22 de março de 2012

Vô 'Bel

Hoje faria anos, 74...
Hoje eu compraria uma prenda para te oferecer e sei que irias ficar a desdenhar e a resmungar sobre todo o dinheiro que gastei nela e que não valia a pena... porque eras agarrado ao dinheiro até ao tutano.
Hoje levar-te-ia a jantar em minha casa e sei que irias pôr defeito em todos os pratos que te pusesse à frente, "que está muito salgado, que não está bem temperado, que não tem graça nenhuma..." enquanto ias comendo tudo até lamber o prato.

Quando era miúda dizia que um dia casaria contigo, depois percebi que isso não seria possível, e dizia que casaria com alguém igual a ti. 
Na adolescência, comecei a perceber que não eras assim tão perfeito...
Quando a mãe partiu, quebrou-se o elo de comunicação entre nós e a nossa relação daí em diante foi sempre oscilante, com muitos altos e muitos baixos... marcada por muitos momentos de carinho e ternura e, outros tantos de discussões e guerras permanentes; porque ao contrário da mãe, quando não concordavas com as minhas opções, não tentavas compreender que a escolha era minha e tinhas dificuldade em aceitar que eu escolhera um caminho diferente daquele que tu achavas ser o ideal...

Quando entrei em Coimbra, ficaste desapontado, apenas e tão só porque isso significava que irias ficar ainda mais sozinho e que eu iria ficar a mais 200 km de distância do que os 300 km que inicialmente esperavas... Escusado será dizer que te rendeste ao facto e passado pouco tempo dizias babado e orgulhoso a toda a gente que eu era "estudante de Coimbra"!

De ti ouvi muito desaforo e magoaste-me muitas vezes, profundamente... e eu fiz o mesmo contigo!
Tu fechaste-te no sofrimento de teres perdido a tua companheira de sempre, aquela que tanto amaste e com quem tinhas um sonho de velhice e eu... Eu geri o meu e segui em frente, mas tu ficaste ressentido comigo por isso... 
Para tentar minimizar isso levei anos a tentar igualar a mãe, sem nunca conseguir verdadeiramente, porque seria impossível!
Porque eu sempre tive o mesmo feitio que tu... no que éramos parecidos éramos tão iguais, no que éramos diferentes, estávamos em extremos opostos!

A nossa relação melhorou bastante quando saí de casa para fazer a minha vida a dois, mas o início foi mesmo muito conturbado, porque tu encasquetaste na ideia que isso significava que eu te votaria ao abandono e nunca mais quereria saber de ti. No dia que viste que não seria assim foi quando começámos a conversar mais longamente e eu senti que podia partilhar coisas minhas contigo, apesar de estar sempre à espera do reparo e do comentário depreciativo...

Ficou-me a alegria de te ter dado uma felicidade maior numa vida que ficou marcada por uma enorme solidão, teres sido avô! Vibravas com o teu neto e não sabes o quanto lamento por não teres estado cá mais tempo para o veres crescer e eu poder continuar a ver a tua alegria de avô babado!

Sempre soube que um dia irias partir, mas quando adoeceste e me deram o diagnóstico não quis acreditar! Não me conformei... mas tudo o que se passara entre nós de menos bom desvaneceu-se e esfumou-se no ar! Passaram a ser memórias esbatidas de alguém que nem tenho a certeza que seja eu...
Ainda hoje não me conformo e ainda tenho o acto irreflectido de pegar no telemóvel para te ligar a saber se estás bem... mas depressa entendo que isso não é possível... e mesmo assim, ainda guardo o teu número de telemóvel na minha lista de contactos... de alguma forma ainda não sou capaz de te deixar ir... ainda não! Um dia sei que o farei... mas não é agora ainda...

Ainda digo que o apartamento que compraste com o suor do teu trabalho é a casa do avô Abel e há dias a tia Albertina, tua irmã, prática que só ela, deu-me um raspanete por não me referir à casa como minha, porque é no meu nome que está registada...

No fundo tenho saudades tuas! 
De estares sempre a apontar-me defeitos, a desdenhar do almoço e de me dizeres que eu "ainda cheiro a pequeninos"...

Parabéns, pai, onde estiveres!!

12 comentários:

Carla disse...

Uau.... adorei ler este post, adorei a franqueza, e senti muita coisa.

Lindo x

ESpeCiaLmente GaSPaS disse...

quanto mais me bates mais gosto de ti! às vezes nestas relações em que muito se resmunga, a união e a falta que se sente um do outro é muito grande :))

Ni! disse...

Parabéns, avô Abel. Não tanto pelo aniversário, mas pela filha espectacular que lhe calhou!
Beijos, querida.

carla disse...

Parabéns ao avô e ao pai e à filha que lhe escreveu palavras tão sentidas.

Beijinho para ti.

Arco Iris disse...

Pois é Náná o seu texto além de estar lindo...nota-se que foi um desabafo sentido.
Compreendo-a porque ao longo da vida a relação que tive com a mãe foi muito diferente da do pai.
Tentei..tentei...cheguei à conclusão que não valia a pena.
Acomodei-me à situação, porque pensei
"não é a mãe que gostava de têr mas, é a minha mãe" e claro que gosto dela com o seu mau feitio.
Bjs :)

Mammy disse...

Até me arrepiei...
Beijinhos, Naná

Isilda disse...

Parabéns Bô Bel pela semente que cá deixou!

mão da mãe disse...

um grande beijinho e coragem para o deixares ir. sentirás paz!

mfc disse...

Que post mais lindo, cheio de uma saudade comovente e a constatação da falta que ele te faz.
Beijinhos.

mfc disse...

Que post mais lindo, cheio de uma saudade comovente e a constatação da falta que ele te faz.
Beijinhos.

Tanita disse...

Gostei imenso do que escreveste. Colocaste nas tuas palavras todo o sentimento que ainda sentes, e as saudades essas minha querida vão aumentar com o tempo, mas este fá-las ser mais brandas e suaves. Se isso te conforta, pensa que o teu pai, onde quer que esteja, também está muito orgulhoso de ti e do modo como encaminhaste a tua vida, a tua familia... bj**

Vani disse...

Sem palvras...