6 de março de 2013

Vida examinada

O relógio marca 8h55.
Por cima da sala de exame, há um olho de boi pequeno de cor vermelha.
Na sala ao lado, há um cartaz informativo cheio de sinalética amarela e avermelhada e gravo na mente a palavra "Magneton" e um qualquer aviso de proibição.

As cadeiras plásticas são desconfortáveis e rangem ao mínimo mudar de posição.

A auxiliar empurra uma maca e diz ao Sr. António "já o venho buscar". Como se ele, deitado naquela maca, ligado a dois fios que lhe metem na veia líquidos translúcidos, pudesse sair dali.
O olhar do Sr. António é vago e o seu rosto acusa o peso dos muitos anos de idade e espelha o cansaço e a enfermidade nas olheiras fundas que se cavam por baixo dos olhos sem brilho.
Penso comigo, sobre que estará ele a pensar... será que está a medir a dimensão da sua mortalidade?! Será que está a maldizer o seu destino ou a imaginar o que irá fazer quando abandonar aquela maca.

A sala de exame abre-se e o Sr. António é empurrado na maca que o segura. Passados uns instantes, o olho de boi avermelhado ilumina-se uma vez, e depois outra.

A auxiliar acompanha o Sr. Agostinho, que caminha pelo seu pé e cujo único vestígio de ter passado pela urgência hospitalar é a entrada do catéter, cravado nas costas da mão.
O Sr. Agostinho senta-se mas parece inquieto. Pensei que estivesse nervoso, mas afinal ele pergunta-me se sei onde é a casa-de banho.

Outros dois homens são empurrados deitados em macas, um dorme indiferente às pessoas que cruzam o corredor, enquanto o outro, de nacionalidade estrangeira tenta encaixar o seu metro e noventa na maca, que não deve ir além dessa medida.

Na sala de exame n.º 2 ouço a técnica de radiologia dizer: "não respire, Sr. Artur!" e minha memória musical leva-me aos tempos de faculdade, sorrio para mim mesma e penso se o Sérgio Godinho se inspirou nesta ordem para escrever aquele música linda que diz "não respire... pode respirar!"

 O Sr. Agostinho regressa do WC mais descontraído, e eis que a funcionário da sala Magneton lhe ordena "vá-se sentar" como quem ralha com uma criança que se portou mal e saiu do castigo, nem sequer disposta a ouvir o argumento que o Sr. Agostinho tenta proferir.

O Sr. Agostinho senta-se duas cadeiras distantes de mim, mas agora está mais sereno e sorri para mim. Reparo que tem um sorriso bonito e uns olhos azulados cor de água. E penso comigo que em novo ele devia ser um homem bem parecido...
Sorrio de volta. Como gostaria de pensar que alguém sorriu ao meu pai naquela noite de 3 de Outubro de 2009 em que esteve naquele mesmo piso, para fazer o mesmo exacto exame.

O senhor estrangeiro ao entrar na sala de exame apenas consegue dizer "I'm not feeling so well" e a técnica de exame exaspera-se excessivamente. A luz vermelha do olho de boi volta a piscar. Uma vez. Depois outra.

E eis que chega a vez do Sr. Agostinho. A técnica de exame antes exasperada, trata-o agora com toda a dignidade e uma genuína simpatia. A luz por cima da porta acende-se uma vez, duas vezes...

O Sr. Agostinho sai da sala e olha em seu redor, para a esquerda e para a direita. Fica indeciso. Senta-se a uma cadeira de distância de mim e volta a sorrir-me, com um semblante ainda mais aberto. E eu sorrio de volta e digo à laia de pergunta/afirmação: "agora tem que esperar pela acompanhante!?".

Não sei há quantas horas ele ali está, nem há quanto tempo ninguém entabula conversa com ele, sem ser por questões médicas. Não lhe quis perguntar porque estava ali, mas continuei a conversar com ele, conversa de circunstância. Enquanto converso com ele, reparo que quando o Sr. Agostinho sorri, todo o rosto dele sorri, vincando ainda mais as rugas. Olho por momentos para o casaco de flanela grossa axadrezada e lembro-me que o meu pai tinha um parecido e por milissegundos, volto a perguntar-me como terá sido naquela manhã do dia 3 de Outubro de 2009... 

Na sala de exame, ouço chamar pelo meu nome. E eu levanto-me instintivamente. 
O Sr. Agostinho fica sentado, porque está à espera da auxiliar o levar de volta à sala de diagnóstico da urgência hospitalar. Porque não sabe o caminho no emaranhado labirinto de corredores e elevadores.

E eu faço apenas um ligeiro aceno de bom dia e as melhoras...

Quando saio da sala de exame, olho para o relógio.
Marca 9h50.

4 comentários:

Paula disse...

Acho que conheço essas cadeiras, esses corredores...

Que os resultados sejam positivos. Para o Sr. António, para o Sr. Agostinho, para o sr. estrangeiro e para ti...

Bjs xx

Arco Iris disse...

Uma boa descrição de uma manhã no hospital...em que deu para recordar coisas mais tristes.
Bjs

Tanita disse...

às vezes bastam umas simples palavras...

Naná disse...

Paula, obrigada! Eu também espero que tudo esteja bem com o Sr. Agostinho e todos os com quem me cruzei. No meu caso, não é razão para stress...

Arco-Íris, sim, deu para recordar momentos menos bons, mas a vida é mesmo assim! :)

Tanita, é mesmo! Acho que as palavras aconchegam nestes momentos. Sabes que me custou imenso ver principalmente as pessoas mais velhas ali... sinto que algumas se sentem um tanto desamparadas...