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2 de outubro de 2015

Bochechas rechonchudas e caracóis

Cresces a uma velocidade estonteante, mais depressa do que sou capaz de assimilar.

Parece que ainda há dias eu ainda te amamentava de 90 em 90 minutos e tentava acalmar o teu choro gritante de má disposição e má digestão, enquanto me tentava manter acordada e mentalmente sã.

E agora tu já andas corres pela casa toda, já sobes sozinho ao triciclo do teu irmão e já aprendeste a andar sozinho na trotinete com a mestria de quem sabe mexer o volante e ir onde quer!

A nossa relação não tem sido mar nenhum de rosas, tem sido muito exigente e desgastante, tem sido duro para mim que não durmas bem e muito complicado de gerir as tuas constantes birras de vão do simples chorinho ao grito estridente em apenas 10 segundos, que me arrasa os neurónios e me deixa tipo barata tonta. Mudar-te a fralda é uma tarefa de monta, visto que me parece o equivalente a estar a lutar com um polvo, porque tu detestas que te mudem a fralda. As minhas costas gritam por descanso e a tendinite no ombro esquerdo exige alto e bom som que eu não ande sempre a aceder às tuas necessidades de colo constante, isto se quero deixar de ter dores excruciantes.

Mas o teu sorriso fácil e genuíno de menino malandro, o teu andar desengonçado, as tuas pernocas grossas e geniquentas que me deixam de sorriso apatetado, as tuas mãozinhas pequeninas que mexem em tudo e mais alguma coisa, que não deixam os armários e gavetas da cozinha em paz mais que dez minutos, os teus olhos escuros, como duas azeitonas que sorriem quando estás feliz, o teu falatório que eu não entendo porque é ininteligível neste ponto, fazem-me transbordar de amor e de alegria pela tua presença na minha vida.

Adoras estar ao ar livre e assim que vês a porta de casa aberta não descansas enquanto não vais para o quintal correr!
Achas estranha a sensação da areia da praia nos teus pés pequeninos mas depois queres sair por ali fora e não aceitas que te seguremos a mão. Porque tu és decidido e sabes que queres ir e para onde e ai de alguém que te tente alterar o caminho que queres seguir.

Tens uma energia inesgotável e uma fome de leão, adoras estar na banhoca e ficas chateado quando te tiramos de lá, exiges a minha atenção e a do teu pai constantemente, facto que temos ido gerindo da melhor forma que soubemos. Preferes o colo do pai ao meu, mas queres que seja eu a dar-te a comida e principalmente o biberão e esperneias irritado quando tentamos trocar os papéis.

Mas quando à noite, adormeces placidamente no meu colo ao ritmo do meu embalar, com o polegar na boca e a mão enfiada pelo meu decote abaixo, eu olho para o teu rosto de anjinho e abraço-te mais forte, porque quero congelar o tempo e ficar assim contigo. Nestes momentos, não quero que cresças, não quero que os meus braços se tornem pequenos demais para te abarcar na totalidade.

Meu furacãozinho!

21 de setembro de 2015

O primeiro dia duma nova etapa

Hoje começa uma nova etapa na tua vida.

Hoje é o teu primeiro dia na escola primária, no 1.º ano (tinham que mudar o nome à 1.ª classe...).

E tu estavas tão feliz!

Andavas ansioso há mais de uma semana. Tão entusiasmado que até quase querias fazer duma assentada os exercícios todos do livro de actividades que te comprei, a teu pedido.

Saltaste da cama tipo mola, ao contrário dos dias normais em que ficas a fazer ronha até esticares a corda da paciência dos pais.

Ainda nem estavas bem despachado e já querias andar com a mochila às costas, contra as minhas indicações de que ela estava demasiado pesada para as tuas costas de menino.

Chegaste à porta da escola e leste a mensagem de boas vindas escritas na lona que penduraram no gradeamento, como se sempre tivesses sabido ler.

E eu?!

Eu sentia-me acelerada, stressada, porque queria que tudo fosse perfeito, mas tinha também horários a cumprir.

