6 de janeiro de 2013

Igualdade de oportunidades entre géneros, a ministra grávida e a vida nas obras

No miserável ano de 2006, tive que fazer uma formação obrigatória de reciclagem de formadora, e nessa altura estava super na berra a temática de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, e então deixa-te estar para ali a queimar tempo (60 horas, coisas pouca, portanto!) a discutir utopias e clichés sobre como as mulheres são menosprezadas no mercado de trabalho, de como recebem menos e de como são vistas como pouco produtivas, especialmente se em idade reprodutiva fértil... blá, blá, blá wiskas saquetas... 
De formação de formadores pouco aprendi, mas serviu para perceber que no que toca a igualdade de oportunidades entre géneros, pouco ou nada se tinha avançado, especialmente em matérias laborais.

Mais de seis anos volvidos, e eis que a notícia da Cristas ser a primeira ministra a engravidar, estando em funções, merece todo o destaque e pasmem-se que a senhora afirma que irá trabalhar até à data do parto. Não sei que tamanha estupefacção isto possa causar... E dou comigo a pensar que, puta que pariu isto tudo, que somos todos muito avançados e defensores dos direitos humanos, mas estando já na segunda décado do séc. XXI, ainda causa estranheza e espanto uma ministra ter engravidado. Cá por mim, acho que se é para ser assim, então também quero saber sempre que um senhor ministro ou secretário de estado seja contemplado com a paternidade, porque decerto terá que se ausentar por 10 + 30 dias de licença parental...

Quando entrei no mundo da construção civil, em 2004, é claro que um dos maiores receios que tive, além da minha comprovada inexperiência na matéria, foi como iria ser recebida num mundo de homens, ainda por cima com uma função que implicava mudar mentalidades enraizadas havia décadas. Achei que iria ouvir muitas bocas foleiras e ainda mais tiradas carregadas de machismo latino. Curiosamente senti primeiro o desprezo por ter um título académico equivalente a licenciatura, mas que à vista de um qualquer bacharelato em engenharia era uma valente porcaria e poucas regalias me traziam, comparativamente com os senhores engenheiros, até mesmo os estagiários... quem havia de dizer?! Mas sim, fui começando aos poucos a perceber onde haviam comentários carregados de desprezo pela minha condição de mulher, apenas disfarçado pelo respeito que fui conquistando pelo meu desempenho profissional. E sinceramente, deixei de me preocupar com os machistazecos com quem me cruzei... vozes de burro nunca chegaram aos céus, comigo! O primeiro grande sinal de machismo e desigualdade de género que tive que engolir, a seco, foi quando convenientemente uma progressão na carreira que estava assegurada num mês, assim que se soube que estava de esperanças, ficou irremediavelmente adiada, sem prazo definido, porque o momento "não era oportuno"...
Mas mesmo assim, fui apanhada completamente desprevenida quando na sequência de ter sido mãe comecei a sentir na pele uns certos laivos de desprezo e até mesmo revanchismo pela minha recém falta de disponibilidade para continuar a ser pau para toda a obra e ter começado a cumprir finalmente, em alguns dias de semana, os horários que me incumbiam, mas que até à maternidade sempre ignorara, estendendo-os largamente. E foi num misto de espanto e raiva instantânea que fui incapaz de disfarçar ou conter que um dos meus superiores hierárquicos, me disse com todas as letras que eu não era capaz de me sacrificar pela empresa e que eu "não podia ter as duas coisas!", leia-se uma carreira e filhos. O que ele nunca esperou foi que eu tivesse a resposta pronta na ponta da língua e lhe tivesse recordado aquele último mês de licença de aleitamento em que em vez de cumprir o horário reduzido de 6h, cheguei a cumprir 10 e 11h, porque a administração decidira deslocar-me para uma obra a 250 kms da minha residência, apesar de eu estar isenta de disso, por ainda estar a amamentar o meu filho. As horas que cumpri a mais foram-me compensadas, mas apenas porque bati o pé e exigi, depois de me informar com a Comissão para a Igualdade de Direitos entre Homens e Mulheres. Esse meu chefe ficou tão furioso, que não só saiu cagando fogo da reunião, como deixou de me falar durante uma semana, porque eu fiz questão de lhe recordar que lá porque ele tinha tomado a opção pessoal de viver para o trabalho, ele tinha de se capacitar de que a empresa me pagava a mim, e a todos os colaboradores, independentemente do género, para trabalhar 8h diárias, 5 dias da semana e que nós tínhamos família e vida para além da empresa!

Por tudo isto, acho lamentável que a Cristas estar para ser mãe pela 4.ª vez seja uma notícia tão fantástica, porque para mim, revela que este país não é para igualdades de género, nem lá perto... porque até na merda da vida política, muitas mulheres apenas têm lugar na Assembleia e em cargos públicos/políticos, porque há quotas!

7 comentários:

Jardim de Algodão Doce disse...

Claro que este país não é, nem nunca será para igualdades de género. Aliás sei porque fiquei sem emprego. Fiquei por ter defendido os meus direitos e se mais gente o fizesse talvez as coisas mudassem. É o país em que vivemos, mas nós também somos quota parte disso. Beijinho

Ombemua - Saoirse disse...

É tão verdade.
Eu também fiquei a pensar quando bi a notícia.
Feliz dia querida.
Baci*

Naná disse...

Jardim, eu não esperei que me despedissem... decidi que iria sair assim que pudesse, porque não estava para sair do trabalho quase todos os dias à hora que o infantário do meu filho fechava. Tive sorte e consegui, coisa que nem sempre é fácil!

Ombemua, a sério, somos mesmo pequeninos...

Paulo Nunes disse...

Na falta de noticia...qualquer coisa deste tipo o povinho gosta.
Não me choca trabalhar até ao ultimo dia... o que me pode chocar é depois trocar a maternidade pelo trabalho.. isso sim!

Arco Iris disse...

Realmente que notícia surpreendente!... não é mulher como qualquer outra ? se existe diferença é que pode têr o 4º filho e certamente terá regalias que outras mulheres que trabalham não podem usufruir.



























pontinhos ao vento disse...

Do que tu me fizeste lembrar...
"horário de amamentação?? mas tu não estás a dar mama!!"
Resta acrescentar que o horário que me foi permitido gozar, era acrescentado na hora de almoço, que de 2 passou para 4 horas mas, continuava na mesma a sair ás 8 da noite.
Atenua dizer que o meu patrão na altura era o meu tio?
Trabalhei atá ao ultimo dia em que me podia recusar a fazer horas extraordinárias - até a minha filha ter 10 meses. Foi aí que disse adeus à "fotografia"
Também ainda me lembro que no ano em que estive de licença de maternidade uma das colegas foi aumentada 40 CONTOS por ter no ano anterior (qdo eu estive de licença)"trabalhado muito".

Naná disse...

Paulo, pois isso a mim também me chocará, se vier a suceder!

Arco Iris, pois... eu já nem queria entrar por aí... ela vai para o 4.º filho, quando há muitas que ainda estão a tentar obter estabilidade para ter o 1.º ou mesmo o 2.º...

Pontinhos ao Vento, pois... atenua eu dizer-te que quando o empregador é família, é pior ainda?! Porque acham que têm que fazer-nos de exemplo perante os outros empregados que não têm laços familiares??!! E nem me ponhas a falar das pessoas que beneficiaram largamente da minha gravidez e subsequente licença...