28 de novembro de 2012

Últimos encontros

Há umas semanas atrás reencontrei (encontrou-me ele) um amigo de infância, com quem brinquei tanto, especialmente nas semanas da Fatacil, porque as nossas mães eram colegas de trabalho e tinham que assegurar a banca da entidade patronal.

Há uns cinco ou seis anos atrás encontrei a mãe dele, que tinha por mim um carinho especial, particularmente depois da minha mãe ter adoecido. Num passeio de fim-de-semana, esbarrei na casa deles e vi-a no quintal. Estivémos um pouco à conversa e ela perguntou-me: "o teu pai ainda é vivo?"
Achei a pergunta estranha, porque o meu pai podia já ser um velhote mas ainda tinha só 69 anos...

Quando o J. me encontrou mandei-lhe uma mensagem a perguntar pela mãe dele e foi quando soube que estava mesmo muito doente, com um melanoma.

Não esperava de todo encontrá-la ontem durante a minha hora de almoço e apesar de estar em cima da hora, ficámos um bocado a conversar. 
Ela falou comigo com uma calma que sempre teve, mas que agora se juntava a um certo conformismo de quem sabe perfeitamente que os seus dias estão a chegar ao fim. 
Porque o melanoma se espalhou para os pulmões e para os ossos. 
Mas ela agradece o efeito que a radioterapia teve no tratamento dos ossos do pé, porque agora já pode sair da cama e andar relativamente bem e assim vir ver o mar, a conduzir a sua velha Renault 4L, como fez ontem.

E ela voltou a fazer-me a mesma pergunta: "o teu pai ainda é vivo?" e desta vez não achei a pergunta nada estranha, porque a resposta já não era a mesma... quando lhe disse que ele tinha tido um tumor no cérebro, ela disse-me que o seu desejo principal era que o cancro não se espalhasse para o cérebro, que era só o que pedia... sim, porque até ao momento derradeiro, a esperança existe sempre, mesmo que em pequenas doses! Porque há sempre algo que pode ser pior do que já temos...

Mostrei-lhe as fotos do meu filho com o orgulho de mãe babada que sou e naquele momento tive dificuldade em conseguir conter as lágrimas e a emoção de perceber que este será possivelmente o nosso último encontro. Porque o tratamento experimental que ela irá fazer, segundo ela não tem nada de curativo e é meramente paliativo.

E despedimo-nos ao fim de cinco minutos como quem se despede para uma vida inteira... e eu sempre odiei despedidas! Mas fiquei feliz por aquele inesperado encontro, por aqueles cinco minutos. E desejei não ter que ir trabalhar, porque assim convidava-a para irmos beber um chá a qualquer lado e conversarmos um pouco sobre a vida!

2 comentários:

Magda E. disse...

Nana, emocionei-me! beijinhos

carla disse...

A vida é mesmo uma cabra!