13 de março de 2014

Semanário de Gravidez #7

A barriga vai continuando a crescer. Os quilos também se vão somando, mas a um ritmo bem mais vagaroso do que sucedeu na primeira volta. Isso agrada-me e a minha coluna agradece... apesar de haver dias em que ela clama de cansaço.

Este meu filho é um mexido de primeira! Há vezes que parece estar a dançar o fandango cá dentro. O que me faz pensar no meu futuro... é que se o Falipe tem pilhas daquelas que parecem nunca acabar, nem quero pensar como vai ser este meu segundo rapazola... especialmente porque toda a gente me augura que os segundos filhos são uns terríveis, quando comparados com os primeiros. Eu prefiro continuar em negação e acreditar que o R. vai ser um menino sossegado como o irmão foi pelo menos até aos dois anos...

Mas também pudera... ele na barriga a ouvir o irmão-matraca-que-não-pára-de-falar-e-cantar-um-minuto e que salta e espolteia* sem parar... para ele deve ser já um enorme aprendizado, ele deve achar que isto é a norma. 

Entretanto, no passado domingo fui visitada pelas amigas contracções. Dizem que são "falsas", mas a mim pareceram-me daquelas bem verdadeiras, já deram para começar a querer suster a respiração. A visitinha valeu uma ida ao hospital só por descargo de consciência, saí de lá com dois avisos: tem que ter cuidado com o peso (mas que mania pá!) e repouse muito. Ao que eu respondi: 

- Ainda mais? É que eu passo os dias sentada!



* do verbo espoltear - regionalismo algarvio muito usado pelos meus pais, que significa algo como andar na cabriolice, não parar quieto.

12 de março de 2014

Eu sei que não me posso irritar...

Mas o sangue ferve-me nas veias!

Só me apetece dizer palavrões daqueles gadelhudos, em bom vernáculo!

Desde Janeiro que aguardava a marcação duma consulta de otorrino para o Falipe, através do SNS. 

Hoje descobri que pelos vistos faltámos à consulta marcada para o passado dia 04 de Fevereiro...  e foi porque manifestei a estranheza perante a demora na marcação da consulta.

Ora bem, eu até teria levado o meu filho ao médico na data e hora marcada, se tivesse recebido a cartinha a avisar!

Como sempre, nestas coisas, a culpa é sempre de quem?! De quem?!

Do carteiro, pois está claro!


11 de março de 2014

Os nossos filhos quase perfeitos

Ser mãe é olhar para os nossos filhos e vê-los com uns óculos especiais, que descartam toda e qualquer imperfeição, que obscurecem qualquer traço de fealdade (grande ou pequeno), que permitem ignorar deliberada e inconscientemente as principais características de feitio menos agradáveis desculpabilizando a nossa cria por ser teimosa, voluntariosa ou outra coisa qualquer terminada em "osa"... apelidando esses traços como "personalidade forte".

Ser mãe é querer e logo assumir que os nossos filhos são seres perfeitos, exemplares, magníficos, sumidades de inteligência e modelos de beleza. Aos nossos olhos eles são e sempre serão absolutamente perfeitos!

No fundo, nós sabemos que eles certamente terão imperfeições e é preciso algum esforço de reconhecimento dessas mesmas pequeninas falhas ou defeitos.

Bem dentro de nós acalentamos o desejo de que nenhum mal caia sobre eles, que nada os magoe ou lhes traga sofrimento, por menor que seja. Preferimos olhar para eles e ver apenas o que de bom herdaram de nós (do pai e da mãe e até mesmo dos avós) e atirar para trás das costas a possibilidade de trazerem dentro de si alguma herança genética ou "personalística" que se possa assemelhar aos nossos piores defeitos, incapacidades e imperfeições.

Ora isto é convicção para dar azo a muitos choques e desilusões. Especialmente quando descobrimos que apesar de sermos ceguetas de um olho e precisarmos de óculos desde tenra idade e para o resto da vida, fomos incapazes de perceber que o nosso filho encerra a herança genética de hipermétrope, mas num nível agravado. Queremos que eles continuem perfeitos e duvidamos do diagnóstico, incrédulos perante a nossa própria cegueira incapacitante, que não nos deixou ver que ele escondia um problema de visão que o fará usar óculos desde tenra idade e para o resto da vida.

Queremos ouvir segundas, terceiras, quartas e infinitésimas opiniões, se isso significar que nos digam que afinal eles não vão ter que passar pelo estigma do "quatro-olhos", do "pitosga", do "menino dos óculos de lentes de fundo de garrafão", nem se vão aborrecer sempre que as lentes ficarem embaciadas porque andaram a correr que nem uns doidos no recreio, nem ter que justificar cabisbaixos aos pais como partiram as hastes.

