Quando
saí de casa na sexta-feira de manhã, tinha uma sensação de aperto
estranha em mim. Como um estado subconsciente de alerta perante um
perigo desconhecido e invisível.
Uma
espécie de pressentimento, uma premonição... que desvalorizei,
como faço habitualmente nestes dias de trovoada, em que os
relâmpagos rasgam o céu, iluminando a escuridão das nuvens.
Desvalorizo
sempre, porque repito para mim mesma que aquele pânico um tanto
electrizante que me percorre o corpo desde o cocoruto às pontas dos
dedos é apenas uma reminiscência daquele episódio de susto, aos 5
anos de idade, mas que nunca mais me abandonou... que me deixou
sempre um sentimento de que a trovoada encerra em si uma forma de
"doomsday" (é sempre esta palavrinha em inglês que
me perpassa o espírito!), como se tudo fosse reduzido a nada à sua
passagem.
Com
o passar dos anos, aprendi a dominar este pânico e a ter uma certa
capacidade de auto-controlo, também fomentada pelo G., que adora ver
tempestades de relâmpagos (com a devida distância, é certo!).
Mas
na sexta-feira, havia algo que me fazia permanecer num estado que eu
chamo de "on edge" (mais uma vez é na língua
inglesa que melhor encontro a expressão correcta para o sentimento),
num estado de urgência e ao mesmo tempo de recusa perante a passagem
do tempo (e também do clima!).
Ao
sair de casa, pensei para comigo de que se ficasse em casa, pelo
menos estaria segura, numa espécie de forte que resiste a todas as
investidas, sejam elas quais forem.
Foi
com relutância que deixei o meu filho no infantário, porque ele
ficaria longe da minha asa de mãe galinha, na eventualidade de
alguma desgraça... Senti o aperto no coração estreitar-se ainda
mais, pois estávamos os 3 separados por distâncias nada
significativas, mas que numa situação de catástrofe poderiam
representar km e km apartados. Isto sou eu a projectar uma série
de sentimentos sobre uma carrada de filmes visionados sobre todas as
catástrofes naturais possíveis e imaginárias...
Quanto
mais o céu se dissolvia num dilúvio crescente, mais o sentimento
crescia. Só me vinham à memória aquelas recordações dos dias de
trovoada passados na casa rústica do meu avô, no meio do campo, em
que a luz era a primeira a ir embora e ficávamos num isolamento
pesado, todos juntos, apenas preocupados com os estragos que a horta
e o pomar iriam sofrer. Aquele sentimento de estarmos num reduto, na
expectativa de que tudo terminasse...
À
mistura, recordei a primeira tempestade de trovoada a que assisti
quando trabalhei nas obras. Era num estaleiro de obras que ficava
isolado num vale afundado entre duas colinas, e eu metida dentro dum
contentor metálico. Recordei o quanto receei e supliquei em silêncio
para que as ligações eléctricas estivessem feitas correctamente, e
que o fio de terra estivesse no seu devido lugar. Sentimento que se
agravou exponencialmente quando vimos o pobre Mamadu quase mudar de
de cor de pele (negra para branca), ao passar junto a uma amendoeira,
um relâmpago faiscou e rasgou uma pernada da árvore que quase o
atingia, quando ele se tentava abrigar da chuva intensa.
No
entanto, não há palavras que descrevam o sentimento que me assolou
quando comecei a ver as notícias de que um tornado tinha entrado
terra adentro, deixando um rasto de destruição à sua passagem, não
muito longe de minha casa.
Ter
a exacta noção de que ele passara a não mais do que 1km para leste
de onde resido, do meu lar, do meu refúgio, e perceber que se acaso
não fosse assim, o telhado de minha casa teria sido arrancado em
questão de segundos, deitou por terra as minhas convicções de que
em casa estaríamos seguros! E é avassalador perceber que contra a
natureza nada se pode fazer, a impotência é enorme!
Ver
os estragos nas casas e nas zonas públicas, famílias que ficaram
sem carros, porque são agora um emaranhado metálico sem conserto,
que mobílias e janelas voaram num turbilhão enorme, atingindo tudo
à sua passagem, fazendo feridos pelo caminho, deixando pessoas à
mercê das rajadas furiosas de vento foi um choque!
Aquele
misto de sensação de alívio por ter sido sortuda e a tristeza
perante os estragos provocados nos demais!
Por
fim, compreendi aquela sensação de premonição.
E
a urgência acelerou, porque apenas queria poder abraçar os meus e
refugiar-me no conforto do meu forte, que permaneceu intacto.
Além
disto, ficou a certeza de que em dias de trovoada, nunca mais
olharemos para o céu da mesma forma...