21 de setembro de 2011

Saudades


Este era o fadista preferido do meu pai.
Cresci a ouvir o meu pai a trautear aqueles acordes cadenciados e repetidos da guitarra portuguesa ou a reproduzir os versos deste poema bem lindo, sobre o saudosismo dos tempos de juventude.
Uma vez quis surpreender o meu pai, pelo seu aniversário e arranjei maneira de encontrar uma cassete, numa altura em que isso já estava em desuso absoluto, substituído pelo CD, para que ele pudesse ouvir uma compilação dos melhores fados do Mestre Alfredo Marceneiro, no leitor de cassetes do carro.
Pensei que ele ficasse extasiado de alegria e emocionado pelo meu gesto... mas não! Ou melhor, deve ter ficado, mas não o demonstrou e o que ouvi, em vez de um obrigado, foi um "foste tu gastar dinheiro nisto, para quê?!" (infelizmente a veia da sagorrice do Abel falava sempre mais alto...)
Mas ele ouviu a cassete infinitas vezes e eu sei disso!
Porque no primeiro dia em que pus o carro dele a trabalhar, estava ele ainda internado em coma, no S. José, ouvi a cassete a rodar e de lá saiu o som deste fado, o preferido dele!
Há dias andava á procura de uma música no Youtube quando vejo na lateral o link para este fado na lista de "sugestões"...
Não pude deixar de clicar, mesmo não sendo grande apreciadora de fado! E fiquei a ouvir este fado, esta voz roufenha e relembrei os versos que o meu pai cantava, em tom baixinho, para não se perceber os desafinanços.
Por isso, e porque hoje a tua saudade bateu-me mais à porta e com mais força, recordo-te assim!

4 comentários:

Turista disse...

Querida Naná, por vezes essas saudades, trazem-nos memórias que não são obrigatoriamente desagradáveis...

Paulo Nunes disse...

Sempre tivemos musicas que nos fazem reviver certos momentos.
Mas o fado... nunca foi o meu tipo de musica! :)

Ceres disse...

O Marceneiro é também um dos fadistas favoritos do meu pai. Eu cresci numa família de fadistas e varinas, tipicamente lisboeta ;p
Cresci a ouvir fado e com os anos aprendi a apreciar e a gostar! Não aprecio o fado da desgraçadinha que andava no camanço para dar de comer aos filhinhos mas adoro ouvir uma Amália, um Carlos do Carmo, uma Mafalda Arnauth, etc.
A música também me traz muitas memórias e a saudade por vezes faz-me sorrir :)
Beijinhos

Naná disse...

Turista, claro que não são más... até tenho saudades da "sacrazinação" dele e de estar sempre a maldizer da comida!

Paulo, o fado não é decididamente o meu género musical, mas há um ou outro que me causam arrepios na espinha!

Ceres, há um ou outro fado da Amália que adoro, mas sou mais adepta do chamado "fado corrido" ou "fado alegre"... adoro o "Dar de beber à dor", que apesar de ser sobre isso mesmo tem uma melodia bastante brejeira!