Mas não estava nervosa, como estive em outras ocasiões em que mudaste de escola e de turma. Porque sabia que estavas feliz, que estavas entusiasmado e porque sei o quanto adoras aprender e saber sempre mais!

Apenas estava apreensiva... um bocadinho só... porque a minha primeira impressão sobre a tua nova professora não foi a melhor (e aquele maldito instinto que eu tenho sobre as primeiras impressões pairava sobre o meu pensamento, por mais que tentasse afastá-lo!) e afinal de contas ela vai ter um papel fundamental na tua educação, na tua vida, e na tua formação enquanto pessoa, enquanto ser pensante, a par de nós que somos a tua família.

Por isso, espero que aprendas muito e cresças muito, mas que ao mesmo tempo te divirtas e sejas muito feliz na escola primária!

23 de julho de 2015

Infância que a memória retém

A Margarida publicou uma foto no IG que me levou de imediato à infância.
Era uma imagem do pai dela a regar a horta, com a ajuda do filho dela, tal e qual como vi o meu pai fazer dezenas e dezenas de vezes, até registar nesta minha moleirinha os princípios da rega por gravidade, de como se abriam e fechavam os regos, para a água passar e chegar a todas as plantas. 
Se hoje tivesse que regar uma horta usando este método, acho que me sinto capaz o suficiente para manejar a enxada e abrir e fechar regos.
Quando vejo imagens deste tipo, não só sou acometida duma onda saudosista fortíssima, como fico sempre com aquele sentimento de angústia profundo por não poder proporcionar este tipo de vivências aos meus filhos, apesar de ter terras que posso e devia estar a cultivar!
Às vezes penso que estou apenas a projectar nos meus filhos os meus desejos, a querer repetir neles as mesmas vivências da minha infância. E resisto a fazer isso, porque a minha infãncia foi duma forma e a deles não é e nem tem que ser igual à minha. 
Mas não posso deixar de lastimar de alguma forma o facto de não lhes estar a proporcionar vivências felizes como estas, de vida no campo, com saberes ancestrais, e pelas quais hoje em dia me sinto privilegiada por ter tido. De contacto com a natureza, de aprendizagem sobre de onde vêm os vegetais, como nascem e crescem antes de serem colhidos e alinhados numa banca do mercado ou do hiper.
Acho que este tipo de experiências são inestimáveis e ajudam a moldar o nosso ser. Pelo menos falo por mim! Além de ter tido uma infância absolutamente feliz, pela liberdade que o campo me trouxe, aprendi coisas das quais me orgulho muito de saber e que contribuíram largamente para ser quem hoje sou!

8 de julho de 2015

Viagem no tempo

Às vezes, sinto saudades dos meus tempos de final de adolescência e começo de vida como jovem adulta.
O que me faz mais falta são as saídas com os amigos (que ainda hoje mantenho), a liberdade de poder ir se me apetecesse ou ficar se assim o entendesse.
E a música, essa está sempre lá, sempre presente. Não há nada de mais gratificante na vida de jovem adulta livre e desimpedida do que estar no meio duma multidão simplesmente a curtir a música, que se entranha no corpo e na mente.
E essas recordações são valiosas. A tal ponto que basta ouvir isto para em 1 segundo apenas, os pelos se eriçarem e sentir o mesmo arrepio de felicidade percorrer-me o corpo!


26 de janeiro de 2015

Em sintonia com a natureza

A clareira do pinhal permanece a mesma.
Há demasiados anos que ali não me colocava imóvel, escutando o som das copas dos pinheiros bravos a roçarem-se em cadência, ao sabor do vento, ouvindo o tilintar das pinhas quando se tocam.

Olhei à minha volta e regressei 30 anos atrás, aos tempos da infância, em que ia para ali pela mão do meu avô, passando a vinha, subindo a encosta pelo meio das estevas.

Os pinheiros estão mais altos. Mas são os mesmos.

