Ser mãe é olhar para os nossos filhos e vê-los com uns óculos especiais, que descartam toda e qualquer imperfeição, que obscurecem qualquer traço de fealdade (grande ou pequeno), que permitem ignorar deliberada e inconscientemente as principais características de feitio menos agradáveis desculpabilizando a nossa cria por ser teimosa, voluntariosa ou outra coisa qualquer terminada em "osa"... apelidando esses traços como "personalidade forte".
Ser mãe é querer e logo assumir que os nossos filhos são seres perfeitos, exemplares, magníficos, sumidades de inteligência e modelos de beleza. Aos nossos olhos eles são e sempre serão absolutamente perfeitos!
No fundo, nós sabemos que eles certamente terão imperfeições e é preciso algum esforço de reconhecimento dessas mesmas pequeninas falhas ou defeitos.
Bem dentro de nós acalentamos o desejo de que nenhum mal caia sobre eles, que nada os magoe ou lhes traga sofrimento, por menor que seja. Preferimos olhar para eles e ver apenas o que de bom herdaram de nós (do pai e da mãe e até mesmo dos avós) e atirar para trás das costas a possibilidade de trazerem dentro de si alguma herança genética ou "personalística" que se possa assemelhar aos nossos piores defeitos, incapacidades e imperfeições.
Ora isto é convicção para dar azo a muitos choques e desilusões. Especialmente quando descobrimos que apesar de sermos ceguetas de um olho e precisarmos de óculos desde tenra idade e para o resto da vida, fomos incapazes de perceber que o nosso filho encerra a herança genética de hipermétrope, mas num nível agravado. Queremos que eles continuem perfeitos e duvidamos do diagnóstico, incrédulos perante a nossa própria cegueira incapacitante, que não nos deixou ver que ele escondia um problema de visão que o fará usar óculos desde tenra idade e para o resto da vida.
Queremos ouvir segundas, terceiras, quartas e infinitésimas opiniões, se isso significar que nos digam que afinal eles não vão ter que passar pelo estigma do "quatro-olhos", do "pitosga", do "menino dos óculos de lentes de fundo de garrafão", nem se vão aborrecer sempre que as lentes ficarem embaciadas porque andaram a correr que nem uns doidos no recreio, nem ter que justificar cabisbaixos aos pais como partiram as hastes.
Depois do choque inicial e da percepção exacta da realidade começar a assentar no nosso pensamento, percebemos que usar óculos é de somenos, porque há problemas bem piores na vida. E heranças genéticas bem mais pesadas que não convém nada carregar...