7 de dezembro de 2012

Regressar à terra

Desde que esta crise toda começou, parece ter havido um certo revivalismo da agricultura e de artes dos "mais antigos" que tinham caído em desuso, em favor das profissões liberais, mais exigentes do ponto de vista mental.

Eu que cresci no seio duma família humilde, cuja vida foi dedicada à agricultura, à terra, ao pastoreio de bovinos e ovinos, sempre achei que possivelmente aquela vida não seria para mim. Apesar de adorar fazer equilíbrio entre os regos das batatas brancas, sentir o cheiro da rama da melancia, adorar ver as azeitonas a caírem como chuva, ao serem varejadas na altura da apanha, ou poder comer as uvas acabadas de vindimar e as maçãs rosadas com polpa vidrada, sempre achei que nunca me dedicaria à terra.

Apesar de sempre me recordar de em tenra idade (6 anos creio eu!) ter tomado a decisão inequívoca de nunca alienar as terras que o meu avô Manuel conquistou a pulso, pelo seu esforço físico e pela sua argúcia em negociar uma terra menos produtiva por outra maior e mais fértil, ainda hoje fico perdida a olhar para as terras que o meu avô e depois a minha mãe me deixaram.

Um certo desejo de um dia cultivar as terras dos meus antepassados ressurgiu após a morte da minha mãe e quando um dia percebi que o sonho de velhice do meu pai era voltar a tratar as terras, fazer recuar o silvado, limpar o matagal que foi conquistando espaço.

Também ele faleceu e o silvado tem vindo a tomar conta dos terrenos outrora organizados geometricamente, a romanzeira deixou de se conseguir ver do alto e a macieira nem sei se existe ainda... o caminho para chegar à ribeira é agora um matagal quase inexpugnável, e os sobreiros aguardam ordens de descortiçar. A vinha há muito que morreu por falta de poda e as ameixeiras perderam-se... talvez ainda resistam os marmeleiros que orlavam o espaço da vinha...

Quando a crise começou, não me senti muito ameaçada ou receosa por uma razão pura e simples: se tudo o resto falhar, tenho sempre terrenos que poderei cultivar! E ainda hoje acredito nisso! Se um dia me vir atirada para o desemprego será esse o caminho que seguirei!

Mas por enquanto, ainda olho para a imensão de terra de que sou proprietária e sinto-me perdida sem saber o que fazer. Sinto-me avassalada pela nostalgia dos tempos de outrora e um pouco triste comigo mesma por não honrar a herança que me coube em sorte. Às vezes dou por mim a pensar: "o que fariam o teu avô ou o teu pai?"

Ainda hoje não encontro resposta a essa questão...
Talvez quem sabe, arrende os terrenos a quem a queira cultivar e não tenha terreno para o fazer...

9 comentários:

gralha disse...

Nos dias de maior stress e cansaço penso que gostava muito de ter essa opção. Adoro dar uso ao corpinho que Deus me deu para trabalhar. Mas depois penso que, se calhar, é só um sonho burguês e, ao fim de um ano, estaria e desesperar por desafios intelectuais. Não sei...

Naná disse...

gralha, pois esse é um dos receios. o outro é da minha incapacidade e falta de domínio de técnicas nesta área. Há coisas que me ficaram dos ensinamentos do meu avô e do meu pai mas isso só não chega!

Arco Iris disse...

Gostei muito do seu texto Naná, teve uma infancia feliz tendo como companhia a Natureza e o que ela dá.
Olhe que é sempre bom ter um sitio onde possa colher o que a terra dá, de certeza que se iria ajeitar.
Se quizer levar um selo do aniversário do meu blogue, ficaria grata
Bjs

Tanita disse...

Nós já vivemos um pouco de uma especie de agricultura mas o sonho do João era tornar-se mesmo agricultor e eu? até que nao me importava, podes ter a certeza. Aliás já falamos sobre isso.
Tu que tens as terras é sempre uma mais valia.
Quem sabe o F. não fará disso a sua profissão/vida?
bj**

ouvirdizer disse...

Revejo-me tanto, tanto neste texto.
Os meus avós ainda são vivos mas o meu avô ofereceu-nos uma vinha onde construímos a casa. Temos um terreno enorme e a casa no cimo. Temos outros terrenos próximos e o R. herdou mais 3 de um tio. Não lhes fazemos nada. Já fomos a uma reunião com uma empresa que faz projectos agrícolas... fomos, andei nas nuvens por uns tempos, sonhámos, eu sonhei demais... depois vêm os medos: do dinheiro a investir, do tempo que temos, o escoamento/mercado. Porque a ser tem que ser em grande e nós temos ambos empregos a tempo inteiro e 3 filhos pequenos. Não sei se a complicação é só na minha cabeça... ou se sou mesmo assim: sonho em grande e não faço nada...
Adorava fazer um projecto com os meus avós em vida, especialmente porque há toda uma vida de memórias com eles, como as tens também...
Odeio viver no campo e ter uma vida estilo urbano... se tivesse força dedicava-me de corpo e alma a um projecto agrícola... mas tenho que as ganhar. Também já pensei que se calhar só me faço à vida se perder o trabalho, mas seria muito mais seguro começar um enquanto tenho o outro seguro... aiiiiii, é uma parvoíce, a minha cabeça...
Beijinhos e bom fim-de-semana!

kuka disse...

