19 de novembro de 2012

Quando o céu se abate sobre nós...

Quando saí de casa na sexta-feira de manhã, tinha uma sensação de aperto estranha em mim. Como um estado subconsciente de alerta perante um perigo desconhecido e invisível.
Uma espécie de pressentimento, uma premonição... que desvalorizei, como faço habitualmente nestes dias de trovoada, em que os relâmpagos rasgam o céu, iluminando a escuridão das nuvens.
Desvalorizo sempre, porque repito para mim mesma que aquele pânico um tanto electrizante que me percorre o corpo desde o cocoruto às pontas dos dedos é apenas uma reminiscência daquele episódio de susto, aos 5 anos de idade, mas que nunca mais me abandonou... que me deixou sempre um sentimento de que a trovoada encerra em si uma forma de "doomsday" (é sempre esta palavrinha em inglês que me perpassa o espírito!), como se tudo fosse reduzido a nada à sua passagem.
Com o passar dos anos, aprendi a dominar este pânico e a ter uma certa capacidade de auto-controlo, também fomentada pelo G., que adora ver tempestades de relâmpagos (com a devida distância, é certo!).
Mas na sexta-feira, havia algo que me fazia permanecer num estado que eu chamo de "on edge" (mais uma vez é na língua inglesa que melhor encontro a expressão correcta para o sentimento), num estado de urgência e ao mesmo tempo de recusa perante a passagem do tempo (e também do clima!).
Ao sair de casa, pensei para comigo de que se ficasse em casa, pelo menos estaria segura, numa espécie de forte que resiste a todas as investidas, sejam elas quais forem.
Foi com relutância que deixei o meu filho no infantário, porque ele ficaria longe da minha asa de mãe galinha, na eventualidade de alguma desgraça... Senti o aperto no coração estreitar-se ainda mais, pois estávamos os 3 separados por distâncias nada significativas, mas que numa situação de catástrofe poderiam representar km e km apartados. Isto sou eu a projectar uma série de sentimentos sobre uma carrada de filmes visionados sobre todas as catástrofes naturais possíveis e imaginárias...
Quanto mais o céu se dissolvia num dilúvio crescente, mais o sentimento crescia. Só me vinham à memória aquelas recordações dos dias de trovoada passados na casa rústica do meu avô, no meio do campo, em que a luz era a primeira a ir embora e ficávamos num isolamento pesado, todos juntos, apenas preocupados com os estragos que a horta e o pomar iriam sofrer. Aquele sentimento de estarmos num reduto, na expectativa de que tudo terminasse...
À mistura, recordei a primeira tempestade de trovoada a que assisti quando trabalhei nas obras. Era num estaleiro de obras que ficava isolado num vale afundado entre duas colinas, e eu metida dentro dum contentor metálico. Recordei o quanto receei e supliquei em silêncio para que as ligações eléctricas estivessem feitas correctamente, e que o fio de terra estivesse no seu devido lugar. Sentimento que se agravou exponencialmente quando vimos o pobre Mamadu quase mudar de de cor de pele (negra para branca), ao passar junto a uma amendoeira, um relâmpago faiscou e rasgou uma pernada da árvore que quase o atingia, quando ele se tentava abrigar da chuva intensa.
No entanto, não há palavras que descrevam o sentimento que me assolou quando comecei a ver as notícias de que um tornado tinha entrado terra adentro, deixando um rasto de destruição à sua passagem, não muito longe de minha casa.
Ter a exacta noção de que ele passara a não mais do que 1km para leste de onde resido, do meu lar, do meu refúgio, e perceber que se acaso não fosse assim, o telhado de minha casa teria sido arrancado em questão de segundos, deitou por terra as minhas convicções de que em casa estaríamos seguros! E é avassalador perceber que contra a natureza nada se pode fazer, a impotência é enorme!
Ver os estragos nas casas e nas zonas públicas, famílias que ficaram sem carros, porque são agora um emaranhado metálico sem conserto, que mobílias e janelas voaram num turbilhão enorme, atingindo tudo à sua passagem, fazendo feridos pelo caminho, deixando pessoas à mercê das rajadas furiosas de vento foi um choque!
Aquele misto de sensação de alívio por ter sido sortuda e a tristeza perante os estragos provocados nos demais!
Por fim, compreendi aquela sensação de premonição.
E a urgência acelerou, porque apenas queria poder abraçar os meus e refugiar-me no conforto do meu forte, que permaneceu intacto.
Além disto, ficou a certeza de que em dias de trovoada, nunca mais olharemos para o céu da mesma forma...

11 comentários:

Tanita disse...

Tu bem me disseste que estavas em modo não, parecia que estavas mesmo a prever, mas perante tamanha crueldade por parte da nartureza, esrta poupou-te a ti e aos teus.
Por isso, nunca devemos desafiar a antureza, porque a sua força é maior que muitas casa de tijolo, nem os ensinamentos dos 3 porquinho aqui nos valem, e assim vemos o quão somos frágeis, por isso para quê querer dominar o mundo?
Boa semana! Bj**

Jardim de Algodão Doce disse...

Apesar da tua promonição tudo correu bem para ti e para a tua família. E sim, não é possível lutar contra as forças da natureza...não há nada que valha quando ela resolve agir. Um beijinho

Paulo Nunes disse...

Sempre adorei as trovoadas e o mau tempo, mas isso é panca minha :)
Contra a natureza nao podemos fazer nada? sim é um facto, mas podemos ser minimizar os efeitos secundários o que neste país não se faz nada.
Outra coisa que me espantou foi toda a gente a elogiar a solidariedade de todos na limpeza das ruas e afins. Nos estados unidos com todos os defeitos que eles têm, todos mas todos têm espirito de inter-ajuda nestas situações e não ficam à espera que a camara ou o estado resolvam os problemas. Deviam ser todos assim!
beijinhos

gralha disse...

Pronto, já passou. E felizmente (para vocês, infelizmente não para outros) foi só uma trovoada.

Arco Iris disse...

Quando me apercebi da dimensão do problema, lembrei-me de muita coisa, inclusivé da Nana, das pessoas que conheço que moram na zona, na minha própria casa e como a Natureza sabe por vezes ser cruel. De repente o Algarve de Paraíso passou a Inferno.
Bjs.

t disse...

a dimensao do que se passou impressiona! mas felizmente com voces esta tudo bem! o resto vai ficar. ja passou.
***

sal disse...

Que medo, mesmo! :(

Lacorrilha disse...

Nem consigo imaginar a aflição que deve ter sido, mas a ver as imagens nas notícias, fiquei com o coração do tamanho de uma ervilha, se tanto.

carla disse...

Acredita que pensei logo em ti e no post que tinhas escrito ("Lista de Pedidos") quando ouvi as notícias do tornado...

Ainda bem que tudo está bem convosco.

Um beijo

Naná disse...

Tanita, nesse dia estava como o tempo... eletrizada...

Jardim de Algodão Doce, é mesmo, tive sorte!

Paulo, esta atitude foi inédita, mesmo para mim que sou algarvia. Nós somos solidários, mas nunca o fomos nesta proporção. Daí talvez o empolamento que a cena teve. E concordo contigo, quando dizes que se pode fazer algo para minimizar. Se algo foi feito, foi no sentido inverso...

Gralha, ainda bem que já passou!

Arco Iris, parecia o Dilúvio...

t., obrigada!

sal, quase pânico...

Lacorrilha, foi mais ou menos assim que fiquei...

Carla, quando o escrevi nem fazia ideia do que estava para vir. Mas para mim correu tudo bem :)

Mammy disse...

Já passou! Foi só um susto!
Bjs