Por momentos, vejo que há vestígios de malta que por ali pernoita, suspeito que sejam hippies grupos de pessoas que vivem desprendidas da vida em sociedade, e em pseudo-comunhão com a natureza, porque há muitos relatos de conhecidos, de que eles ali ficam tempos sem fim, sem pedido de autorização ou mera informação.

Só gostava que esses "caríssimos" seres humanos, tão "amigos" da vida em sintonia com o mundo e a natureza se dignassem respeitá-la e levassem consigo as carradas de lixo e entulho que produziram durante a estadia.

Podeis pernoitar, ora essa, sejam meus convidados.
Mas tende a dignidade de não poluir a natureza que tanta clamam que prezam! Mais que os outros...

4 de novembro de 2014

Instagramando por aí #4


Esta barbearia faz-me sorrir!
Recorda-me os dias da minha infância em Aljezur. 
Recorda-me da barbearia do Sr. Leote, o barbeiro onde o meu pai ia sempre cortar o cabelo.
Da cadeira de barbeiro verde, das navalhas de barbeiro e dos pincéis dispostos em cima do balcão. Da escova para sacudir os cabelos cortados.
Do som trac-trac da tesoura do Sr. Leote, que ia cortando cabelo com tal certeza na mão, que não era preciso ver o que estava a fazer e por isso ia dando dois dedos de conversa com quem estava sentado à espera de vez.
A barbearia do Sr. Leote também ficava numa casa térrea e tinha uma porta de madeira com postigo, como esta.
A barbearia do Sr. Leote fechou há muitos anos e nem sei se ele ainda será vivo... se fôr, deve ser da idade do barbeiro que mantém esta porta aberta, bem no centro da minha cidade.

25 de junho de 2014

Senhor Abel, o avô babado...

Tens estado sempre no meu pensamento desde que o Ricardo nasceu. 

Sei que ficarias babado com o teu novo neto.
Ficarias profundamente maravilhado diante da perfeição do seu rosto.

Sei que ficarias a olhar para ele sussurrando palavras doces de avô, dizendo que o seu narizinho é "batatudo" e pequenino. Dirias que ele cheira a "pequeninos", como fazias comigo quando era pequenina (e mesmo em idade adulta!) e ainda tiveste oportunidade de fazer com o Falipe. 

Ias ficar tempos infindos a mexer nas suas mãos mini-mini e absolutamente espantado com os seus dedos esguios e compridos. 

E eu ia ficar deliciada com os teus olhos de alegria e emocionada com as tuas palavras de puro amor sussurradas aos meus filhos, teus netos!

Porque tu não ias caber em ti de contente, por seres avô de novo.

6 de maio de 2014

Dia da Minha Mãe

Fazes-me falta desde que partiste.
Fazes-me falta desde 1995.

Fizeste-me falta numa série de ocasiões importantes, momentos decisivos da minha existência, que eu queria partilhar contigo antes de o fazer com quem quer que fosse.

Às vezes parece que a falta que sinto de ti se esbate e se atenua ligeiramente, ficando no seu lugar a memória saudosa do teu rosto, das tuas mãos pequeninas de pele desgastada pelos anos de labuta no campo e depois na máquina de escrever, dos teus cabelos brancos a orlar os demais, o verde dos teus olhos. O espaço do teu colo que o meu corpo ocupava na perfeição. O calor do teu corpo e a força suave dos teus braços em volta de mim. Os teus beijos calorosos e a tua voz apaziguadora e serena. A tua eterna e infindável paciência para me aparar os ataques de mau génio e explosões de impulsividade próprias da idade e da minha personalidade "forte".

Fizeste-me tanta falta quando descobri que ia ser mãe, e mais ainda quando o fui de pleno direito. Fizeste-me falta por faltares ao meu filho, por não haver na vida dele o privilégio da tua presença. Há tanto de ti que não lhe pude ainda dizer, mas que sei que direi, porque o quero fazer e porque sei que ele vai querer saber quem era a avó Vera!

