No miserável ano de 2006, tive que fazer uma formação obrigatória de reciclagem de formadora, e nessa altura estava super na berra a temática de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, e então deixa-te estar para ali a queimar tempo (60 horas, coisas pouca, portanto!) a discutir utopias e clichés sobre como as mulheres são menosprezadas no mercado de trabalho, de como recebem menos e de como são vistas como pouco produtivas, especialmente se em idade reprodutiva fértil... blá, blá, blá wiskas saquetas...
De formação de formadores pouco aprendi, mas serviu para perceber que no que toca a igualdade de oportunidades entre géneros, pouco ou nada se tinha avançado, especialmente em matérias laborais.
Mais de seis anos volvidos, e eis que a notícia da Cristas ser a primeira ministra a engravidar, estando em funções, merece todo o destaque e pasmem-se que a senhora afirma que irá trabalhar até à data do parto. Não sei que tamanha estupefacção isto possa causar... E dou comigo a pensar que, puta que pariu isto tudo, que somos todos muito avançados e defensores dos direitos humanos, mas estando já na segunda décado do séc. XXI, ainda causa estranheza e espanto uma ministra ter engravidado. Cá por mim, acho que se é para ser assim, então também quero saber sempre que um senhor ministro ou secretário de estado seja contemplado com a paternidade, porque decerto terá que se ausentar por 10 + 30 dias de licença parental...
Quando entrei no mundo da construção civil, em 2004, é claro que um dos maiores receios que tive, além da minha comprovada inexperiência na matéria, foi como iria ser recebida num mundo de homens, ainda por cima com uma função que implicava mudar mentalidades enraizadas havia décadas. Achei que iria ouvir muitas bocas foleiras e ainda mais tiradas carregadas de machismo latino. Curiosamente senti primeiro o desprezo por ter um título académico equivalente a licenciatura, mas que à vista de um qualquer bacharelato em engenharia era uma valente porcaria e poucas regalias me traziam, comparativamente com os senhores engenheiros, até mesmo os estagiários... quem havia de dizer?! Mas sim, fui começando aos poucos a perceber onde haviam comentários carregados de desprezo pela minha condição de mulher, apenas disfarçado pelo respeito que fui conquistando pelo meu desempenho profissional. E sinceramente, deixei de me preocupar com os machistazecos com quem me cruzei... vozes de burro nunca chegaram aos céus, comigo! O primeiro grande sinal de machismo e desigualdade de género que tive que engolir, a seco, foi quando convenientemente uma progressão na carreira que estava assegurada num mês, assim que se soube que estava de esperanças, ficou irremediavelmente adiada, sem prazo definido, porque o momento "não era oportuno"...
Mas mesmo assim, fui apanhada completamente desprevenida quando na sequência de ter sido mãe comecei a sentir na pele uns certos laivos de desprezo e até mesmo revanchismo pela minha recém falta de disponibilidade para continuar a ser pau para toda a obra e ter começado a cumprir finalmente, em alguns dias de semana, os horários que me incumbiam, mas que até à maternidade sempre ignorara, estendendo-os largamente. E foi num misto de espanto e raiva instantânea que fui incapaz de disfarçar ou conter que um dos meus superiores hierárquicos, me disse com todas as letras que eu não era capaz de me sacrificar pela empresa e que eu "não podia ter as duas coisas!", leia-se uma carreira e filhos. O que ele nunca esperou foi que eu tivesse a resposta pronta na ponta da língua e lhe tivesse recordado aquele último mês de licença de aleitamento em que em vez de cumprir o horário reduzido de 6h, cheguei a cumprir 10 e 11h, porque a administração decidira deslocar-me para uma obra a 250 kms da minha residência, apesar de eu estar isenta de disso, por ainda estar a amamentar o meu filho. As horas que cumpri a mais foram-me compensadas, mas apenas porque bati o pé e exigi, depois de me informar com a Comissão para a Igualdade de Direitos entre Homens e Mulheres. Esse meu chefe ficou tão furioso, que não só saiu cagando fogo da reunião, como deixou de me falar durante uma semana, porque eu fiz questão de lhe recordar que lá porque ele tinha tomado a opção pessoal de viver para o trabalho, ele tinha de se capacitar de que a empresa me pagava a mim, e a todos os colaboradores, independentemente do género, para trabalhar 8h diárias, 5 dias da semana e que nós tínhamos família e vida para além da empresa!
Por tudo isto, acho lamentável que a Cristas estar para ser mãe pela 4.ª vez seja uma notícia tão fantástica, porque para mim, revela que este país não é para igualdades de género, nem lá perto... porque até na merda da vida política, muitas mulheres apenas têm lugar na Assembleia e em cargos públicos/políticos, porque há quotas!