11 de março de 2014

Os nossos filhos quase perfeitos

Ser mãe é olhar para os nossos filhos e vê-los com uns óculos especiais, que descartam toda e qualquer imperfeição, que obscurecem qualquer traço de fealdade (grande ou pequeno), que permitem ignorar deliberada e inconscientemente as principais características de feitio menos agradáveis desculpabilizando a nossa cria por ser teimosa, voluntariosa ou outra coisa qualquer terminada em "osa"... apelidando esses traços como "personalidade forte".

Ser mãe é querer e logo assumir que os nossos filhos são seres perfeitos, exemplares, magníficos, sumidades de inteligência e modelos de beleza. Aos nossos olhos eles são e sempre serão absolutamente perfeitos!

No fundo, nós sabemos que eles certamente terão imperfeições e é preciso algum esforço de reconhecimento dessas mesmas pequeninas falhas ou defeitos.

Bem dentro de nós acalentamos o desejo de que nenhum mal caia sobre eles, que nada os magoe ou lhes traga sofrimento, por menor que seja. Preferimos olhar para eles e ver apenas o que de bom herdaram de nós (do pai e da mãe e até mesmo dos avós) e atirar para trás das costas a possibilidade de trazerem dentro de si alguma herança genética ou "personalística" que se possa assemelhar aos nossos piores defeitos, incapacidades e imperfeições.

Ora isto é convicção para dar azo a muitos choques e desilusões. Especialmente quando descobrimos que apesar de sermos ceguetas de um olho e precisarmos de óculos desde tenra idade e para o resto da vida, fomos incapazes de perceber que o nosso filho encerra a herança genética de hipermétrope, mas num nível agravado. Queremos que eles continuem perfeitos e duvidamos do diagnóstico, incrédulos perante a nossa própria cegueira incapacitante, que não nos deixou ver que ele escondia um problema de visão que o fará usar óculos desde tenra idade e para o resto da vida.

Queremos ouvir segundas, terceiras, quartas e infinitésimas opiniões, se isso significar que nos digam que afinal eles não vão ter que passar pelo estigma do "quatro-olhos", do "pitosga", do "menino dos óculos de lentes de fundo de garrafão", nem se vão aborrecer sempre que as lentes ficarem embaciadas porque andaram a correr que nem uns doidos no recreio, nem ter que justificar cabisbaixos aos pais como partiram as hastes.

Depois do choque inicial e da percepção exacta da realidade começar a assentar no nosso pensamento, percebemos que usar óculos é de somenos, porque há problemas bem piores na vida. E heranças genéticas bem mais pesadas que não convém nada carregar...

5 comentários:

Paula disse...

Oh Naná! Hoje em dia usar óculos não é como no nosso tempo! Os miúdos querem usar óculos mesmo que não precisem, é moda e fica 'cool' ;-)

Vais ver que o 'Falipe' se vai adaptar num instante... eles são assim, nós é que fazemos os filmes.

Quanto a ser mãe e ver os filhos 'perfeitos' é genético não é? Mas quanto mais depressa virmos os seus defeitos e os aceitarmos na sua imperfeição mais felizes somos todos.

Beijinhos xx

dona da mota disse...

Minha querida... vê o que escrevi hoje sobre a mesmissima experiência... os meus acham super fixe e o mais velho que padece do mesmo do que o teu acrescendo estrabismo também viu ontem essa certeza de os oculos lhe entrarem na vida... sendo que está ansioso com direito a birra monumental do filho do meio por não precisar...
Vá-se lá entender estes miudos de hoje em dia...
Beijinhos!

Arco Iris disse...

O meu neto mais velho usa óculos há muito tempo....
A principio também me custou, principalmente pelo facto de ir para a escola (e os miudos serem um pouco crueis às vezes no que dizem) mas foi pacífico, pois são mesmo muitos os que usam óculos.
O Falipe vai se adaptar.

Lacorrilha disse...

Vai correr tudo bem. O teu menino é muito especial, vai adaptar-se, claro. Aliás, ele nasceu para te surpreender!

Naná disse...

Paula, pois eu sei que hoje em dia as coisas estão bem diferentes, que até é uma certa forma de estilo... mas já estou mentalizada :)

Dona da Mota, é mesmo, vá-se lá entender!?

Arco Íris, creio que sim, que ele se vai adaptar. Obrigada pelo carinho :)

Lacorrilha, nunca tinha pensado nisso, mas sim... o meu filho parece ter nascido para me surpreender :)