17 de março de 2015

Apetece-me

Escrever.
Não escrever de todo.

Escrever sem reservas, desaguando os pensamentos que pululam como enguias no meu cérebro cansado e privado um pouco menos de sono.

Escrever condicionadamente, porque às vezes menos é mais e não havia necessidade de desaguar rios de palavreado sem sentido só porque sim.

Ficar sentada em silêncio dentro do carro e apenas deixar entrar o ruído de fundo dos carros que passam na estrada enquanto tento respirar profundamente ao olhar a paisagem solarenga junto ao rio, evitando pensar no cansaço de dar banho a dois miúdos sozinha, fazer jantar, brincar, mimar, deitar porque já é tarde e as pálpebras teimam em cerrar-se, porque o pai teve que ir trabalhar pela noite adentro.

Ir a correr ao encontro dos meus meninos, com os seus sorrisos sinceros e francos, carregados de inocência, que me olham como a um ídolo. Abraçá-los apertada e demoradamente e fechar os olhos para registar estes momentos que não voltarão a ser...e receber deles aquilo que há de mais puro, de mais genuíno e mais valioso.

Ser uma mãe-coragem daquelas que se desdobra em quinhentas mil tarefas, que não se cansa nunca, que não se exaspera nem levanta a voz quando ambos os rapazes se dispõem em modo "gritador", fazendo sucumbir até o cérebro mais bem repousado, que se cuida e apruma e é o pináculo da feminilidade graciosa de mãe-mulher "resolvida" e "resoluta".

Ser a mãe que revira os olhos sempre que lê os sábios conselhos para ser uma mãe-mais-isto-e-mais-aquilo, que tem vontade de chicotear essas mães que apregoam aos sete ventos que tudo fazem e conseguem sem aparente esforço, porque no fundo elas são o exemplo acabado de uma tremenda fraude! Sim, fraude!! E percebo que nunca quereria ser aquele tipo de mãe, porque é irreal. Porque qualquer mulher que tente igualar aqueles padrões estará condenada logo à partida, derrotada na vã conquista de uma maternidade que só está disponível a quem tem sistemas de apoio dignos desse nome.

Ser uma pessoa cheia de objectivos e ambições, que faz e que vai à luta, que se esforça, que se esgadanha a tentar chegar onde quer e ao que quer, que não se conforma, que não se rende sem lutar.

Ser a pessoa que olha a vida da forma mais realista que consegue, e decide que há um momento para simplesmente passar pelos dias sem se preocupar muito com objectivos cumpridos, porque mais tarde haverá tempo para isso tudo.


6 comentários:

Amigo Imaginário disse...

Todos os dias me sinto grata por ter os meus filhos comigo e sinto sempre receio de os ver partir nas férias. Mas, sinceramente, suspiro de alívio quando os meto no avião. Contraditório? Provavelmente... ;)

Joana disse...

Adorei e revi-me em muitas linhas. Beijinho

Tanita disse...

Como, como te entendo.

Magda E. disse...

um apoio faz muita diferença... o que sentiste nesse dia que o teu marido trabalhou noite dentro, sinto-o no meu dia a dia, tirando umas 3h diárias, sou mãe sozinha. e claro que por vezes quase que dou em maluquinha, mas quando essa é a nossa realidade, acabamos por nos habituar a ela, a rotinas, enfim... beijinho e não te culpes pelos dias em que precisas de respirar fundo e ter coragem para eles. Acontece a todas, tenho a certeza.

Naná disse...

Magda, não foi só uma noite, são muitas, quase todas... o meu marido trabalha em turnos sempre nocturnos... a realidade que tu tens durante o dia, eu tenho à noite :(

Magda E. disse...

é uma porcaria, não é? para não dizer pior =( beijinho (vemos-nos em breve)