5 de agosto de 2014

Lições que (re)aprendi com a segunda maternidade

1. O corpo aguenta níveis de cansaço extremo que nunca pensámos ser capazes de suportar...

2. O silêncio é mesmo de ouro! Minto...é de diamante!

3. Existe uma razão mesmo muito boa para as mulheres serem polivalentes, multifacetadas e possuírem capacidade periférica. 

4. O multitasking é uma arma mesmo poderosa, especialmente quando levada a níveis elevados de eficiência e eficácia (ou como conseguir fazer o jantar, adiantar o almoço do dia seguinte, enquanto encho a máquina da loiça e programo a da roupa enquanto respondo às 500 perguntas que o Falipe dispara na minha direcção)

5. Apesar do cansaço extremo, em que até as pestanas parecem querer sucumbir, temos sempre que ter forças para fazer um bolo colorido com o filho mais velho... enquanto rezamos para que o mais novo não abra as goelas...

7. Ser capaz de ignorar o facto de que os serviços mínimos dos mínimos dos mínimos de tarefas domésticas não serem suficientes para termos a casa num estado de quase pocilga

8. Ficamos espantadas perante a capacidade de inventar refeições que sejam preparadas em menos de 30 minutos.

9. No final desta licença de maternidade, vou precisar dumas férias! Bem looooongas!

31 de julho de 2014

Falipices #76

Uma certa tarde, de regresso a casa, vindos da "casa de Aljezur", Falipe informa-nos que já decidiu qual o desporto que quer praticar.

- mãe é aquele que tem um pau muito comprido e que batemos numa bola e ela vai muito longe.

- estás a falar de hóquei em patins? (no dia anterior tínhamos visto o jogo da selecção)

- não, não é esse!

Bem, depois de mais umas tentativas de perceber que jogo seria esse... fez-se luz!

- estás a falar de golf?

- sim! É esse!!!

- oh filho, mas esse desporto é muito caro...

- não é não! Prós meninos não é... só prós senhores grandes.

Bem, uma coisa é certa, campos disponíveis nas redondezas não lhe faltam!

29 de julho de 2014

Falipices #75 - amor fraterno

Até eu ter engravidado, Falipe nunca fez menção de querer irmãos. Aliás, quando questionado sobre isso, a resposta era invariavelmente que não, não queria irmãos.

Por estes dias, anda tão feliz com o mano que volta e meia sai-se com esta conversa:

- Oh mãe, e depois do mano, vai nascer uma mana e depois outro mano.

- Ai sim?!

- Sim, mãe! Vai nascer uma mana e depois um mano que se vai chamar Luís.

- Ah, então já tens um nome para o mano e tudo...

- Sim!

Há poucos dias, comunicou-me que tinha decidido que a irmã se iria chamar Joana. (mesmo que eu viesse a remotamente engravidar de novo e fosse menina, garanto-te Falipe que se iria chamar Margarida e nunca Joana!!).

Mal ele sabe que para mim, dois é a conta que Deus fez (e não três! ou quatro... como ele deseja)

27 de julho de 2014

Nos intervalos

Bebé Ricardo absorve o meu tempo.

Come a intervalos de 1h30, mais coisa menos coisa. Por vezes não chega a aguentar mais que 1h15 e em certos dias, quer comer e chora com aquele som característico que já tão bem conheço de hora a hora. Um biberão de suplemento (que já dou apenas e só para dar descanso ao meu peito cheio de nódoas negras...) mata-lhe a fome durante não mais de 40 minutos.

Nos intervalos das refeições, bolsa sem cessar e por isso chora...

Chora quando bolsa, chora quando quer dormir, chora quando quer comer, quando tem a fralda suja. Só não chora por causa de cólicas, que não as tem.
Ele chora porque quer colo e já se habituou ao calor do nosso corpo e do ritmo cadente do embalo. A minha coluna grita e a minha tendinite no ombro ganha contornos de dor que eu já me tinha esquecido.

Ele chora. Por razões que desconheço, por mais que me esforce por tentar perceber.

A minha resistência ao som de chorar atinge mínimos históricos... e eu acabo algumas vezes a chorar também.

Nos intervalos de 1h30 por vezes consigo fazer o almoço e dar um jeito à cozinha, mas já não consigo almoçar ou jantar... e faço-o muitas vezes com o som dele a chorar como banda sonora.
Já não sei o que é jantar com o G. ou com o Falipe...

Nos intervalos, por vezes saio de casa quase e só para ir ao supermercado comprar o que me falta, porque sei que a margem de tempo para dar de mamar é mínima. E eu, outrora uma mulher destemida sem problemas em amamentar em público, se preciso fosse (com o devido resguardo da decência), não me sinto em condições de coragem para o fazer. Pelo menos não com a frequência que se impõe necessária.

Nos intervalos ainda ia tentando dar conta da pilha de roupa que se acumula sem que eu consiga sequer ter noção de quando poderei esforçar-me por reduzi-la. O que me leva a episódios de caça àquela peça de roupa específica e que eu já nem sei em que ponto da pilha está...

O andamento do carro embala-o, mas é muito como um anúncio a um certo automóvel, em que sempre que o carro pára, o bebé chora.

O Falipe fala comigo e eu esforço-me por conseguir concentrar-me no que ele e diz. Mas o meu cérebro cansado nem sempre consegue reter metade do que ele me disse. E eu sei que mais tarde vou querer recordar-me destes momentos importantes da vida do meu filho mais velho, a quem me sinto a falhar à grande...

Sinto a minha memória a falhar, e isso assusta-me porque a memória sempre foi uma das minhas melhores qualidades.

