30 de abril de 2015

Trocas e papeladas (post claramente inspirado na Amigo Imaginário)

Tenho a vaga ideia de que tudo começou com o Volodymyr, um rapaz ucraniano que partiu um braço e precisou que alguém lhe preenchesse um requerimento à Segurança Social, porque ele não percebia o português o suficiente para o fazer.
Quando ele me pediu, com ar mesmo muito envergonhado, nem hesitei e em 10 minutos tinha o formulário preenchido. O rapaz, servente de pedreiro na obra onde eu era a "sinhóra da segurança", desfez-se em agradecimentos e nunca mais deixou de o fazer enquanto a obra durou.

Depois foi o Cláudio, um jovem brasileiro, muito trabalhador e humilde, que me pediu se eu lhe podia preencher os papeis para ele entregar no consulado brasileiro, para concluir o processo de adopção de uma menina, que ele iniciara no Nordeste do Brasil, antes de emigrar e vir para Portugal.
Quando disse que o faria sem qualquer problema, ele questionou-me:

- Ocê tem família de emigrantes?!
Respondi-lhe que não, e achei estranha a pergunta.
Ele explicou que achara que a minha gentileza poderia ser motivada por isso.
Ao que eu respondi que isso tinha pouco peso, porque eu estava disposta a ajudar quem me pedisse ajuda, caso a pudesse facultar, independentemente da nacionalidade.
Ele, não só se desfez em agradecimentos, como rematou:
- Ocê é gente boa! Muito boa!
E quando a menina que ele adoptara e a esposa finalmente se reuniram com ele cá em Portugal, ele não hesitou em vir propositadamente ao meu contentor partilhar essa tremenda alegria comigo. E eu fiquei genuinamente feliz por ele!

Não demorou muito tempo a espalhar-se pela obra que a "sinhora da segurança" ajudava a preencher papeladas e burocracias. Um dia, confundiram a estagiária da fiscalização comigo e perguntaram-lhe se ela podia ajudar a preencher a declaração do IRS.

Já o Murat, um uzbeque cinquentão, bem disposto, tagarela e brincalhão, veio pedir-me se podia ajudá-lo com o preenchimento do requerimento para autorização de reagrupamento familiar. O desejo dele de trazer a família dele para cá era enorme, queria a esposa e os seus quatro filhos, todos nascidos nas primeiras semanas de Setembro, a viver consigo cá.
Costumava brincar com ele, enquanto preenchia os papéis, que o mês de Setembro era um mês tramado, com tanta prenda e festa de aniversário a acontecer, já que ele próprio também tinha nascido nesse mês.

Três vezes me pediu que o ajudasse, e três vezes lhe preenchi o requerimento, ao qual ele recebia sempre a mesma resposta negativa: os seus rendimentos ficavam aquém do estabelecido para ele poder trazer a sua família para cá.

Enquanto trabalhámos nas mesmas obras, todos os dias 8 de Março, me oferecia uma flor ou uma planta e no Natal, comprava sempre uma caixa de bombons e uma garrafa de champanhe com caracteres russos para me oferecer.

Também ao Omar, um jovem marroquino, tentei ajudar, sem grande sucesso, a desbloquear uma vigarice do patrão com as declarações de remunerações para a Segurança Social. O seu semblante habitualmente desconfiado com tudo e com todos, suavizava-se quando eu estava presente e nas últimas obras onde nos encontramos, ele contou-me do seu pequeno filho e de como tinha ido a Marrocos casar.

A todos eles ajudei da melhor forma que pude e sabia.
E mesmo assim, às vezes penso que o que fiz foi tão pouco...

27 de abril de 2015

Falhar

Sinto que têm sido vãs as minhas tentativas de estar presente, de te acompanhar, de te dar a atenção que acho que precisas. E que mereces!

Sinto que te falho tantas vezes, e prometo que não o farei outras tantas vezes, sem nunca me sentir capaz de reverter a situação.

Naquela tarde, no dia seguinte ao teu irmão ter nascido, vi-te e olhei para ti com outros olhos. Senti um estremecer no peito, como que a questionar-me como e porque é que te achava agora enorme, gigante, tão crescido. Como se o meu menino pequenino que eu deixara em casa cerca de 48h antes se tivesse agigantado e crescido desmesuradamente na minha ausência.
Como é que tinha isso sucedido?!

Os dias que estive no hospital passei-os preocupada contigo. Quando acompanhava o teu irmão na Neonatologia, pensava nele, mas estava preocupada contigo.
Quando fui para casa, pensava em ti, mas estava preocupada com ele, que ainda ficara no hospital.

