14 de abril de 2014

"Gosto de ti"

Os meus pais e avô materno ensinaram-me o que é gostar de alguém, a saber acarinhar alguém. Ensinaram-me pelo forte exemplo que me deram, pela forma como se relacionavam entre si e comigo.

Em casa, sempre percebi que quando gostamos de alguém, não há que reprimir demonstrações de afecto, mesmo que não haja palavras proferidas em sussurro ou em voz alta. Um beijo afectuoso ou um abraço espontâneo eram suficientes para sentirmos o quanto gostavamos uns dos outros.

Mediante este exemplo e tendo perdido os meus entes mais queridos cedo na vida, assimilei quase de forma natural esta forma de estar na vida e de me relacionar afectivamente (não sem alguns desgostos maiores, diga-se...), com outros familiares e amigos. 

O mesmo se aplica, numa escala muito maior, ao meu filho e certamente ao que aí vem em breve. Digo-lhe que gosto dele, sempre que posso e me apetece. 

O fruto disso é volta e meia, de forma absolutamente espontânea e natural ouvi-lo logo pela manhã chamar-me ao quarto dele apenas e só para me dizer:

"Mãe, gosto muito de ti"

Ou então, estar a stressar enquanto tomo o pequeno-almoço a entre-olhar o relógio, antevendo que vou chegar ao trabalho atrasada, e de súbito ouvi-lo dizer:

"Estás muito bonita hoje, mamã."

Toda a rabugice se esfuma no ar, o stress apazigua-se momentaneamente, porque além de saber bem ouvir estas palavras, percebo claramente que devo estar a fazer alguma coisa certa nesta tarefa hercúlea e nada científica que é a maternidade, que é dar o exemplo ao meu filho do que é gostar de alguém e saber exprimi-lo de forma espontânea.

Só me assalta sempre uma certa dúvida, se não estarei a prepará-lo mal para o futuro, não lhe dando defesas suficientes em relação a outras pessoas que não sejam tão genuínas de sentimentos e afectos.

12 de abril de 2014

"o Estado a que chegamos..."

A propósito das declarações desta... é melhor não reduzir a escrito o que penso desta figura, acho que se impõe a visualização atenta da entrevista feita a Salgueiro Maia, um dos Capitães de Abril, uns tempos antes de falecer, a propósito dos acontecimentos do 25 de Abril.


Porque se acaso os Capitães de Abril não tivessem decidido fazer algo para mudar o "Estado a que chegámos" a dita senhora hoje provavelmente estaria em casa a lavar pratinhos, a fazer a faxina doméstica e com 8 ou 10 filhos para criar e não ocuparia o cargo que ocupa, nem receberia a sua fantástica reformazinha, após 12 anos de serviço (que imagino devem ter sido penosos a valer, para lhe dar direito a reforma assim...)

Imagino quantas voltas na tumba devem estar a dar tanto o Salgueiro Maia, como tantos outros capitães e militares que ajudaram a fazer o 25 de Abril e a trazer a democracia a este país...

Deixo aqui os vídeos de uma entrevista que vale bem a pena ver, para percebermos muita coisa sobre os acontecimentos do 25 de Abril.

Registo um comentário muito engraçado de Salgueiro Maia sobre as prioridades dos nossos políticos: "estão mais interessados em serem bem reformados, e não em serem bem formados."




11 de abril de 2014

Semanário de gravidez #11

Estou praticamente a chegar às 30 semanas. Isso significa que já conto com 3/4 de gravidez passada... mas já?! No entanto ainda faltam 10 semanas... dois meses e pouco, mais coisa menos coisa. E visto assim, até parece uma eternidade...

A segunda sessão da educação para a parentalidade revelou-se bastante mais útil que a primeira, uma vez que se debruçou sobre amamentação, em relação à qual não tenho qualquer complexo, receio ou dúvida. Isto porque estou a contar que corra igualmente bem como sucedeu com o Falipe. Versou também sobre os cuidados a ter com a higiene do bebé nas primeiras semanas, e aqui sim, posso dizer que foi bastante bom fazer uma reciclagem aos meus conhecimentos... já nem me lembrava de questões como tratar do umbigo e é curioso como em apenas 5 anos mudaram teorias e técnicas sobre quase tudo. Uma que achei piada em particular prende-se com a forma de deitar o bebé. Quando o Falipe nasceu, tinha que ser virado de lado. Agora tem que ser de barriga para cima, com a cabeça virada para um lado ou para o outro... o que me faz uma certa confusão, porque fico com a sensação de que ainda podemos provocar um torcicolo ao miúdo. Enfim, logo se vê!