Ouço opiniões de pessoas conhecidas, amigos e familiares e todos me tentam apaziguar e sossegar, e animar de que tudo isto vai passar.
Eu sei que sim, acredito nisso, mas não passou ainda e isso custa-me e eu anseio pelo momento em que passe ou pelo menos se suavize.

No entanto, apesar de tudo isto, derreto-me quando sinto o cheiro dele, sinto a sua pele macia, vejo os olhos dele redondos como azeitonas a procurar-me, sinto os seus dedos agora rechonchudos junto aos meus, e agarro os seus pés pequeninos e macios como veludo. E apaixono-me mais e mais por este filho que eu tanto desejei, e que agora preenche o meu colo e os meus dias e noites.

18 de julho de 2014

Sorri sempre, sorri!

A dois dias de completares dois meses, hoje sorriste intencionalmente quando te fiz uma garatuja!

Um sorriso rasgado, lindo, nos teus lábios perfeitos.

Eu e o teu pai ficámos literalmente derretidos...

Agora que sabes sorrir, meu filhote, sorri muito.

Sorri sempre!

15 de julho de 2014

Fome de leão

De todos os aspectos da maternidade renovada, aquele que menos preocupação me trazia era a amamentação. Estava em paz comigo mesma, porque achava que iria correr cinco estrelas, mil maravilhas, como sucedera da primeira volta. Confiante plena das minhas capacidades de amamentar, assumi que tudo seria um mar de rosas no que a esta matéria diz respeito.
Estava longe de imaginar que me sairia na rifa um filho do mais comilão que se pode encontrar.

A princípio temi que a minha confiança inabalável na minha capacidade de amamentar e na qualidade do meu leite tivesse sido excessiva e sobre-avaliada. Achei depois que ele estaria a passar fomeca da negra, depois convenci-me que leite materno ou suplemento alimentam-no da mesma forma e na mesma proporção.

Por estes dias, só o argumento de "pico de crescimento" me serve de consolo... e nem é assim tanto quanto isso!

É que o Ricardo é um esfomeado que começou por querer mamar de 2h em 2h, por estes dias a norma costuma ser 1h30 de intervalo entre refeições, quando não se fica pelas 1h15. Na semana passada cheguei mesmo a amamentar de hora a hora... o que se reflectiu num ganho de peso de 435 gr numa semana. 

Ele tem fome, está sempre com fome. 
E quando tem fome... ele grita com uma goela de meter medo!
Nada me preparou para um filho com necessidades alimentares desta monta...


8 de julho de 2014

Falipices #74

À hora de jantar, ao vê-lo com ar cansado e pensativo, o pai pergunta-lhe:

- Estavas a pensar no quê?

- Eu estava a pensar que quando for grande... sabes... vou comprar uma prancha de surf.

- Ai sim?

- Tu não querias uma prancha de surf, papá?

- Mas eu não sei surfar...

- Sabes, é fácil! Vais assim em cima da prancha e depois pões-te em pé na onda e depois shhhhhhhh... vais assim na água da onda.

Ah bom... é assim fácil, não é filho?!

1 de julho de 2014

A privação de sono, essa cabra maléfica

Rebenta connosco, dá-nos a volta, retorce-nos e revira-nos 80 vezes e faz vir à tona algo do pior que cada um de nós tem dentro de nós. E o meu pior consegue ser mesmo mauzinho, execrável arrisco dizer.

A privação de sono tolda-nos o raciocínio, e leva-nos ao desvario!
Nalguns casos, ao desespero absoluto e à descompensação.

Por vezes compensa descompensar, porque nos permite recuperar um pouco o norte, trazer de volta alguma lucidez que nos possibilita seguir em frente com um pouco mais de capacidades mentais e com mais coragem de sabermos que somos capazes de vencer a tortura que é querer descansar e não ter essa hipótese.

E não faz mal descompensar, ou reconhecer que a privação de sono nos torna pessoas menos agradáveis numa altura em que deveríamos ser só amor e carinho e gugu-dadás. Porque afinal de contas, somos humanos, e temos que admitir que temos bastantes limitações, sendo o cansaço um dos maiores que se nos coloca.
Privadas de sono, não há gugu-dadás que nos valham... torna-se difícil compreender porque razão aquele ser pequenino chora sem parar, quando já esgotámos todas as hipóteses plausíveis no "manual inexistente de criar recém-nascidos"...

Privadas de sono, somos altamente vulneráveis a alimentar outra cabra maléfica muito comum na maternidade: a culpa!
Culpamo-nos porque não fomos capazes de resistir ao cansaço e à exaustão, e depois estamos exaustas  demais para conseguir impedir que a culpa cresça a passos de gigante. E isto é uma bola de neve, que em breve se torna numa avalanche que nos colhe à passagem.

Por estes dias, reconheço que a minha dose de paciência aumentou exponencialmente, sou muito mais calma e ponderada nas minhas acções e sou capaz de fazer a minha faceta impaciente sossegar por mais tempo. E manter os níveis de auto-culpabilização em mínimos aceitáveis.

Mas a idade não perdoa, e a resistência com um corpo exausto por falta de horas de sono, ou por sonos sucessivamente interrompidos (por estes dias, a cada 2h) torna-se menor. E por mais paciência que possa ter, a resistência física para me aguentar lúcida é mais reduzida.

Mas como em tudo na vida, this too shall pass

E há que aproveitar cada minuto e cada segundo sossegado, carregado de gugu-dadás e de mimo e derretimento por um ser pequenino e perfeito que faz as caretas mais giras e delicadas e deliciosas, que tem a pele mais macia do mundo, as mãos mais pequeninas e fortes, as feições mais lindas e perfeitas do mundo e que me fixa indefenidamente com ar de espanto e reconhece a minha voz de imediato e que fazem com que o coração desta mãe transborde de amor incondicional em milissegundos!