Depois do choque inicial e da percepção exacta da realidade começar a assentar no nosso pensamento, percebemos que usar óculos é de somenos, porque há problemas bem piores na vida. E heranças genéticas bem mais pesadas que não convém nada carregar...

6 de março de 2014

Amour

Eu sabia que não devia ter visto este filme... eu sabia que ver este filme traria ao de cima recordações passadas.

Achei curioso que a RTP tenha achado por bem informar antecipadamente que o filme continha cenas susceptíveis de ferir os mais sensíveis. É pena que lhe tenha aplicado uma bolinha vermelha no canto superior direito... à imagem de um qualquer filme violento, com cenas de nudez ou sexo explícito ou palavreado menos "adequado".

Este filme fere os mais sensíveis, sim! Porque retrata de uma forma bastante fiel e objectiva a nossa própria mortalidade, a (in)dignidade da velhice e os problemas a ela associados, a decrepitude do corpo de um qualquer ser humano e a tristeza que é ter um fim de vida sobre o qual não temos qualquer controlo.

Este filme merece ser visto! Mas preparem-se, porque não há cá floreados nem dourar de pílula sobre a nossa finitude.


5 de março de 2014

Semanário de gravidez #6

E por aqui contam-se 24 semanas, são 6 meses, mais coisa menos coisa... 
Pois eu sei... isto parece estar a passar assim num sopro.

Não estando ainda no modo "andar à pinguim", mas já me vou sentindo assim tipo barril... ou Obélix!

Mentalmente já comecei a fazer o inventário das coisas que já possuo, para conseguir listar o que ainda vou precisar comprar, por exclusão de partes. A ver se desta vez não faço o saco da maternidade (o meu e o do miúdo) meia hora antes de dar entrada no bloco de partos, como sucedeu da primeira vez.

Esta semana fui fazer as análises de despiste de diabetes gestacional, o que significou tragar um copaiço de água com açúcar, em jejum. Se beber água com açúcar já de si não é muito a minha praia, apesar de ser gulosa e semi-viciada no pó refinado (amarelo de preferência), aquilo foi mesmo mau de tragar! Como se isso não me bastasse, toma lá duas horas de seca em jejum de comida e água e os braços picados por 3 vezes... vale-me sempre o facto de ser fácil apanhar-me as veias. Em suma, tomei o pequeno-almoço eram 11h45 e só não sei como não desfaleci a caminho do café da esquina... enfim, análises de sobrecarga de açúcar: check!

De resto, o senhor filho mais novo andou para aqui às voltas na minha barriga ontem e para se acomodar condignamente ao novo posicionamento (que ainda não percebi a 100% qual é) presenteou-me com uma sessão de espezinhamento das entranhas. Por enquanto, os xutos e pontapés são bastante agradáveis e fazem-me rir feita palerma sozinha comigo mesma. 

O Falipe está cada dia mais feliz com a perspectiva da vinda do irmão e vai acrescentando coisas à lista de "afazeres" de irmão mais velho, coisas a mostrar, a ensinar, a explicar. Esta manhã fiquei babada de orgulho do meu menino "um pouco crescido" (palavras dele) quando me disse que tínhamos que lavar o "Ursinho" (amigo inseparável dele desde os cinco meses de idade) para ele poder partilhar com o mano. Se isto não é de derreter até as pedras da calçada... a mim enche-me o coração! Fico pasmada com a maturidade crescente do meu rapazola e com as perguntas pertinentes que me faz, como por exemplo ontem à hora da história de adormecer:

- Mãe, quando o mano vier, como vais contar a história aos dois? Cabemos os dois no teu colo?


27 de fevereiro de 2014

A Tordo e a direito

Sinceramente começo a ficar um tanto incomodada com esta celeuma em torno do Fernando Tordo ter emigrado e da carta que o filho escreveu ao pai e tornou pública.

Não acho que ele seja melhor ou pior que qualquer outro português, não tem maior ou menor valor que qualquer outra pessoa, mas custa-me ver o homem ser ou glorificado ou enxovalhado gratuitamente. Até me custou ler a crónica do Fernando Ribeiro... apesar de entender que tudo o que ele escreve é válido, pelo menos da sua perspectiva pessoal.

Tudo porque simplesmente acho que cada um terá a sua experiência de emigração, ou de permanência no país, sujeitando-se às cargas fiscais austeras e tudo e tudo o mais que o nosso governo se lembrou de fazer em nome de baixar as calcinhas à Troika e deixar-se enrabar livremente "ser bom aluno". 

O que me irrita no meio desta controvérsia toda é simplesmente isto: de repente todos decidem proclamar aos sete ventos, em cartas escritas, que são mais coitadinhos que o Tordo, mas que aguentaram estoicamente, sem queixumes e sem vitimizações. De repente, todos se fazem de fortes, mas fazendo-se de coitadinhos ao mesmo tempo. De repente, todos querem gritar que passaram por isso e até muito pior.
Cada qual terá a sua experiência e portanto, viveu-a e entendeu-a do seu ponto de vista pessoal. Há comparações que não têm qualquer comparação possível. 

