8 de fevereiro de 2013

O medo #2

"Life shrinks or expands in proportion to one's courage!"

O medo, esse maldito,  enredou-me lenta e silenciosamente nos seus tentáculos. Fez de mim uma cobarde. 
À medida que tomava conta de mim, levou-me a ir adiando coisas, conversas, debates, decisões, acções
Fez-me lenta e progressivamente ir receando o futuro,  e incutiu-me um certo pavor perante as consequências de actos de coragem e de uma qualquer tomada de atitude, motivada por alguma forma de valentia.
Fui-me rendendo aos receios e às incertezas que construí, sem querer pagar para ver.
Escondi-me atrás da rotina do quotidiano, lapidando subrepticiamente o meu brilho e o meu brio
Erodiu a minha auto-estima, sufocando-me com os seus murmúrios, como as ondas erodem as rochas das falésias, dando-lhe uma forma diferente, mais polida, mais macia, menos rude e selvagem...
Depois trouxe a ansiedade e somou-lhe as dúvidas a toda a hora.
Amedrontou-me com todos os cenários de crise, de aumento de impostos, de desemprego. Fez com que me encolhesse sobre mim mesma, deixando-me curvada e prostrada perante o panorama negro que se agigantava diante dos meus olhos e em todo o meu redor.  
Por muito que tentasse libertar-me destas correntes invisíveis, as palavras crise e austeridade cercavam-me por onde quer que fosse. Encurralou-me, como fez a tantos outros, e deu uma valente sova na minha moral... 
Os medos dos outros, juntaram-se ao meu, qual gangue organizado... e eu fui-me rebaixando cada dia mais um bocadinho, cedendo terreno dentro do pensamento e do coração.
Foi-me aprisionando e eu fui permitindo e aceitando a minha "gaiola". 
Tornei-me um tanto sombria. Perdi perspectiva. Perdi capacidade de auto-crítica e de me distanciar para poder analisar a situação.
Acrescentou-lhe a crescente desilusão perante mim mesma, por ter cedido. Por ter perdido a capacidade de rebentar amarras e simplesmente arriscar, porque a intuição a isso me impelia.
A voz da certeza, foi ficando pequenina, mas nunca se calou... mas foi enfraquecendo e em algumas ocasiões remeteu-se ao silêncio. Um silêncio pesado e doloroso!
Deixei de conseguir perceber onde terminava a influência dos medos dos outros sobre mim, e onde começava o meu próprio medo. Rendi-me a ele e fui continuamente alimentando a sua fome, sequiosa. Essa fome à qual nunca respondi não.
E eu, outrora destemida, valente e voluntariosa nas minhas decisões acções, tornei-me alguém tolhida pelo medo, incapaz de enfrentar o incerto, mesmo com a perspectiva de mudança para melhor...
E pior, plenamente consciente da besta que albergava e acolhia.
Consciente e entristecida pela constatação da realidade.

6 comentários:

Tanita disse...

Um xanax do tamanho de Portugal não vai conseguir tirar a tristeza dos nossos corações, por este país que certezas não nos dá nenhumas...

carla disse...

E é através do medo que nos conseguem dominar. É urgente encontrar uma forma de ultrapassar o medo.

Mammy disse...

Como eu te compreendo...
Bjs

Soneca disse...

Muito, muito bom!
E é assim que perdemos a nossa liberdade...
Estamos todos pela trela!

Bom fim-de-semana!

luisa disse...

Um retrato fiel do sentir de muitos de nós... Muito bem escrito.

Uba disse...

E ter força pra seguir em frente!