Quase toda a gente (leia-se mulheres) me pede autorização para mexer na barriga. Acho que qualquer dia vou começar a cobrar bilhetes, aposto que ainda faço bom dinheiro!

O bebé Ricardo mexe-se a bom ritmo, em alguns dias até demais. Reclama se não me sento reclinada na cadeira de escritório, o que torna complicado estar ao computador a trabalhar. Se começa assim de pequenino a ser rezingão e reivindicativo, estou bem arranjada.

Os pés já dão sinais de algum inchaço e a minha coluna começou a queixar-se se estiver muito tempo de pé e numa posição estática, porque afinal de contas tenho uma lombar problemática.

O saco da maternidade continua por fazer... apesar de ter praticamente tudo o que preciso para o poder fazer. A roupa de bebé está separada há semanas, à espera de dias de sol para ser lavada. A ver se deste fim de semana não passa! Rica mãe que eu me saí.

Noto que a minha vontade de estar no meu local de trabalho é completamente inexistente. Se na primeira gravidez embirrei que iria trabalhar até à véspera do parto e levei a minha avante, desta feita admito que preferia estar entregue a costurar ou a tricotar coisas para este meu segundo filho, a preparar a sua chegada com calma e descontracção. Mas não se pode ter tudo o que se quer...

10 de abril de 2014

Um líder mundial exemplar!

Ah pois é... somos todos muitos liberais e prá frentex, e servimos de exemplo para o resto do mundo e tal e coisa, estamos na vanguarda de tudo e tudo, olhem só para nós tão justos que somos... pois sim, pois sim...


E depois ainda há quem se pergunte porque é preciso continuar a assinalar o dia da Mulher...

É também por isto!

9 de abril de 2014

Vidas campestres

No campo há sempre o que fazer.
Os dias passam com a lentidão e a rapidez própria das estações do ano, que ditam as tarefas a cumprir. 
No campo há um ritmo muito peculiar, que dita tudo o que há para fazer, e cada um a seu tempo.
Pode pensar-se à partida que a vida no campo é pasmacenta, que é aborrecida e enfadonha. Pelo contrário!
A vida no campo tem um ritmo muito próprio, o tempo é marcado por momentos específicos, que devem ser respeitados, não se devendo adiar tarefas que se impõem.
A vida no campo tem um colorido diferente, tem um grau de exigência subentendido, que só quem nele vive consegue entender.
Não há um momento de paragem, a não ser para o descanso à noite, as refeições habituais e a sesta após o almoço, para retemperar as forças e poupar o corpo ao sol escaldante dos dias de verão.
 
Há sempre o tempo da ceifa, desta ou daquela sementeira. 
Há um tempo para atender às necessidades dos animais, as vacas, ovelhas e galinhas. 
Há sempre a limpeza de primavera, as paredes a caiar em tempo de verão, as telhas do telhado para reposicionar no seu lugar. Os porcos que se matam no final do outono, para guardar para o ano seguinte.

Há fruta que tem que ser colhida das árvores do pomar. Há um tempo para delas fazer compotas, bolos e conservas, para armazenar no resto do ano, para consumo da casa.
Há alfaces e outras leguminosas que precisam de ser regadas para que possam subsistir.
Há animais que têm que ser apascentados.
Há animais que têm que ser alimentados, e posta a palha nova para deixar a sua "cama" limpa. Há animais que têm que ser escovados, tosquiados e vacinados.
Há vacas, cabras e ovelhas para serem ordenhadas com dia e hora marcada.
Há galinhas e patos que querem comer o milho e o trigo e pedem ordem de soltura para esgravatar livremente. Há horas para recolher os ovos, e horas para pôr os ovos a fim de serem chocados.
Há coelhos e porcos que precisam de comer, e como tal há que colher ervas do campo para os alimentar.
A lareira e o fogo de lenha que precisam de combustível, por isso há que apanhar, rachar lenha e aprovisioná-la. Com particular cuidado quando chega a invernia e esta tem que ser protegida da chuva ou do orvalho, para que se mantenha seca e possa arder normalmente.