O facto de o teu irmão ser um bebé muito exigente, despojou-me das minhas capacidades de te assistir. Ou pelo menos sinto isso...
Emociono-me quando me recordo de momentos passados, só eu e tu, de tudo o que me ensinaste (e ainda ensinas diariamente) e do quanto cresci contigo, ao mesmo tempo que voltava a ser criança e regressava indirectamente à minha infância, através dos teus olhos. Tenho saudades de todas as noites em que te lia uma história sentada na cadeira de baloiço, enquanto te embalava suavemente no meu colo.

As histórias permanecem, mas são tantas vezes interrompidas pelo choro do teu irmão... E agora não há embalar, mas passou a haver as tuas perguntas sobre a história, a tua curiosidade, a tua procura por perceber as coisas.

O estado de privação de sono em que tenho vivido não tem tido os melhores efeitos no meu estado de espírito, e por vezes dou-me conta do quão exigente estou a ser contigo, do quão ríspida sou contigo por vezes. Quando me apercebo disso, volto àquela tarde, no dia seguinte ao teu irmão ter nascido, e percebo que tu já eras crescido, mas a meus olhos, eras ainda um bebé-menino.

Continuas a ser o meu bebé-menino, que foi crescendo nos intervalos do meu cansaço, da minha privação de sono, da atenção que o teu irmão precisa. Continuas a ser o meu menino sensível, meigo e perspicaz, e tão inocente.
E eu não quero que essa inocência se desvaneça nem tão cedo. Quero preservar esse coração puro o máximo de tempo que conseguir!
E por vezes fico sobressaltada ao pensar se estás a ter uma infância feliz...

Porque desde que soube que estava grávida de ti, só tenho querido e desejado dar-te mundos e fundos, e toda a felicidade e alegria que eu possa proporcionar-te!

Eu sei que ultimamente andas preocupado com a morte, e o meu coração apertou-se ainda mais quando vi o estado assustado em que ficaste, quando me viste cair nas escadas esta manhã. Mas não te preocupes, foi só uma queda aparatosa, e a mãe só ficou um bocado "amassada"...

Enquanto eu puder e me for permitido, eu estarei sempre contigo! Não vou a lado nenhum!

17 de abril de 2015

{this moment}

{this moment} ~ A Friday ritual. A single photo - no words - capturing a moment from the week. A simple, special, extraordinary moment. A moment I want to pause, savor and remember. If you're inspired to do the same, leave a link to your 'moment' in the comments for all to find and see.
. . . . . . . . . . 
Inspirada na SouleMama

Esclarecimento: é pena que esta imagem não seja desta semana...


16 de abril de 2015

Filho ladino

És traquina.
Gostas de me dar chapadas com as tuas mãozinhas rechonchudas. Tens a "mão pesada"... e depois ris-te com ar de safado, que já compreende que está a fazer asneira. Puxas os meus cabelos e tentas enfiar os teus dedos nos meus olhos e nariz. Quando reclamo e digo "não-não", ris com ar gozão. Meu pequeno diabrete.

És sorridente. De sorriso fácil. De sorriso franco e rasgado. Sorris com uma facilidade avassaladora e conquistas num segundo quem tens pela frente. Os teus dois dentinhos completam o quadro e tornam-te ainda mais cutxi-cutxi!

Quando não sorris, algo não está bem em ti. É fácil perceber.

És bem disposto. Por norma.

Mas também és chorão. Muito. Em certos dias, até demais.
Quando não respondemos ao teu choro, mudas de nível e passas ao modo gritador. Aquele choro de gritos que me estremece o cérebro, ressoa e vibra nos ouvidos e me deixa exausta no espaço de cinco minutos. Aquele choro de gritos que só pode e vai aumentar de decibéis, a níveis que requerem protecção auricular.

Odeias chupetas. E biberões. Coisas de borracha ou silicone para pôr na boca, contigo nem pensar!

És enérgico, geniquento como te chamo. Mexes em tudo o que apanhas pela frente e apesar de ainda não conseguires, queres chegar a tudo e por isso esticas-te o máximo que consegues. Às vezes, já consegues arrastar o rabiosque duma forma meio esquisita, um pouco de lado, como se fosses um caranguejo.

Gostas de colo. Adoras colo. Mas o colo não pode estar parado. Tem que estar em movimento. O colo tem que circular pela casa. Senão... lá vem o choro. Gostas do meu colo, mas para adormecer, preferes o do pai.

Detestas estar sozinho. Ficas mesmo chateado e ligas o botão do choro se acaso te viro as costas, nem que seja para ir buscar qualquer coisa ali ao lado.

