21 de fevereiro de 2013

A comida da minha mãezinha é melhor que a minha!

Naquelas fases críticas em que se me esgota a total capacidade de não me repetir nos pratos que cozinho, em que a inspiração culinária me abandona e sinto uma total aversão ao estar encostada à bancada de roda de tachos e panelas, é quando as saudades da minha mãe mais me atacam.

Sou acometida dum profundo saudosismo da sua comida, apesar da recordação de sabores e aromas ser cada vez mais ténue e progressivamente esbatida pelos já longos 18 anos de ausência.
Não sei se o que sinto são saudades da sua comida ou se é mesmo de ter a possibilidade de ficar um dia sem cozinhar e poder simplesmente ir comer a casa da mãe, como tantos filhos de mães vivas fazem, sem que tenham a noção do riquíssimo privilégio de que gozam!
Em certos domingos, gostava de poder sentir-me aliviada perante a perspectiva de ir a casa dos pais, comer uma rica feijoada ou umas lulas recheadas, que mais ninguém consegue replicar!

Ainda guardo o velho e desbotado bloco A5 da marca Castelo, cheio de manchas de gordura, marcas da muita utilização, onde uma certa tarde, aos meus 16 anos redigi religiosamente o ditado que a minha mãe, já quase nos limites da sua doença e receando que a lucidez a abandonasse, todas as principais receitas que ela conhecia de cor e salteado. A vitela estufada, os pastéis de batata doce, a feijoada e as suas inigualáveis filhós fofas e crocantes, o ingrediente secreto das favas (apesar de ela saber que eu as detestava, mas eu teria que cozinhar para o meu pai...) e do feijão verde com batatas... Naquela tarde em que ela tacitamente me passou a tarefa de ser a cozinheira da casa, ao ditar-me todas as suas habituais receitas. 
Por isso, guardo o caderno Castelo de linhas, já com algumas folhas a ameaçarem desprender-se, como uma relíquia!

Quando leio as receitas que a minha mãe me ditou, percebo que foi ela me incutiu a mania de cozinhar a "olhómetro", sem quantidades medidas ao mililitro ou à grama... Porque foi com ela que aprendi a reconhecer o sabor através da prova e a calcular aproximadamente as quantidades. 

Mas mesmo assim, a comida da minha mãezinha sempre foi melhor que a minha!
E eu tenho saudades da comidinha da minha mãe... e de a ouvir perguntar se me alimentei bem!

7 comentários:

Jardim de Algodão Doce disse...

Eu tenho saudades de não ter de pensar sistematicamente o que vou cozinhar. Apesar de gostar muito da comida da minha mãe, modestia à parte acho que consigo variar mais e ser mais criativa que ela na cozinha :)

Arco Iris disse...

Nána das recordações fica o cheiro dos alimentos a confecção tudo sabia muito bem...
A minha avó era a melhor cozinheira que eu conheci, a minha mãe não a conseguia igualar e muito menos eu.

Maria Duarte disse...

Por falar em lulas recheadas... amanhã devem de lá chegar a casa aquelas que eu comprei com vontade de rechear, mas que acabei por mandar para casa da mãezinha para ela as "entregar" prontas a comer...

Tanita disse...

Oh querida, adorei o texto apesar de o teres escrito pela falta que a tua mãe te faz...tenho a certeza que fazes muito bom uso dessas receitas e que a tua mãe estará orgulhosa de ti, pois sabia que irias desempenhar um bom papel.
Toma lá um beijinho grande e um xi apertadinho**

Paulo Nunes disse...

Ui...é verdade! eu todos os dias de manhã não tenho vontade de comer mas quando estou fora a passar ferias.. o apetite volta a aparecer. mesmo que se varie muito, a comida de outros ou de outro local sabe sempre melhor! :)

carla disse...

E nestas alturas apenas te posso oferecer um abraço (ainda que virtual) apertado.

Paula disse...

Tens toda a razão, nem sempre damos valor ao que temos... que maravilha de senhora tua mãe que te ditou as receitas dela para que não se perdessem e as pudesses cozinhar para o teu pai. Isso é amor em estado puro.

Beijinhos grandes xxx