11 de agosto de 2011

Leveza

Desde que me furtaram a mala, já experimentei todos os sentimentos contraditórios possíveis neste tipo de situação. Alguns deles, eram já conhecidos de outra ocasião em que num roubo em minha casa (comigo a dormir lá dentro) me levaram igualmente a mala.
A diferença entre este furto e o anterior prende-se apenas com duas coisas: desta vez fiquei com a chave do carro, enquanto da outra tive que andar a esconder o carro durante uma semana até mudar os canhões e o comando. Desta vez levaram-me os telemóveis e da outra não, porque eles apenas levaram as coisas da sala e os telemóveis estavam na minha mesa de cabeceira.
E isto faz toda a diferença! Sinto que desta vez fiquei muito mais lesada, muito mais prejudicada. A raiva, a fúria e a revolta foram muito maiores desta feita.
Em 2004, estava numa situação de desemprego e tive tempo para tratar de refazer a parafernália de documentos que temos que carregar para sermos cidadãos plenos. Agora, estou a trabalhar e cada assunto que tenho que tratar relacionado com o furto e reemissão de documentos e cartões bancários obriga-me a estar a pedir para me ausentar do local de trabalho, coisa que nunca gostei particularmente de fazer... há muito que se pode fazer pela internet e por telefone, mas nestes casos, isso não é tanto assim...!
O pior é que me sinto despida, despojada de algo que contribuía para a minha própria identidade. Querer contactar com pessoas e não ter os seus contactos... (vá lá que o e-mail e o FB facilitam essa tarefa), querer pagar compras e outras coisas que consumimos no dia-a-dia e ter que fazer o cálculo antes de sair de casa de quanto dinheiro vivo tenho que levar, "não vá ser preciso"... eu que detestava andar com muito dinheiro vivo na carteira...
Mas a sensação que tenho é que ando muito "leve"! A minha mala hoje é metade do tamanho da que foi levada, carrego 1/5 do que carregava antes... e é impossível contradizer o sentimento que tenho quando saio de casa e coloco a mala ao ombro, de que me esqueci de qualquer coisa... aquela "leveza da mala" faz-me crer que deixo algo para trás e que precisarei no decurso do dia. Razão que justifica o facto de me terem levado a "vida toda" dentro da mala....
Abrir a carteira é uma desolação autêntica... há apenas notas e moedas e o papel que me deram de comprovativo em como pedi a emissão do cartão de identidade...! Está nua e despida!
No entanto, na minha cabeça já assumi os factos, aconteceu e "está acontecido"! Os cartões e documentos refazem-se, alguns a maior custo que outros, mas arranjam-se substituições. Os contactos perdidos também se recuperam, a pouco e pouco!
O que me faz mais falta nesta perda e com isso estou a ter dificuldade em resignar-me e aceitar são as notas pessoais que tinha escrito em ambos os telemóveis, pedaços de mim, pensamentos e sentimentos decalcados fugidiamente nos telefones e os quais não tive oportunidade ou tempo para copiar para um caderno de papel... como sempre fiz! 
Estas notas fugazes da minha existência não mais voltarão... e assim foi uma perda definitiva! Porque havia algumas notas sobre a morte do meu pai (nessa altura, os sentimentos turbilhavam no meu cérebro e no meu coração) e outras eram mensagens que quis deixar ao meu filho, para um dia mais tarde!...
E estas nunca mais recuperarei... e isso entristece-me profundamente. Porque como sentimentalona que sou, apego-me mais a isto do que aos bens materiais que foram levados, porque esses substituem-se, mas os pensamentos e sentimentos não se repetem nem se refazem!

5 comentários:

Manuela disse...

Ó querida Naná! Agora já não há nada a fazer... tens de te conformar.

Horizonte disse...

Como eu a compreendo...
Quando me furtaram a carteira , obviamente que tudo quanto lá tinha me fazia falta, mas...as fotos do meu irmão que infelizmente já não está connosco, doeu muito.
Mas força Naná , tudo se vai resolver,e já chega, pois pelos vistos já tem a sua dose.

Ni! disse...

:(
Força aí!

Tanita disse...

Querida,
Agora guardar novos apontamentos para o F. e escreves o que sentes neste momento sobre o teu pai... tens de recuperar e seguir em frente.
Eu sei que não deve ser fácil, mas o mal foi feito e o tempo não volta atrás.
Uma coisa positiva: as tudas costas vão agradecer.
Bj**

Naná disse...

Obrigada a todas pela força!