, quando não era expectável viver mais do que alguns meses, tendo feito nesse tempo alguns tratamentos experimentais caríssimos - que por acaso até a iam matando mais cedo - cirurgias, quimioterapias, radioterapias, etc etc etc.Fez tudo no IPO de Lisboa, consoante o proposto pelos médicos, sempre a contrariar expetativas e taxas de sobrevivência, sempre a mostrar que estava ali para lutar uma guerra e vencer batalha a batalha.Não venceu, mas conseguiu ver-me a definir o futuro com o homem que hoje é meu marido (e por quinze dias apenas não nos viu casar), viu o meu irmão prestes a concluir os seus estudos com distinção (mas foi poupada à sua perda, pelo menos isso) viu a minha irmã chegar aos treze anos (e treze é muito diferente de nove).Desculpem sim, por ter tido a minha mãe mais dois anos e meio do que previsto. Desculpem o que a presença dela nas nossas vidas custou ao estado. E perdoem pensar que a vida humana não tem preço e que o Serviço Nacional de Saúde devia ser cego a classes sociais e influências.Quem achar que isto é realmente uma medida equilibrada, tem dinheiro para pagar o que for preciso do seu bolso. Quem não achar que isto, mesmo podendo até parecer sensato no papel mas que, na realidade vai ter um efeito perverso, nunca passou por uma situação em que a sua vida ou a de alguém que ama dependa da decisão de outrém e não tem meios para se valer de outra forma."

A Costinhas escreveu este belíssimo texto, que transcrevo aqui parcialmente. 
No entanto, eu não sou tão boazinha como a Costinhas...
Recuso-me a pedir desculpas pela força de vontade que a minha mãe demonstrou ao longo dos longos dois anos e meio em que se recusou a deixar vencer por um maldito cancro que insistia em carcomê-la por dentro. 
Recuso-me a pedir desculpa pelas inúmeras consultas e pelos tratamentos todos de quimioterapia, pela mastectomia total e pelos 35 tratamentos de radioterapia feitos no IPOFG que atiraram a minha mãe para um poço de dores excruciantes e seis meses de noites completas (e dias) sem dormir, apesar dos 100 mg de morfina a cada 6h! Coisa que quem teve esta peregrina ideia de "racionar" nunca saberá o que é (apesar de eu desejar que o sentissem, nem que fosse só por uma semana...)
Recuso-me a pedir desculpa pelos dois meses e meio de internamento do meu pai nos cuidados intermédios de serviço de neurocirurgia do Hospital de S. José, em estado comatoso, ligado a não sei quantos fios e cabos e máquinas de ventilação assistida, após uma dificílima cirurgia de mais de 10h para remover um tumor na hipófise.

Recuso-me a pedir desculpa! Porque a minha mãe definhou lentamente até morrer, antes que eu pudesse terminar o 12.º ano e nunca me viu entrar na Universidade, o seu grande sonho!
Recuso-me a pedir desculpa! Porque o meu pai faleceu injectado de morfina e ligado a máquinas de suporte respiratório 17 dias antes do seu neto completar o 1.º aniversário, a quem amava mais mesmo que a mim!

Porque aqueles a quem sucede ter um cancro, seja em que parte do corpo for, já tem uma dura batalha pela frente, sem precisar que o Estado e gente sem ponta de sensibilidade ou humanismo, lhe venha dizer que não pode usufruir de todos os tratamentos disponíveis que o possam ajudar a vencer esta luta, porque houve uma série de cabrões que andaram a viver "acima das possibilidades" e preferiram salvar os bancos e não as pessoas!
Ah e recuso-me ainda mais a pedir desculpa porque eles, os meus pais pagaram todos os impostos que lhes incumbia e como tal ganharam o direito a ter todos os cuidados de saúde disponíveis!

1 de março de 2012

Tudo o resto é paisagem...

Acabo de desligar uma chamada ao telemóvel... estive a falar com um ex-colega de trabalho que se tornou um grande amigo.
Tinha-me enviado um e-mail no início da semana a pedir-me informações sobre heranças em caso de falecimento de um cônjuge... achei estranho porque o JR não é casado. 
Como achei complicado escrever-lhe a explicação, preferi dizer-lhe pessoalmente... mas era para ter ligado logo e não liguei. Só hoje, três dias passados, decidi não adiar mais.

Quando lhe perguntei se tinha morrido alguém na família, responde-me que sim... primeiro a sobrinha bebé, filha do irmão, nada-morta e um mês depois a esposa do irmão de apenas 36 anos, pelas complicações derivadas da gravidez e de um anterior transplante de rim...
Enquanto o JR me foi descrevendo os factos, fui progressivamente sentindo o arrepio na pele do quão fugaz é a nossa existência! 
Logo eu, que já trato a morte quase por "tu"... que tenho plena consciência de que agora estás aqui e no minuto seguinte, podes ter desaparecido! Ou que aqueles que mais amas se foram e nunca mais podes falar com eles, beijá-los, abraçá-los, rir com eles, chorar com eles...

Passamos a vida embrenhados num rol de estupidez, de preocupações, ambições e sonhos, sem levarmos em linha de conta que um dia tudo acaba! 
E que pode ser hoje como daqui a 40 anos...

Enquanto o JR ia falando comigo, as lágrimas foram rolando pelo meu rosto abaixo, como se a dor do irmão dele fosse minha. Mas eu não conheço o irmão dele e nem a cunhada que faleceu... mas conheço a dor e o sofrimento que se tornam nossos eternos amigos quando a morte nos rouba aqueles que habitam o nosso coração!