25 de abril de 2012

O dia da liberdade

Não vivi nos tempos da ditadura, por isso não sei como foi...
Os meus pais viveram mais de metade das suas vidas durante o regime salazarista, mas o meu pai costumava dizer que nas zonas mais "interiores" o jugo do autoritarismo não se sentia tanto.
Mas sentia-se a miséria e, em muitas casas a escassez e mesmo a fome, um pouco o que sucedia na casa dos meus avós paternos. Na casa dos avós maternos havia mais abundância porque eram pessoas ditas ricas e os campos sempre deram frutos suficientes.
Os meus pais falavam pouco dos tempos do fascismo e nunca houve grande comemoração em torno do 25 de Abril e do que isso trouxe.
Na escola, nunca aprendi propriamente os factos históricos da revolução como aconteceu com outras épocas históricas, isto porque quando o ano lectivo estava prestes a terminar era quando finalmente abríamos o capítulo do manual de história relativo à história contemporânea de Portugal. Talvez por isso, tenha dificuldade em acertar factos e personalidades dos tempos de ditadura... 
Quando se falava da ditadura e do fascismo em casa, eu ia registando o que meus pais iam dizendo e somando tudo isso, cada dia posso concluir mais firmemente que teria sido muito infeliz se tivesse vivido nesse tempo.
Num tempo em que havia censura, em que não tínhamos liberdade de dizer o que pensávamos, especialmente se isso contrariasse os princípios do regime. 
Num tempo em que não haviam eleições e ninguém era livre de votar ou se pronunciar sobre os destinos da nação...
Num tempo em que a mulher perfeita era invariavelmente a que era submissa e se subjugava à vontade do pai, do irmão ou do marido.
Num tempo em que às mulheres era vedado o uso de calças em público, entre outras coisas...
Nos tempos em que cá se passava fome, porque as colheitas da terra eram obrigatoriamente entregues ao Estado Novo, para ser despachado para o "esforço de guerra", o sabão, o açúcar e o sal eram racionados ou então apenas adquiridos com muito risco no mercado negro.
Num tempo em que quem tivesse um vizinho mais invejoso e pejado de malícia poderia facilmente ser denunciado à PIDE e eram levados sem apelo nem agravo para o posto/esquadra ou para a prisão e poderiam ser torturados sem que houvesse acusação formal, por tempo indeterminado...
Num tempo em que quem tinha convicções políticas diferentes das do regime era torturado ou forçado a emigrar ou a viver clandestinamente... isto quando não eram exilados e obrigados a viver longe da sua família.
Num tempo em que jovens rapazes, na flor da sua juventude acabada de entrar na maioridade, eram despachados para a guerra colonial, para combater nem sabiam bem o quê ou em nome de quem...

Se hoje se vive em liberdade e em democracia, como era o objectivo dos Capitães de Abril? 
Isso depende do que se entende por democracia, que a meu ver está cada dia mais decadente, moribunda e em algumas áreas mesmo putrefacta...
Mas ao menos pode dizer-se que se vive em liberdade, mesmo que relativa, porque podemos falar aberta e livremente sobre o que pensamos, a nível social e político, sem medos, sem receios de sermos recolhidos por qualquer força policial para sermos sovados enquanto lhes aprouver...
Porque hoje a mulher foi conquistando um papel cada vez mais significativo em vários quadrantes deste nosso país desorientado e mal governado... e eu sei do que falo, porque afinal das contas trabalhei oito anos num mundo eminentemente masculino e onde dificilmente uma mulher entraria, quanto mais para trabalhar.
Por todos estes factos, posso dizer que cada vez mais encontro significado e valorizo mais a revolução que ocorreu em 25 de Abril de 1974. 
Mas ainda há um longo caminho a percorrer neste país à beira mar plantado, especialmente no que diz respeito à educação cívica e à responsabilização política dos nossos gestores e governantes.

Além disso, valorizo a liberdade um pouco também porque posso usar saias apenas e só quando me apetecer!

5 comentários:

kuka disse...

Há por aí algumas coisas verdadeiras, mas também há muiteas que te foram inculcadas, sabe-se lá por quem!
Por exemplo: A moda (muito bonita por sinal) da mini-saia, fez furor nos anos sessenta. E como a menina sabe, o fascismo durou até 74! E no que respeita às calças, a grande maioria das mulheres usavam saias, mas as que andavam de calças não eram incomodadas por isso.
E há no texto mais exageros que não correspondem á verdade dos factos.
Tomei parte na revolução, era militar nessa altura e acho que foi a melhor coisa que aconteceu, mas nada de exageros!

Naná disse...

Kuka, assumo que poderá haver exageros neste meu texto, mas se leu bem, esta é uma época da história nacional que assumo que não domino bem, por uma série de razões que também explico.
Aqui menciono coisas que me foram relatadas por quem as viveu (algumas em primeira mão - nomeadamente o envio de bens alimentares para o esforço de guerra e a aquisição de bens no mercado negro) e outras que vi em documentários sobre a ditadura e a revolução.
O facto permanece, este é um pedaço da história que ainda varia muito consoante a perspectiva de quem o conta... se calhar se formos falar com quem vivia nas ex-colónias, o 25 de Abril foi o pior que poderia ter acontecido... ou quem viu bens nacionalizados e usurpados no pós 25 de Abril...
Talvez não se queira em Portugal desvendar uma série de mistérios sobre estas décadas, que permanecem encerradas na Torre do Tombo!
Acredito que Salazar tenha sido muito diabolizado, mas também fico estupefacta com a displicência com que hoje haja quem diga que devíamos era ter outro Salazar e uma outra ditadura...

Arco Iris disse...

Naná mesmo não tendo vivido no regime da ditadura, muitas das coisas que diz no seu texto era a realidade do nosso País.
Um País pobre em todas as áreas , agravado com o problema de não termos liberdade de expressão.
Muitas coisas e boas foram conquistadas com a Revolução do 25 de Abril.
Pena, que nunca tivéssemos políticos à altura , para depois destas conquistas, saberem governar o País.
Bjs :(((

mfc disse...

Para lá da liberdade de expressão(necessária) é preciso continuar a exigir as liberdades sociais que não são menos importantes: saúde, trabalho, reformas etc

Ni! disse...

Vamos lá ver... De tudo o que escreveste, importante mesmo é esclarecer a parte das calças e das mini-saias. Por favor...

Até te digo mais, já li hoje posts em blogs cujos autores deviam ler este teu. Para quem não viveu o 25 de Abril e assume que não domina o assunto, gosto da tua visão.