Mas fazes-me ainda mais falta agora. Agora que estou prestes a ser mãe de segunda volta. Faz-me falta a tua calma, a tua serenidade, a tua sensatez e profunda sabedoria para encontrar soluções simples. Fazes-me falta para me segurares a mão nesta etapa que sei que será doce e dura em simultâneo. Para me dizeres que está tudo bem e que tudo vai correr bem, enquanto me acaricias o rosto com as tuas mãos pequeninas.

Fazes-me falta agora mais que nunca por faltares aos meus filhos, aos meus meninos, pela ausência da tua presença luminosa na vida deles.


E enquanto eu só quero recordar-te num misto de felicidade por ser mãe plena e de saudosa dor por não te poder abraçar, ficando no meu espaço vital, há quem seja egoísta e hipócrita e queira celebrações à sua vontadinha, sob o argumento de agradar à sua mãe, aquela que nos restantes dias do ano maltratam psicologicamente com uma violência que me afecta. Cai-me mal, e a mãe não é minha! E eu decido fazer birra... e enquanto vou lambendo as minhas feridas, decido que não quero gramar fretes nem ir a almoços com gente que não sabe honrar a mãe que ainda têm.

24 de fevereiro de 2014

Recuar no tempo

Nunca fui pessoa de arrependimentos. 
Foram poucas as situações em que sinto que deixei algo por dizer ou por fazer. Admito que em algumas situações fui até demasiado bruta...

Se me perguntassem a que momento da minha vida gostaria de recuar, se pudesse regressar só a um momento, sei bem a que momento quereria regressar.
Não tanto por sentir necessidade de fazer algo diferente, corrigir alguma acção ou palavras. Quer dizer... há uns dois ou três momentos que vivi com o Falipe que se pudesse refazer tudo, fá-lo-ia certamente de maneira diferente!

Mas quereria regressar apenas e só para o poder viver de novo, da mesma forma. Para matar saudades. Para o reviver mais do que apenas uma recordação na minha mente.

Sei que regressaria certamente à infância, a uma das muitas noites em que me enroscava no colo da minha mãe pequenina. 

Como não o posso fazer, há dias apercebi-me que existe uma certa forma de fazer o tempo recuar. Sempre que envolvo o meu filho meu colo, depois de lhe ler uma história.

E vocês, se pudessem regressar atrás no tempo, na vossa vida... o que mudariam?


20 de setembro de 2013

Vila adentro

Gosto de ir à vila.

Passear pelas suas ruas e ver como os espaços estão diferentes ou permanecem iguais.

Faz-me regressar à infância, ao tempo em que os meus pais existiam e me levavam pela mão pelas ruas que eles conheciam bem melhor que eu... e encontravam sempre imensas pessoas conhecidas e familiares e primos-afastados, mas que ainda eram "parentes".

Gosto de passear na vila, reconhecer rostos dos meus tempos de menina e adolescente e perceber no seu olhar aquela sensação de que o meu rosto não lhes é totalmente desconhecido, mas que eles não conseguem propriamente situar. 
É como ser uma desconhecida que os conhece a todos!


No mercado municipal



Adoro os beirados duplos antigos!

o relógio na torre da Igreja Nova

Não resisti a esta mítica foto, que ilustra tão bem a "vida na aldeia"!


Esta era a casa da D. Rocha, que hoje permanece encerrada, e já não guarda o esplendor de outros tempos...


É pena ter ficado desfocada... mas achei que era um bom "Amor Proibido"
A Casa Sintra, que sempre me despertou o interesse... talvez por sempre a ter conhecido assim, fechada...




16 de setembro de 2013

Voltar (lentamente) às rotinas



As férias terminaram... (mas porquêêê?!!!!!)

Foram dias pacatos, de vida sem horários pré-definidos, sem grandes planos.

Eu já devia ter aprendido esta lição há muito tempo... quanto menos se planeia, melhor correm as coisas, somos mais felizes!

Não fomos para muito longe, mas foi o suficiente para mudarmos de ares, vivermos de forma diferente. Ir à praia se nos aprouvesse, de ficar em casa se apetecesse.