Há um tempo e um ritmo para apanhar ervas daninhas, outro para arrancar culturas que já estão fora de época e plantar novas em seu lugar. Há um tempo para planear em que talhão de terra se semeia o quê, o estrume que é preciso usar e o mais adequado a cada cultura e as sementes que se separaram da colheita anterior.
Há um tempo para a vindima, para fazer o mosto, embarrilar o vinho e esperar que ele fermente. 
Há um tempo para amassar o pão, tendê-lo, acender o forno e pô-lo a cozer. E um tempo para fazer com ele, ainda bem quente, uma tiborna.
Há um tempo para bordejar o paúl em cima das vagens de feijão e grão que se deixou a secar na eira, para joeirar o feijão e o grão, escolhendo os dias de vento de feição, para lhe retirar a palha excedente. Há um tempo para fazer as queimadas necessárias, que a terra pede, para se ir mantendo fértil.
Há um tempo para pear a burra e um tempo para a albardar e colocar o bornal e levar para a horta, para ser carregada com a gorpelha e trazer os proventos que o campo dá.
Há um tempo para semear e outro para plantar e outro ainda para transplantar sementeiras. Há um tempo para aproveitar o que o campo nos proporciona, o que os animais nos dão e partilhar com a comunidade familiar e de vizinhança.
Há um tempo para varejar as oliveiras e apanhar as azeitonas. Há um tempo para levar a colheita para o lagar e trazer de lá os garrafões cheios de azeite. Há um tempo para pôr as azeitonas em jarros cheios de água, um tempo para lhes mudar a água, para as britar ou apenas e só temperar.

Há um tempo que se mexe a um ritmo constante, mas que não encerra aquela urgência de quem vive na cidade.
Porque apesar deste ritmo ser cadente e sempre corrido, há também sempre um tempo para ver as ervas e árvores florirem, as flores desabrocharem, os frutos começarem a despontar nas árvores, as crias nascerem: caçapos, pintos, leitões, vitelos, borregos, cabritos, etc. Há sempre um tempo para fazer festas ao cão de guarda, nosso amigo e companheiro diário.
 
Há um tempo para sentar à sombra no poial à conversa com os vizinhos e familiares que vieram deixar a prova do bolo, umas favas ou ervilhas que têm excedentes ou um bocado da carne do porco que se matou.
Há um tempo para ver o tempo avançar, à cadência do clima e das estações que se sucedem. Porque quem vive no campo, dele e para ele, tem muito que fazer, mas raramente tem pressa.

7 de abril de 2014

Esquizofrenia climatérica

No espaço de pouco mais de seis dias passamos de um extremo ao outro, no que ao clima diz respeito. 
Na terça-feira andava ensopada com o temporal, fiquei que nem um pinto depois de andar debaixo de chuva torrencial e tive que atravessar duas inundações, onde a água me chegava aos joelhos.

No domingo, estava um calor de verão, que me permitiu envergar manga curta e ir até à praia e demolhar os meus pés deliciosamente na água fresquinha, e ficar ali com água a chegar pelos joelhos, a refrescar-me!

Que chatice viver no Algarve...


4 de abril de 2014

Semanário de gravidez #10

Esta semana foi atribulada mesmo.

A neura absoluta rondaram-me durante vários dias, tendo começado logo no fim-de-semana, que foi dum cinzentismo quase a roçar o negro. A chuva começou literalmente a afectar-me os nervos e a provocar surtos de irritação e rabugice nas minhas hormonas absolutamente instáveis.

Na terça-feira, depois da aventura debaixo de temporal, não sei de onde tirei energias e forças para conseguir avançar e levar a minha avante contra tempestades e críticas alheias (por estar disposta a enfrentar o temporal!).

Mas a aventura foi de tal forma avassaladora, que a irritação e gana de levar a a água ao meu moinho mandaram a neura ir dar uma grandessíssima curva ao bilhar grande. 
Também ajudou o facto de finalmente vir um dia de sol, ainda que tímido, após o temporal. 

Vieram também as dores musculares do esforço físico e percebi o quanto estou em baixo de forma, porque senti músculos doridos que já não me recordava que os tinha.