Pensa que pode arrendar os terrenos a quem os queira cultivar?
Lamento desiludi-la, mas pode tirar o cavalinho da chuva. Se quiser oferecer os terrenos para exploração, sem receber nada em troca, pode ser que apareça por aí alguém interessado. Talvez algum pastor, que pela páscoa lhe ofereça um borrego. Ou os "arrendatários" da horta, lhe permitam a apanha de alguns legumes e fruta. É isso que tenho visto por aqui na vizinhança.
Se as pessoas querem ver os terrenos tratados tem de ser assim.

Soneca disse...

Desengane-se quem pensa que trabalhar na agricultura não implica desafios intelectuais.
Qualquer um pode chegar ali e atirar um monte de sementes ou plantar três ou quatro mil laranjeiras mas e o resto? E aquela sabedoria que as universidades não ensinam? A sabedoria dos nossos bisavós e avós? Onde vamos aprendê-la?
E nem todos temos estofo para a agricultura. Não há fins de semana e não se pode tirar férias quando nos apetece. É das actividades mais exigentes que conheço, onde só se aguenta quem se dedica de corpo e alma. Não é emprego, é trabalho. Experimentem ir a um centro de emprego pedir quatro ou cinco pessoas para a apanha da azeitona. Experimentem. Não desanimem com as respostas. Mas que há um regresso à agricultura, isso é certo! Mas como está o mercado não pensem que vão ganhar rios de dinheiro.
Dou-lhe os parabéns por saber o real valor do que lhe foi deixado. Saiba que é possível manter as terras operacionais e bem cuidadas mesmo que se tenha um emprego. Basta ter um tractor e alguém que se "amanhe" com ele. Quando ver as terras limpas de mato, o resto vem por acréscimo. A vontade de fazer mais.
:)

Naná disse...

Arco Iris, é mesmo um privilégio enorme ter esta herança! Às vezes sinto que não lhe faço as devidas honras.

Tanita, pelo menos quero incutir ao Filipe um pouco das suas raízes! E vocês quem sabe?!

Vera, talvez tenhas que começar por um sonho mais pequeno. Temos sempre esta mania de querermos abarcar logo o mundo e depois somos esmagados pela realidade. O que te posso dizer é para aproveitares a sabedoria dos teus avós, pelos menos para já, porque um dia que arregaces as mangas, vais sentir necessidade disso, como eu sinto! No meu caso, a dificuldade maior é que os terrenos que tenho ficam a 50 kms da minha residência, o que tornaria altamente dispendiosa uma presença assídua para tratar da terra e das culturas!

Kuka, pois por ter noção das dificuldades é que tenho todas estas reticências sobre que caminho tomar... sei que no PNSACV é tudo muito complicado, mesmo para quem tem vontade de fazer alguma coisa... bem vi como foi quando há uns anos atrás os meus pais quiseram enveredar por um projecto de florestação de pinhal... quando ao arrendamento, a esperança reside apenas nas novas regras do ministério da agricultura, e com a Bolsa de Terra que foi criada e saiu hoje em diário da república... mas também lhe digo, creio que ficava satisfeita só por ver os terrenos tratados, mesmo que isso significasse apenas um borrego ou uns repolhos de retribuição!

Soneca, muito obrigada pelo comentário e pela partilha da realidade! Todos os pontos que focou estão na base de todas as minhas dúvidas.
Realmente é presunçoso da minha parte achar que o trabalho agrícola não se sustenta também em esforço mental... há todo um planeamento que tem que ser cuidado para obter melhores resultados e há mesmo muita técnica e ciência por detrás da agricultura! E realmente aprendi algumas coisas com o meu avô e com os meus pais, mas muito mais ficou por aprender e os meus familiares mais velhos têm ido desaparecendo...
Por saber que é duro, que é uma actividade que não tem horários fixos e implica uma dedicação enorme é que me sinto reticente quando a começar seja o que for! E quanto à questão rendimento é mesmo isso, tenho noção de que não se faz fortuna num estalar de dedos, implica muito investimento e não é só financeiro... e depende-se muito das condições climatéricas, que é sempre uma caixa de surpresas... quando disse que regressaria à terra, seria mais para ter uma ocupação e tirar alguns produtos alimentares, para não ficar dependente da compra.
E sim, hei-de limpar as terras, porque não posso de forma nenhuma votá-las ao abandono!!

Uba disse...

És uma sortuda. Quem tem um pedaço de terra é uma pessoa afortunada. Um dia saberás o que fazer. Apenas te digo, não a vendas, ou pelo menos deixa um pouco dessa "fortuna" aos teus descendentes. :)
Beijos