1 de outubro de 2012

Recuso-me!

"Depois de ouvir esta notícia hoje de manhã, e de me recordar o que vivi há doze anos atrás, a conclusão a que chego é que eu sou culpada por parte do grande buraco orçamental.A minha mãe viveu três anos, quando não era expectável viver mais do que alguns meses, tendo feito nesse tempo alguns tratamentos experimentais caríssimos - que por acaso até a iam matando mais cedo - cirurgias, quimioterapias, radioterapias, etc etc etc.Fez tudo no IPO de Lisboa, consoante o proposto pelos médicos, sempre a contrariar expetativas e taxas de sobrevivência, sempre a mostrar que estava ali para lutar uma guerra e vencer batalha a batalha.Não venceu, mas conseguiu ver-me a definir o futuro com o homem que hoje é meu marido (e por quinze dias apenas não nos viu casar), viu o meu irmão prestes a concluir os seus estudos com distinção (mas foi poupada à sua perda, pelo menos isso) viu a minha irmã chegar aos treze anos (e treze é muito diferente de nove).Desculpem sim, por ter tido a minha mãe mais dois anos e meio do que previsto. Desculpem o que a presença dela nas nossas vidas custou ao estado. E perdoem pensar que a vida humana não tem preço e que o Serviço Nacional de Saúde devia ser cego a classes sociais e influências.Quem achar que isto é realmente uma medida equilibrada, tem dinheiro para pagar o que for preciso do seu bolso. Quem não achar que isto, mesmo podendo até parecer sensato no papel mas que, na realidade vai ter um efeito perverso, nunca passou por uma situação em que a sua vida ou a de alguém que ama dependa da decisão de outrém e não tem meios para se valer de outra forma."

A Costinhas escreveu este belíssimo texto, que transcrevo aqui parcialmente. 
No entanto, eu não sou tão boazinha como a Costinhas...
Recuso-me a pedir desculpas pela força de vontade que a minha mãe demonstrou ao longo dos longos dois anos e meio em que se recusou a deixar vencer por um maldito cancro que insistia em carcomê-la por dentro. 
Recuso-me a pedir desculpa pelas inúmeras consultas e pelos tratamentos todos de quimioterapia, pela mastectomia total e pelos 35 tratamentos de radioterapia feitos no IPOFG que atiraram a minha mãe para um poço de dores excruciantes e seis meses de noites completas (e dias) sem dormir, apesar dos 100 mg de morfina a cada 6h! Coisa que quem teve esta peregrina ideia de "racionar" nunca saberá o que é (apesar de eu desejar que o sentissem, nem que fosse só por uma semana...)
Recuso-me a pedir desculpa pelos dois meses e meio de internamento do meu pai nos cuidados intermédios de serviço de neurocirurgia do Hospital de S. José, em estado comatoso, ligado a não sei quantos fios e cabos e máquinas de ventilação assistida, após uma dificílima cirurgia de mais de 10h para remover um tumor na hipófise.

Recuso-me a pedir desculpa! Porque a minha mãe definhou lentamente até morrer, antes que eu pudesse terminar o 12.º ano e nunca me viu entrar na Universidade, o seu grande sonho!
Recuso-me a pedir desculpa! Porque o meu pai faleceu injectado de morfina e ligado a máquinas de suporte respiratório 17 dias antes do seu neto completar o 1.º aniversário, a quem amava mais mesmo que a mim!

Porque aqueles a quem sucede ter um cancro, seja em que parte do corpo for, já tem uma dura batalha pela frente, sem precisar que o Estado e gente sem ponta de sensibilidade ou humanismo, lhe venha dizer que não pode usufruir de todos os tratamentos disponíveis que o possam ajudar a vencer esta luta, porque houve uma série de cabrões que andaram a viver "acima das possibilidades" e preferiram salvar os bancos e não as pessoas!
Ah e recuso-me ainda mais a pedir desculpa porque eles, os meus pais pagaram todos os impostos que lhes incumbia e como tal ganharam o direito a ter todos os cuidados de saúde disponíveis!

4 comentários:

Ceres disse...

Quando vi agora a notícia, nem queria acreditar.... Só pode dar este parecer quem nunca passou por uma doença destas....
Eu vi a minha irmã parti com 38 anos, antes disso o meu avô, o meu tio e depois a minha tia. O cancro já roubou muito à minha família por isso não consigo conceber que se possam racionar os tratamentos simplesmente porque são caros. Estou tão indignada e furiosa que me faltam as palavras!!!!

Mammy disse...

Eu também me recuso a pedir desculpas, no meu caso, por existir.
E recuso-me, porque, quando o cancro me bateu à porta, eu estava desempregada e, se não fosse o nosso sistema de saúde (se por exemplo, me acontecesse nos EUA), hoje eu não estaria aqui. Foi o facto do nosso SNS não poupar nos medicamentos, nem nos exames de diagnóstico que me permitiu estar aqui 6 anos depois.
A saúde em Portugal não é perfeita, todos sabemos isso, mas tem muitas coisas boas e, uma delas era tratar as pessoas com todos os meios que disponha.
A partir do momento em que se começar a poupar nos medicamentos das pessoas que precisam deles para viver, a saúde neste país passa ser um embuste.
Beijinhos

Naná disse...

Ceres, este texto que escrevi nem consegue descrever uma parte da minha indignação... só quem como nós e os nossos familiares que passaram por isso sabe o que isto revolta!

Mammy, nem mais! O nosso SNS pode ser imperfeito e ter as suas falhas, mas ainda garante isso mesmo, que quem precisa, independentemente da situação contributiva ou outra qualquer possa ter acesso livre e ser tratado da mesma maneira!

carla disse...

Era mais o que faltava pedir desculpas por querer viver o mais e o melhor que pudermos!

É nestes alturas que desejava que estes senhores, lá do alto das suas cadeiras sofressem de todos os males que um cancro e outras doenças graves podem causar, sem ter acesso a tudo para se tratarem (conforme eles dizem que nem todos podem ter direito a tudo...).