Entretanto, fui chamada para ir a uma sessão sobre "preparação para a parentalidade" no centro de saúde da minha zona, uma espécie de versão altamente comprimida da preparação para o parto. Versou sobre aqueles conselhos todos e mais alguns, muito giros e tal e coisa do que se deve fazer na gravidez e pós-parto, mas eu tinha passado bem sem a ilustração altamente gráfica do que é um parto... 
Além do mais, por mais que queiramos levar aqueles conselhos (alguns muito úteis sem sombra de dúvida) à risca, por vezes preferia que me dessem ajudas reais em vez de conselhos... é que sendo mãe de segunda viagem, sem qualquer sistema de apoio (sim, não existe, não tenhamos ilusões!) e com um pai a trabalhar por turnos, quero ver como é que vou conseguir combater o baby-blues, e ter tempo para namorar, e descansar e essas coisas todas tão bonitas que nos dizem que devemos fazer! 
Não me estou a queixar de forma nenhuma, simplesmente nestas coisas sou muito realista e dispenso conselhos genéricos sobre quem desconhece a realidade de cada uma das grávidas que ali estava! 
Eu conheço bem a minha situação, sei com que linhas me coso e por isso, já equacionei alguns mecanismos que me poderão permitir (e daí talvez não...) não ficar no maior dos lodos no primeiro mês de vida do meu segundo filho.

Sinto a barriga a esticar em diversos quadrantes, como se fosse assim por fases, e o rapazola cá dentro continua a mexer-se com uma genica incrível. Desconfio que o safadinho sente quando estou a mexer em comida (seja ao lanche, ao jantar ou ao pequeno-almoço), porque desata a rebolar cá dentro. Além disso, está sempre pronto a reclamar quando a minha posição lhe desagrada.

Apesar de só ter engordado 8 kgs até agora, a minha coluna reclama sempre que passo demasiado tempo e especialmente se estiver numa posição estática. Por isso, mesmo estando de pé, tenho que fazer movimentos de balanço, como se fosse um navio a adornar para um lado ou para o outro, para depois não ficar com dores, como se fosse uma entrevadinha.

2 de abril de 2014

No meio da tempestade... boas notícias!

Pois que a irritação passou-me, não sem antes descobrir que a minha médica de família se tinha mesmo esquecido de fazer novo pedido de marcação de consulta, situação para a qual se me desfez em desculpas.

Mas como eu sou moça de criticar quando é para criticar, e sou moça de elogiar quando é para elogiar, tenho que bendizer os serviços do hospital quando ontem pela manhã, me ligaram a dizer que o pedido de consulta tinha chegado, que havia uma desistência e que se eu quisesse aproveitar, era estar no serviço até às 13h.

Nem pestanejei! Nem me importei com o temporal que se começara a formar, com o negrume das nuvens que se avolumava e que resultou no dilúvio debaixo do qual me meti, para ir buscar o Falipe à escola, e ir buscar resultados dos exames a casa e seguir para o hospital antes da hora derradeira.

Fiquei ensopada da cabeça aos pés, tal não foi a tromba de água que apanhei... as minhas botas chiavam de tão encharcadas de água, depois de terem atravessado uma "ribeira" mesmo à porta da escola do miúdo. As calças estavam ensopadinhas até aos joelhos e nas costas uma mancha molhada por conta das goteiras do guarda-chuva. Restou-me depois mudar completamente de roupa, apesar de ter estado quase 1h30 com a roupa molhada a secar no corpinho...

O meu carrito não se afogou quando teve que atravessar duas maresias de inundação, respondendo às minhas preces.

Consegui conduzir no meio de uma invisibilidade tremenda, praguejando contra todos os senhores automobilistas a quem deve ter saído a carta de condução na farinha amparo, já que no meio dum temporal daqueles nem sequer tiveram a dignidade de acender as luzes dos seus carros para se tornarem visíveis...

O S. Pedro parecia apostado em dissuadir-me de me aventurar debaixo da tempestade, mas eu ontem era uma "mãe numa missão"!

Mas pude finalmente confirmar que as minhas suspeitas de o Falipe ter problemas de audição eram infundadas. Sim, há que levá-lo muito à praia (quando o verão chegar, se chegar... por este andar da carroça), e limpar-lhe sempre o nariz entupido com água do mar, mas pelo menos não há problema de maior.

Ensopadinha até aos ossos, pude respirar de alívio!