De malas com pouca roupa, minimalistas diriam alguns... Soube bem perceber que é bom viver com pouca coisa de vez em quando. Faz bem à cabeça e ao corpo. Soube bem viver numa casa rústica, com o básico essencial, o suficiente para comer peixe grelhado quase todos os dias.

Revisitar as origens e as raízes dos meus ascendentes e sentir-me mais próxima deles, de certa maneira. 

Foi bom ver apenas a RTP2 e conhecer tanto que a nossa cultura tem de riqueza, sem canais de clubes de mil bonecos por dia, com vozes profundamente irritantes.

Foram dias de arrumações e rearranjos caseiros. Foram dias de "limpezas de primavera" em  época pré-outonal. 

Foram dias longe da crise, da austeridade, das baboseiras e asneiras político-económico-futebolísticas. Foram dias de estar presente e prestar atenção ao núcleo restrito que é a família, que somos nós os três.

Encontrar e abraçar amigas de longe, que vemos apenas nesta altura, e esquecer completamente das horas a passar.

Analisar o percurso até então e perceber que o caminho para a frente está em aberto e pode ser tão diferente e tão próximo daquilo que queremos afinal.

O regresso trouxe consigo a mudança para uma escola nova e uma nova etapa na vida do Falipe e na nossa, indirectamente.

24 de agosto de 2013

Sons que me levam a lugares

Os meus anos de faculdade foram excelentes, memoráveis e dos quais guardo essencialmente as amizades que durarão sempre, mesmo que estejamos todos espalhados "por esse mundo fora" (sim, uma delas está em Hong Kong) e o quanto cresci como pessoa, no quanto alarguei horizontes sobre as pessoas, o mundo e me auto-conheci!

Uma das recordações maiores que tenho é a de uma série de músicas que a minha colega de casa, a Paula, ouvia até à exaustão, diversas vezes ao dia, dias consecutivos, por períodos de dois ou três meses. Até que passava a outra música, pela qual ficasse obcecada, e começava tudo de novo! Eu e a outra colega, a Cristina, a princípio estranhámos, depois entranhamos... 

Hoje em dia, esse lote de músicas com que a Paula nos foi "torturando" são parte intrínseca de mim e nas raras ocasiões em que as ouço inusitadamente em qualquer lado, é como se regressasse aos anos entre 1997 e 2000... se existem viagens no tempo, esta é certamente umas das formas!

29 de julho de 2013

Falipices #51 - História de Portugal

Já não percorria este jardim há não sei quantos anos... desde o tempo em que o repuxo ainda funcionava e como tal o lago ainda tinha água...

Aproveitando a realização do mercado Agrobio, levei o Falipe a este jardim onde tantas e tantas vezes brinquei quando era miúda e até meia adolescência

Sempre adorei este jardim por conta dos bancos revestidos a azulejo e das imagens da nossa história retratadas nos painéis.

O Falipe parou a olhar para este painel por uns momentos e depois perguntou-me:

- Mãe, o Portugal ganhou??

E eu respondi que sim, que tínhamos ganho.

- Ganhou p'quê?

Eu expliquei-lhe que os Espanhóis nos tinham tomado o trono e que nós os tínhamos vencido e mandado embora, mais coisa menos coisa... 

Pena que a data retratada neste painel já não se assinale devidamente com a importância que merece e principalmente que este país esteja hoje em dia tão distante das glórias passadas e que nos falte um pouco da gana de outrora....


23 de julho de 2013

Caminhos de outrora


Todos os dias faço este pedaço de antigo troço da EN125.
Todos os dias passo defronte da casa desabitada e votada ao abandono.
Tantos dias que percorri este pedaço de estrada, a diferentes horas do dia... sem nunca reparar que naquela casa térrea, abandonada e de portão enferrujado, prestes a ser engolido pelas ervas daninhas que crescem de ano para ano, estava esta placa. Esta marca de outros tempos, que já lá vão...