Quando temos visitas ou vamos a casa de família ou amigos, és a criança mais serena, sorridente e pacata de que há memória. Fazes-me passar por "mentirosa" quando digo que tens sido um bebé exigente. Porque tu és um poço de calmaria e simpatia na presença de terceiros.

As noites não são pacíficas. Nada pacíficas. Desde que nasceste dormiste apenas 3 noites de seguida, nenhuma delas consecutiva. As outras todas têm sido marcadas por muito choro, por muitos acordares sobressaltados, por muito embalo para te conseguir acalmar e pôr novamente a dormir. Por muito espernear.

Adoras o teu irmão. Ficas muito atento a olhar para ele e para o que ele faz. És curioso com ele, queres mexer nas coisas dele, queres agarrá-lo e puxá-lo. Ris-te à gargalhada com ele, quando ele decide fazer garatujas contigo. Mas quando tens sono, ele não não se pode chegar a ti, que começas logo a ficar impertinente. Já a dar a entender que vais ser um malandro com o teu irmão.

"Falas" pelos cotovelos. O que me leva a crer que vais ser ainda maior tagarela que o teu irmão. Só tenho pena de ainda não ter conseguido descortinar o que significa "bem-bembe"... No entanto, os sons mais habituais da tua linguagem são "ma-ma-mã-man"... palpita-me que te vou ouvir muitas vezes a chamar por mim.

Tens exigido de mim energia, força e paciência em níveis que nunca pensei conseguir reunir. Tenho suportado cansaço, nervos e muito mais privação de sono do que alguma vez julguei ser-me possível aguentar.

E no entanto, amo-te com todas as forças possíveis do meu coração!

14 de abril de 2015

Mães de cesariana

Nunca fui defensora de um determinado tipo de parto, apesar de pela web pulalarem por estes dias (diria mesmo anos) resmas de textos a exaltarem o parto natural, naturalíssimo, sem qualquer intervenção médica, como se fosse o melhor e mais fantástico método para trazer uma criança ao mundo.

Nada contra. No entanto, estas posições sempre me pareceram um tanto ou quanto fundamentalistas e um pouco irrealistas, para não dizer outra coisa. Nestas matérias, não gosto muito de me entregar a juízos de valor, porque entendo que cada um sabe de si, e do que acha que é melhor para si.

Quando fiquei grávida pela primeira vez, não perdi muito tempo a pensar no tipo de parto que queria para mim. Sabia que queria ter segurança suficiente para que tudo corresse pelo melhor, e se isso significasse intervenção médica, em maior ou menor grau, então que assim fosse.
Tentei não fazer do momento do parto um bicho de sete cabeças e optei por encarar a coisa da seguinte forma: o parto será como tiver que ser!

Após o meu primeiro filho ter nascido, por via duma cesariana de emergência, comecei a perceber que os demais nos olham um bocadinho de soslaio quando dizemos que foi cesariana. Um pouco como se houvesse algo de errado conosco, por não termos sido capazes de pôr uma criança no mundo da forma "normal".


Na web então, este feeling é muito mais real. A imagem que é passada duma mulher que fez uma cesariana é a de que possivelmente terá optado pela forma "fácil e cómoda" de parir.

Sim, eu sei que há mulheres que programam cesarianas, para não "terem tantas dores" e até por motivos mais fúteis. Sim, sim, esse tema daria discussão para várias horas...

Nunca me senti inferior ou superior por ter feito cesariana. Não fiz apenas uma, foram duas. Ambas de emergência. Porque no primeiro, ele estava em risco. E eu também, mas ninguém fez menção disso para não me assustarem... Na segunda, eu estava em risco. Com a agravante do risco que correra na primeira cesariana.

No pós parto, veio a confirmação da minha suspeita: que toda e qualquer gravidez que eu tive ou que venha a ter terá sempre o mesmo desfecho: parto por intervenção cirúrgica.

Sempre me senti em paz com essa realidade e é com algum orgulho que ostento uma cicatriz na minha barriga, porque ela conta a história de como os meus filhos entraram no mundo.

Por isso, foi com alguma emoção que li este texto, que finalmente conta um bocadinho o lado de quem não tem, porque não pode ou não quer, um parto natural ou normal.

Não há mães melhores ou piores a parir, há simplesmente mães que põem os seus filhos no mundo, da melhor forma que conseguem.

13 de abril de 2015

Constatações óbvias

É mais fácil educar uma criança de 6 anos do que um idoso de 81 anos.

É mais fácil convencer uma criança de 6 anos a comer as ervilhas do que um idoso de 81 anos que se recusa a comer e acha que o estamos a forçar.

É mais fácil ter paciência para uma criança de 6 anos do que para um idoso de 81 anos.

7 de abril de 2015