22 de dezembro de 2012

Epifanias do luto #1

"A dor permanece escondida no mais recôndito espaço da minha memória. 
A tristeza e a dor foram enviadas para o mais fundo do subconsciente.
Na devida altura em que os meus olhos deviam ter desaguado os rios do meu sofrimento, não houve tempo, não houve hipótese...
Compromissos e reuniões fúteis, pura perda de tempo, com homens arrogantes e cheios de certezas, exigiam de mim a presença de espírito e a clareza de raciocínio próprios de alguém que não a Naná recém órfã...exigiam um estar que eu não era capaz de cumprir, mas cumpri mesmo perante a insensibilidade destes homens que nunca perderam nada na vida ou nunca souberam o que era perda. Já eu, com tão pouca idade, conhecia a perda de um progenitor bem demais... 
Estes homens arrogantes que ainda ousaram escarnecer da minha tristeza e usá-la como razões para me atacarem no desempenho profissional. Mas eu permaneci de cabeça erguida, não sei ainda bem à custa de que forças e em nome do quê ou de quem... mas escolhi não dar parte fraca diante de homens ignorantes do que é a morte... já que eu, por esta altura já quase a tratava por tu! 
Homens ignorantes e altivos que sucumbiriam facilmente à enorme e profunda tristeza de perder alguém que nos deu vida. 
Passei a viver maquinalmente, como forma de me manter à altura daquilo que me era exigido!
 
Quando eu precisava chorar convulsivamente até ficar sem fôlego e o ar me faltar porque os soluços me impediam de fazer esse simples exercício de inspirar e expirar, tive que engolir tudo... porque chorar tornou-se supérfluo diante das necessidades maiores do meu pequeno filho. Não porque ele não me deixasse, mas apenas e tão só porque não quis que ele visse e sentisse as minhas lágrimas... Decerto deve ter sentido a minha tristeza, porque eu sentia a sua agitação, diferente do habitual.
 
Carpir foi sempre sendo adiado, em nome de valores mais urgentes e prementes. A dor foi mitigada a martelo e coberta em esquecimento. Nas raras ocasiões em que as lágrimas ganharam a batalha, era sempre de fugida e às escondidas...de algum modo os demais esperavam que eu mostrasse o meu lado mais forte, que fosse a "força da natureza" que sempre se apresentou diante deles. O "furacão" como alguns me apelidavam carinhosamente...
Mas tudo o que mais desejava era entregar-me à dor, deixar que ela me abraçasse e que a lágrimas me brotassem dos olhos até eles ficarem doridos e eu adormecer de cansaço e exaustão... esse fadiga incomportável que eu sentia mesmo sem chorar, todos os dias!
 
Recalquei para o fundo de mim tudo o que me trazia tristeza. Continuei em vão a comportar-me como se ainda cá estivesses... cheguei mesmo a pegar no telefone para te ligar como fazia dia sim dia não, mas depois aquela parte do cérebro dizia apenas que já não podia, sem invocar o motivo...
 
Depois esperei meses antes que fosse capaz de dar destino aos teus pertences, uma tarefa que fui adiando pela dificuldade que eu própria lhe cunhei. As forças faltavam-me e o meu coração estremecia sempre que isso me perpassava o pensamento. Comecei timidamente, mas tive que parar, porque o efeito foi devastador... deitei no contentor coisas tuas à bruta, com uma violência similar a um rasgar de carne, como que para me ferir propositadamente, uma penitência auto imposta... um castigo a mim mesma, por não te ter chorado com o respeito e o amor que se impunha e que tu merecias...
Aquele pedido de desculpas que te fiz duas semanas antes, por todos os diferendos que tivémos, todas as batalhas de incompreensão mútua que travámos... ainda hoje não sei se o leve aceno que fizeste foi um movimento involuntário ou se o fizeste por estares consciente mesmo debaixo do coma profundo... e com isso quisesses apaziguar a minha tristeza por já não ouvir a tua voz e assim convocasses as tréguas que sempre precisámos e que se tinham ido sedimentando ao longos dos teus últimos tempos de vida.
Bloqueei na minha mente a tua imagem jazente de fato vestido, ladeado pelo lençol de cetim da urna. Essa imagem ficou gravada mas dormente até à noite em que do nada emergiu, quando via um episódio da Anatomia de Grey. Já não mais pude negar tal acontecimento. Não pude desta vez manter a impávia como no momento em que aconteceu...
Dei vazão à dor e aquela tua imagem, gélido e pálido, caminha comigo desde então no pensamento, a memória vívida, como se do próprio momento se tratasse!
Das tuas posses e pertences desfiz-me mais ou menos, mais de dezoito meses passados do teu desaparecimento, por imposição de obras que encetei naquela casa que ainda hoje digo que é tua, apesar de estar no meu nome, como diz a tua irmã mais velha e bem. 
Foi forçado o declutter dos teus bens materiais, mas eu continuava e ainda continuo agarrada aos bens emocionais que me deste, que preciso ir exorcizando lentamente, porque tudo o resto foi feito à velocidade de um comboio de alta velocidade, que de mim não se compadeceu... ao contrário do que aconteceu com a mãe, não deixei que a tua morte me definisse... ou pelo menos quis crer que não! Estava enganada, redondamente... todas as perdas marcam a alma, como um ferro quente, que me deixa em carne viva...
No entanto, é assim que começo lentamente a iniciar um luto que deveria ter iniciado antes mesmo de teres partido, porque o desfecho já se conhecia... começo demasiado tarde, mas finalmente começo. Meu querido pai, meu herói na infância, homem a quem admirei qualidades, a quem sempre senti o amor e carinho e mais tarde, o orgulho, apesar de sempre ensombrado por críticas, umas abertas, outras mais encapotadas. A quem dei a alegria de um neto, que tristemente não pudeste acompanhar mais tempo, como sempre quiseste e como sempre desejei!
Apesar de todos os diferendos que tivemos, não poderei nunca negar o quanto te amei e ainda te amo. Por eu te amar tanto, o teu neto hoje sabe que teve um "vô Bél", mas ainda não sabe como traz encerrado na sua genética traços teus, que só quem te conheceu consegue identificar!
Este é um primeiro adeus, pai. Não a ti, mas à dor e à tristeza de te ter perdido e à incerteza que carreguei sobre se poderia ter feito mais por ti, para evitar as consequências do tumor que te vitimou, silencioso.
Decido hoje que não posso mais carregar essa incerteza, porque o que foi já o foi e nada mais se pode fazer para o desfazer!
Decido hoje, como decidi há 13 ou 14 anos, depois da morte da mãe, que as coisas acontecem de uma determinada maneira, porque era necessário que assim fosse... e não mais posso chorar sobre um leite derramado, em que não tenho poder para alterar seja o que for!
Hoje decido preservar a tua memória, a melhor dela! A do homem e pai que eu sempre admirei!
Amo-te muito papá"
 
Escritos, 24Abril2012

2 comentários:

Melissinha disse...

Partilho tudo, tudo, tudo, tudo. E dou-te um abraço urso, Naná. Um dia dou-to um a sério e talvez possamos chorar muito juntas sem fazer perguntas.

(Mas ainda não cheguei à fase de preservar a memória, mesmo oito anos depois).

Lacorrilha disse...

Tenho que ler isto à minha mãe, ou melhor, dar-lhe a ler, que o mais certo era eu desatar num pranto a meio, como aconteceu agora.
A minha mãe é nova, tem apenas 45 anos e no espaço de 3 anos perdeu o pai e a mãe (ambos na casa dos 60).
Beijinhos e um Natal muito feliz.