Por isso, façam um favor a toda a gente: parem de escrever cartas abertas, fechadas, triangulares ou quadradas. Se querem contar a vossa experiência de vida no que à crise e à austeridade diz respeito, façam-no numa nota individual, mas deixem-se de comparações. Deixem de se armar em pobrezinhos e coitadinhos, vítimas. E por favor, não usem isso para denegrir ou enxovalhar os outros, por oposição a vós, que sois uns heróis. Se querem reunir a gana que vos vai na alma, por favor, não a direccionem para quem está a passar pelo mesmo ou parecido, apesar de numa perspectiva diferente, e canalizem essa energia e raiva para quem é mesmo responsável pelo estado em que nos encontramos actualmente. 

Porque enquanto a malta perde tempo a disputar a feijões quem passou por piores experiências por conta da crise e da austeridade, quem nos espezinha e afunda de dia para dia, esfrega as mãos de contente, por estarmos todos entretidos à bulha e a medir desgraças individuais.

26 de fevereiro de 2014

Semanário de gravidez #5

A energia começa a falhar-me a certas horas do dia. Se até há uns dias atrás a sonolência me atacava mais ao final do dia, agora tenho verdadeiras "pedradas" de sonolência a meio da manhã ou da tarde...

Tenho dificuldade em concentrar-me. Falta-me a capacidade de raciocínio e a criatividade para produzir documentos de trabalho que devo produzir. As dores de cabeça começaram a dar o ar da sua graça, mas não têm graça nenhuma...

Começo a ficar ligeiramente aborrecida, com aquele tique de tremelique ao canto do olho esquerdo e o sobrolho levantado, essa minha eterna imagem de marca facial, sempre que me dizem: "ah a barriga está enorme! É que está mesmo grande!!" ou "já te pesa bastante!"... 
Não acho que a barriga esteja enorme, aliás, acho mesmo que na primeira gravidez por esta altura estava bem maior. E não, também não sinto que me pese muito, pelo menos a ponto de me sentir prostrada e a arrastar... A sério, deixem-se desse tipo de comentários!

Outra coisa que já me começa a incomodar é a mania que algumas das minhas colegas têm, quase incontrolável e compulsiva, de pôr as mãos na minha barriga e porem-se a fazer festinhas. A sério, eu sei que o fazem na melhor das intenções, mas aborrece-me que o façam!

Cá está outra vantagem de na primeira gravidez ter trabalhado quase sempre com homens. Além de eles exibirem aquele estilo paternal e condescendentemente protector, não sentem esta necessidade urgente de afagar a barriga da grávida!

O G. queixa-se que eu tenho mudanças de humor. No entanto, nos últimos tempos tenho-lhe visto surtos de mau humor, que me deixam a questionar-me se sou eu que estou grávida ou se ele é que está, assim por processo de osmose... 

O Falipe parece estar cada dia mais nas nuvens com a perspectiva de ter um irmão. Curiosamente refere-se a ele mais como bebé do que como mano ou irmão. Começou a falar para a minha barriga, conversa com o irmão e adquiriu o hábito de fazer-me cócegas na barriga e pergunta-me se o irmão sentiu. Fico deliciada com os monólogos dele, a contar-me o que vai ensinar ao irmão, os brinquedos que lhe vai dar para ele brincar. Já inventa diálogos entre ele e o irmão, em que a resposta do bebé resume-se quase sempre a "gugu-dadá". E eu derreto-me e fico profundamente grata pela meiguice e generosidade do meu rapazola!

24 de fevereiro de 2014

Recuar no tempo

Nunca fui pessoa de arrependimentos. 
Foram poucas as situações em que sinto que deixei algo por dizer ou por fazer. Admito que em algumas situações fui até demasiado bruta...

Se me perguntassem a que momento da minha vida gostaria de recuar, se pudesse regressar só a um momento, sei bem a que momento quereria regressar.
Não tanto por sentir necessidade de fazer algo diferente, corrigir alguma acção ou palavras. Quer dizer... há uns dois ou três momentos que vivi com o Falipe que se pudesse refazer tudo, fá-lo-ia certamente de maneira diferente!

Mas quereria regressar apenas e só para o poder viver de novo, da mesma forma. Para matar saudades. Para o reviver mais do que apenas uma recordação na minha mente.

Sei que regressaria certamente à infância, a uma das muitas noites em que me enroscava no colo da minha mãe pequenina. 

Como não o posso fazer, há dias apercebi-me que existe uma certa forma de fazer o tempo recuar. Sempre que envolvo o meu filho meu colo, depois de lhe ler uma história.

E vocês, se pudessem regressar atrás no tempo, na vossa vida... o que mudariam?