3 de abril de 2013

A exigência da perfeição

Nos dias que correm, sinto que vivemos uma vida cheia de exigências, que crescem de dia para dia, que se agigantam diante de nós e que nos deixam tolhidos na vontade, transidos de medo. De medo de falhar, de não estar à altura, de não conseguir encaixar totalmente no molde padrão dos demais, daqueles que clamam ser felizes.
Exigem que sejamos perfeitas na vida pessoal, na vida familiar, na maternidade, na carreira profissional, que sejamos criativos, que sejamos filantropos, que ajudemos os outros num gesto de puro altruísmo e abnegação, que sejamos cultos e letrados, que sejamos optimistas, que sejamos pessoas de cara alegre, que sejamos pessoas fortes, que sejamos pessoas carregadas de projectos e sonhos, que saibamos como ser felizes!
 
Parece ser imperativo que sejamos capazes de dizer clara e inequivocamente o que queremos da vida, de sabermos com certeza milimétrica aquilo que nos faz feliz, aquilo que nos move.
Parece ser cada vez mais uma exigência de que sejamos capazes de inspirar os outros, de motivar os outros, de sermos líderes de uma manada qualquer de carneiragem, de sermos um ídolo para vários, um exemplo de integridade ou de génio criativo a quem todos querem igualar. O pior é quando nem somos capazes de nos auto-motivar...

Quanto mais ouço e leio por aí que temos que ser capazes de tomar as rédeas do destino, de seguir os nossos sonhos, de avançarmos de mangas arregaçadas para trilhar o caminho que nos leva à felicidade, só consigo é focar-me no facto de que isto dito assim parece uma tarefa facílima, que não implica grande esforço e que depende apenas de uma pequena coisa, aparentemente insignificante: a força de vontade!

Quanto mais os ouço clamar a felicidade porque seguiram o seu coração, coadjuvados pela sua enorme força de vontade, quanto mais os ouço apregoar que atingiram o nirvana, de que descobriram a forma de serem felizes todos os dias e vivem serenamente na sua perfeita vida, eu interrogo-me mais e mais sobre mim mesma... 
Interrogo-me sobre as minhas próprias incapacidades, sobre a minha falta de domínio sobre essa coisa abstracta chamada força de vontade, que eu conheço bem, porque já a confrontei tantas a tantas vezes, nem sempre conseguindo dominá-la. 
Interrogo-me porque é que os meus sonhos não são claros e muito menos precisos, e até mesmo se é suposto que eles sejam assim o sejam.
Interrogo-me sobre esta incapacidade de não conseguir enxergar o caminho por onde avançar, e interrogo-me se é por isso que me deixo estar queda e quieta, sem sair do lugar.
Interrogo-me sobre uma incapacidade adquirida de me sentir surda perante os propósitos do meu coração, e interrogo-me mesmo se sou eu que estou surda perante os seus desígnios ou se foi ele que hibernou e entrou em voto de silêncio, deixando de proferir as suas vontades.
Olho em minha volta e interrogo-me se esta gente tão esplendorosamente perfeita o é na verdade... 
Começo a suspeitar que tudo isso não passa de uma trapaça tremenda e de uma enorme encenação. E que eu é que estou errada por ser tão transparente e tão espontaneamente materializar as minhas próprias dúvidas.
Mais ainda, interrogo-me sobre de onde veio esta tão grande necessidade de fazermos aquilo que nos faz felizes a toda a hora e a todo o minuto. De onde surgiu esta enorme necessidade de seguir frases feitas, que nos servem de inspiração... e fico abismada com a quantidade de clichés e tiradas carregadas de suprema sabedoria que existem sempre em tudo quanto é lugar, sempre a chamar-nos a atenção e por o dedo na "minha ferida"...
Será mesmo preciso aspirar à grandeza para sermos felizes?!
Creio que sempre soube a resposta a isto: não!


7 comentários:

gralha disse...

Há por aí muito fogo de vista!

E depois há tempo para tudo, para semear, para colher, para comer um pãozinho com manteiga junto à lareira. Sem stresses. Beijinhos :)

Magda E. disse...

Sinto-me tal como tu... mas cada vez estou mais certa que não preciso de muito para ser feliz. E é esse o caminho que pretendo seguir, o da simplicidade e que se borrifem os outros. beijinho

Arco Iris disse...

O conceito de sermos Felizes é muito subjectivo, o que para uns é atingir o modelo de perfeição, para outros , basta pequenas coisas da Vida.
Mas reconheço que quem está na via profissional tem que lidar com esse stress, sobretudo atingir objectivos.

Susana disse...

Não podia deixar de concordar contigo. Muitos dos que pregam ao Mundo que são felizes porque fazem assim ou assado nem sempre assim o é, afinal o conceito de felicidade e realização pessoal difere para cada pessoa. É tão difícil falar sobre o assunto e apesar das tuas interrogações sabes que as respostas às tuas perguntas não passam pelos outros mas por ti mesma e só tu sabes dar respostas, ainda que por vezes as mesmas não sejam claras.

Beijinhos

sal disse...

Belo texto!!

Jardim de Algodão Doce disse...

Acredito que não há vidas perfeitas, assim como a felicidade eterna. Há sim momentos perfeitos e momentos de felicidade. Depois cabe a cada um saber aproveitá-los. Ter dúvidas é perfeitamente normal, eu mesma tenho muitas...mas também acredito que sermos felizes ou não depende muito de nós, muitas vezes da forma como vivemos e encaramos a vida. Eu também não sei qual é o meu caminho, acho que eu e ele ainda não nos encontrámos :), mas cada vez mais acredito que o que vale a pena é o bom que temos, os bons afectos que temos...isso sim merece a nossa dedicação. Beijinho.

Maria Duarte disse...

A minha teoria é que quanto mais os "outros" (se) querem mostrar, menos na realidade têm que se veja...
isto em relação aos bens materiais, às relações pessoais, ao seu próprio bem-estar e "felicidade"
Aí vem mais uma frase feita, mas não deixa de ser uma grande verdade, viver um dia de cada vez e aproveitar TODOS os momentos, ela pode ser a chave para sermos felizes.

Beijo