A EN125 passa agora mais ao largo, mas a casa desabitada e encerrada ainda ostenta a placa que confirma que em tempos a estrada mais importante do Algarve passava por aqui.

21 de junho de 2013

Onde fica a curva do caminho da vinha?...

Era já tempo de regressar, de voltar a percorrer os caminhos de outros tempos.
Era o tempo de palmilhar as veredas, para reconhecer os terrenos que me deixaram de herança, procurar os marcos e perceber as extremas que há mais de vinte anos o meu avô Manuel me tinha explicado, num dos muitos passeios em que gostava de o acompanhar.

Foi chegado o tempo de perceber o porquê de tanta curiosidade e procura alheia pelos recursos naturais renováveis que jazem nessas terras que o meu avô tratou décadas a fio. Perceber que pequena riqueza é esta que todos invejam e cobiçam e da qual alguns pretendem apoderar-se, com ou sem prévio consentimento.

Avistei a pequena planície onde na minha infância tanta vez fui levar a enfusa de água e a marmita de alumínio com o almoço, a quem já ceifava desde horas matutinas. Lembro-me da cor amarela e da textura àspera do restolho, na qual mesmo assim insistia em me sentar, enquanto via com os meus olhos de menina o meu avô e as minhas tias-avós desferirem golpes de foice sobre a cevada e o centeio.
Lembro-me de brincar na ribeira que flanqueava o terreno e passar para o outro lado. Seguir pelo caminho junto à vinha, delimitado por marmeleiros que forneciam à minha mãe matéria prima para marmelada que dava para seis meses em cada ano. Lembro-me que do outro lado da vereda havia uma ameixeira Santa Rosa, as ameixas preferidas da minha mãe. Recordo as carreiras de videiras perfeitamente alinhadas e dos dias de vindima, em Setembro, onde toda a família se reunia e apesar do trabalho árduo, tudo parecia uma festa de fim de verão.

Ainda recordo a fileira de oliveiras alinhadas à ribeira do Vale Marmeleiros, e ouvia o meu avô relatar orgulhosamente que nos tempos da II Guerra, produziam cerca de 250 litros de azeite, mas que infelizmente eram entregues na quase totalidade ao Estado Novo, que o exigia para o "esforço de guerra".

Mas o regresso foi estranho... passando a ribeira, só se reconhecia apenas uns cinco metros do antigo caminho da vinha e a curva que descrevia mais à frente já nem se vislumbrava. No que outrora era a curva do caminho erguem-se agora três jovens sobreiros que necessitam de ser "amansados"... Dos marmeleiros resta apenas um, e as ameixeiras e o damasqueiro desapareceram sem rasto.

As antigas videiras, que eu sabia terem secado há mais de 15 anos, porque o meu pai deixou de cuidar delas, deixaram apenas alguns resquícios, uma delas emaranhada num dos jovens sobreiros.

A passagem do caminho para o poço é agora impossível, porque se cobre de matagal e silvados maiores que eu.

A fileira de oliveiras desapareceu e resta apenas uma, o que me deixou desorientada por completo... perdida sem conseguir vislumbrar as orientações que o meu avô me deu...
Nasceram acácias enormes, de troncos da espessura da minha cintura junto ao antigo campo de cevada e centeio.

Olho à minha volta e sinto um misto de tristeza, nostalgia e raiva comigo mesma...

20 de maio de 2013

Oh tempo volta para trás...

O bom de ir a uma jantarada/reunião com as colegas de turma do ensino secundária (sim, no feminino, porque a minha turma de 11.º ano era composta por 17 malucas miúdas) é ver que há coisas que nunca mudam, principalmente aquelas que nunca deveriam mudar! O companheirismo, a cumplicidade, a doidice...

De repente, parece que o tempo regrediu 15 anos, apesar de estarmos todas um pouco mais velhas, com mais cabelos brancos, e algumas com algum peso a mais (umas por excessos alimentares, outras por engravidanço...), e estamos todas a conversar umas por cima das outras, quais gralhas papagueantes, e que aquela que diz "mata" e a outra que remata "esfola" são sempre as mesmas, como se o tempo não tivesse passado...

