A vista da casa rústica feita com paredes de taipa e telhado de barrotes de madeira, ripa e cana, e telha portuguesa que o meu avô Manuel mandou erguer nos idos anos 50 é esta.
Logo ali em primeiro plano, está a pereira que todos os anos dá pêras miudinhas, que bicham todas antes sequer de ficarem maduras.
Lá em baixo a enorme oliveira onde havia o tanque de cimento, onde eu a e minha mãe tantas vezes lavámos a roupa. À esquerda a figueira que cresceu bem no meio do talhão onde o meu avô gostava de semear favas e ervilhas.
Ao fundo, o canavial a denunciar a ribeira que vai correndo logo ali ao lado, a delimitar o terreno que é meu do que é dos meus primos.
Após a morte do meu pai, fiquei tolhida de incertezas e de receios. Olhava angustiada para esta terra e perguntava-me
"o que vou fazer desta terra???" e de algum modo esperava que os céus se abrissem e o meu avô, ou a minha mãe ou o meu pai aparecessem e me dessem a resposta que procurava. Repetia a mim mesma incessantemente:
"eles saberiam o que fazer disto!" Mas eu sentia-me perdida... a olhar para a terra e a tentar recuperar saberes gravados na memória havia mais de 20 anos.
Sei de memória onde ficava o pego de água, as pias de água para os animais, mais cobiçadas do que nunca pelo resto da família, onde a fonte de água nascia espontaneamente, logo abaixo do talhão onde outrora pululavam viçosas as melancieiras e as aboboreiras.
Não posso dizer que agora sei de certeza o que fazer... não posso afirmar que me vou "
dedicar à agricultura"...
Mas uma certeza guardo comigo!
Um dia voltarei aqui!!
Um dia esta será a minha vista todos os dias, esta será a minha morada permanente.
No meio do paraíso, apenas interrompido pelo
brummmm dos carros que passam na estrada municipal.
Um dia, vou restaurar a casa, colocar um novo telhado, em vigas de madeira e telha portuguesa. Um dia vou reforçar as paredes de taipa e reorganizar a cozinha e colocar uma lareira de dupla face.
As janelas serão à mesma de madeira e a porta continuará a ter postigo envidraçado, mantendo toda a traça arquitectónica da casa.
O fogão de lenha e o forno de cozer pão serão preservados religiosamente e serão integrados na cozinha nova.
O espaço onde fica hoje a cozinha será o meu espaço de costuras e afins. E na lateral da casa haverá um telheiro em madeira, e um
barbecue.
Nas paredes haverá a decorar os candeeiros a petróleo, o relógio de ponteiros, a lanterna de palheiro recuperada e os ferros de engomar antigos, e a balança de pratos e os pesos. A
velhinha Singer regressará novamente a esta casa, após 26 anos de ter saído dali.
Num dos quartos, a enfeitar a parede haverá uma manta de retalhos que a minha avó Alzira mandou tecer num tear, na vila, há mais de 5 décadas.
A figueira braçajote vai ser mantida livre de silvas e a grinalda de noiva prosperá, assim como a roseira branca. E o zambujeiro em frente à porta será finalmente enxertado em oliveira! Em homenagem ao apelido do meu avô!
Apanharei as pinhas do pinheiro manso que cresce imponente nas traseiras da casa para atear lume na lareira e aquecer as noites mais frias.
E aos fins de semana, os meus filhos hão-de vir ver os pais, como os meus pais e eu íamos visitar o meu avô.