Mas o tempo passou e a atestar isso, estavam lá os descendentes de boa parte de nós, alguns deles já quase com uma década de existência!

Suspeito que os miúdos devem ter ficado momentaneamente abismados perante a bizarria de verem as mães em modus infantilis...

21 de fevereiro de 2013

A comida da minha mãezinha é melhor que a minha!

Naquelas fases críticas em que se me esgota a total capacidade de não me repetir nos pratos que cozinho, em que a inspiração culinária me abandona e sinto uma total aversão ao estar encostada à bancada de roda de tachos e panelas, é quando as saudades da minha mãe mais me atacam.

Sou acometida dum profundo saudosismo da sua comida, apesar da recordação de sabores e aromas ser cada vez mais ténue e progressivamente esbatida pelos já longos 18 anos de ausência.
Não sei se o que sinto são saudades da sua comida ou se é mesmo de ter a possibilidade de ficar um dia sem cozinhar e poder simplesmente ir comer a casa da mãe, como tantos filhos de mães vivas fazem, sem que tenham a noção do riquíssimo privilégio de que gozam!
Em certos domingos, gostava de poder sentir-me aliviada perante a perspectiva de ir a casa dos pais, comer uma rica feijoada ou umas lulas recheadas, que mais ninguém consegue replicar!

Ainda guardo o velho e desbotado bloco A5 da marca Castelo, cheio de manchas de gordura, marcas da muita utilização, onde uma certa tarde, aos meus 16 anos redigi religiosamente o ditado que a minha mãe, já quase nos limites da sua doença e receando que a lucidez a abandonasse, todas as principais receitas que ela conhecia de cor e salteado. A vitela estufada, os pastéis de batata doce, a feijoada e as suas inigualáveis filhós fofas e crocantes, o ingrediente secreto das favas (apesar de ela saber que eu as detestava, mas eu teria que cozinhar para o meu pai...) e do feijão verde com batatas... Naquela tarde em que ela tacitamente me passou a tarefa de ser a cozinheira da casa, ao ditar-me todas as suas habituais receitas. 
Por isso, guardo o caderno Castelo de linhas, já com algumas folhas a ameaçarem desprender-se, como uma relíquia!

Quando leio as receitas que a minha mãe me ditou, percebo que foi ela me incutiu a mania de cozinhar a "olhómetro", sem quantidades medidas ao mililitro ou à grama... Porque foi com ela que aprendi a reconhecer o sabor através da prova e a calcular aproximadamente as quantidades. 

Mas mesmo assim, a comida da minha mãezinha sempre foi melhor que a minha!
E eu tenho saudades da comidinha da minha mãe... e de a ouvir perguntar se me alimentei bem!

2 de novembro de 2012

Filho de peixe, peixinho é

Não é de espantar que o meu filho goste de histórias ao deitar.
Quando era miúda também eu gostava.

As minhas preferidas eram as da Colecção Formiguinha.
Fiz a minha mãe ler algumas delas até à exaustão.

Há uns tempos reencontrei-as no fundo duma gaveta, em casa dos meus pais. Foi como encontrar um tesouro!



2 de agosto de 2012

Coisas do antigamente

Alpendre
Na visita que fiz à Quinta Pedagógica com o Falipe, fui encontrar um pequeno espaço de exposição, dedicado às ferramentas, utensílios, mobílias e objectos comuns de se encontrar numa qualquer quinta ou casa rural.
Muito bem organizado, de forma simples e ilustrado por fotografias de pessoas trabalhando em artes e ofícios de outrora, alguns deles completamente à beira de desaparecerem irremediavelmente, porque poucos foram instruídos nestas artes...
Assim que entrei neste espaço foi como se tivesse sido sugada pelo passado e transportada de imediato a uma realidade que conheci tão bem, na casa do meu avô Manuel.
Dei por mim a olhar para as ferramentas e utensílios e a reconhecer de imediato cada um deles, sabendo exactamente para que serviam e sem que precisasse recorrer às legendas que haviam disponíveis.
Quase que senti um baque na alma quando vi gorpelhas, albardas, foices, pás de forno, forquilhas, ferros de engomar, ratoeiras artesanais, chocalhos, moldes para sapatos, joeiros e peneiras.
O baque maior senti quando vi os bornais... Havia anos que não via disso em lado nenhum. E lembrei-me do exacto lugar em que o meu avô pendurava os bornais, os arreios e a albarda da burra e a gorpelha da palha. Lembrei-me do lugar das enxadas, das foices, da forquilha e meio litro de latão com que media a ração de milho para dar aos animais.
Lembrei-me das paredes em taipa e pedra, da porta do palheiro escavada em arco com uma colher de pedreiro, dos barrotes de madeira e das manjedouras mal enjorcadas onde a burra comia a palha. Lembrei-me das lajes em pedra que ornamentavam o chão de terra e do prego na parede, defronte das manjedouras, onde se penduravam os chocalhos e os sininhos dos arreios da burra e que eu adorava fazer soar.
Recordei-me do meu avô a contar as noites frias em que teve que dormir no palheiro e apenas com a palha dos fardos para servir de manta para se aquecer. 
Por uns momentos, foi como se tivesse aberto uma porta para os tempos da minha infância e tivesse voltado a entrar naquelas ramadas que permanecem encerradas e cujos reis são ratazanas de meio metro.
Reencontrei um carro de besta, bem recuperado e lembrei-me de todas as vezes em que quis andar no carro do meu tio Zé Camacho!

gorpelha, barris, enfusa, panelas de banha, trempe de ferro, sacos e abanicos de palha

lanterna, ratoeira

bornais e arreios

lanternas, ferros de engomar, e ratoeira
carro de besta

25 de julho de 2012

Casas de portas abertas

parte antiga da vila de Aljezur - retirado da net

Quando era miúda adorava ir com a minha mãe à vila, especialmente se a deslocação fosse à zona da vila antiga.
Gostava de andar pelas ruas estreitas e íngremes.
Gostava de ir à fábrica do sr. Ricardo Vilhena, porque adorava ver o moinho a trabalhar e vê-lo dar ao pedal para ensacar a farinha. Lembro-me que foi lá que vi os primeiros calendários de mulheres nuas (muitos mais vi nos oito anos que trabalhei nas obras) ao lado de calendários com gatinhos e pintainhos e patinhos.
Gostava das ruas de calçada e das casas térreas com uma porta e duas janelinhas de madeira.
Fascinava-me ver que as pessoas se sentavam no poial das casas a tratar das suas coisas ou apenas para descansar e conversar um bocadinho, invariavelmente sobre a vida alheia.
Achava curioso ver que as portas das casas estavam sempre abertas, mesmo que os donos tivessem ido a casa da vizinha ou mais ao fundo da rua. 
Do alto dos meus seis ou sete anos, achava tudo isto muito estranho porque vivia num apartamento na cidade, onde as portas eram trancadas à chave caso nos ausentássemos dela.
Adorava aquela forma desprendida de deixar as portas abertas ou os postigos abertos de par em par, a jeito de se poder chegar ao trinco da porta pelo lado de dentro. Era para mim uma forma de rapidamente acolher qualquer visita que calhasse a aparecer, nem que fosse para dar as boas tardes e saber se estavam todos bons de saúde.
Às vezes, quando passo pela vila, sinto saudades desses tempos de inocência e de honestidade, em que se podia sair de casa, deixar o postigo ou a porta aberta, apenas com uma cortina de tiras de plástico esvoaçando e que impedia que as moscas entrassem.
Às vezes apetece-me voltar a ser menina, voltar a ser inocente numa vila intocada pelo receio de roubos e assaltos e calcorrear as ruas de calçada, e cumprimentar as pessoas com a maior das naturalidades.