30 de setembro de 2013

Falipices #55

Depois de um mini-ralhete, por não parar sossegado nem 30 segundos, Falipe fica com um ar muito melindrado e afirma com ar resoluto:

- Já não és minha amiga!!

Não satisfeito, acrescenta:

- Vais ficar com o coração partido para sempre!*

Passados dois minutos, a "birra" já lhe passou e já diz que é meu amigo.

* O que ele ainda não sabe é que se um dia ele deixar de ser meu amigo, eu vou mesmo ficar de coração partido...

26 de setembro de 2013

Lar, doce lar

Lembro-me que mudámos para o apartamento no início de Dezembro, tinha eu os meus quatro anos acabados de completar.
Recordo-me da tarde em que a minha mãe me disse "escolhe lá qual é que queres que seja o teu quarto!" e eu escolhi instintivamente o que fica virado a nascente, tal como a porta de entrada do prédio.

Foi ali que o meu pai montou a cama que iria substituir a minha cama de grades, uma cama de casal só para mim! Com a cómoda e um espelho a condizer, e a cabeceira da cama cheia de prateleiras e as mesas de cabeceira embutidas, como era moda no início dos anos 80.

Adorava andar descalça na alcatifa cinzenta do meu quarto, mas detestava a vermelha que atapetava a sala e o corredor.

Tive sempre medo de entrar no quarto "onde ninguém dorme", porque durante meses a fio acreditava que existiam monstros debaixo da cama. Mas sabia que era no guarda-fatos desse quarto que a minha mãe escondia as minhas prendas de Natal e isso despertava em mim o espírito de aventura.

Com o passar dos anos, eu fui crescendo e a casa envelhecendo e degradando-se.

Ali vivi momentos felizes com os meus pais, e onde vivi também os mais tenebrosos, principalmente os últimos meses de vida da minha mãe.

Era o meu porto seguro quando vinha da faculdade, a cada quinzena. Revia o meu pai, e retornava ao meu quarto, ainda com o poster gigante do Danças com Lobos a orlar a parede.
No roupeiro, permanecia ainda pendurado o meu vestido de baptizado, o vestido de casamento da minha mãe e um vestido roxo dela com decote em V e pregas largas na saia, feito com cetim bordado que um ex-namorado lhe trouxera de Goa.

Foi dali que saí para o meu apartamento. Deixei alguns livros nas prateleiras, bibelots oferecidos pelas tias e primas e três ou quatro peluches. E o baú trabalhado com cenários japoneses, contendo todo o enxoval que a minha foi reunindo ao longo dos anos...

Foi naquele apartamento que o meu pai viveu 14 anos de solidão, apesar das minhas visitas frequentes.

Quando ele faleceu, foi ali que chorei enquanto separava as suas roupas e pertences.
Durante 18 meses, perdi o chão e fiquei sem saber o que fazer ao apartamento onde vivi mais de metade da minha vida...

Foi renitente que o esvaziei para recuperar... as obras de reparação/recuperação foram um martírio que se prolongou por demasiados meses... e eu continuei sem grande noção do que fazer...


Mobilei-o, decorei-o minimamente e pus-lhe cortinados escolhidos a gosto, como se fossem para mim.

Hoje entreguei as chaves da porta, da caixa do correio e da porta de entrada a uma ex-vizinha a quem o decidi arrendar.

Não sem antes voltar a entrar e olhar em volta.
O apartamento onde cresci, que está de cara lavada e não tem qualquer resquício do que foi quando ali vivi, à excepção das divisões e compartimentos... 

Lentamente, algumas coisas começam a definir-se e parece que tudo se vai encaixando nos seus lugares...

25 de setembro de 2013

Para quando?...

Um sinal assim do género deste, mas para impedir a malta de nos contar episódios e peripécias estapafúrdias das suas vidas, sem que ninguém lhes tenha perguntado nada?!

Irra, que "há dias de manhã que nem de tarde se pode sair à noite" e mais parece que todos os maluquinhos encontram o caminho para te maçar...


24 de setembro de 2013

E se...

Não sei se é do Outono que começou num autêntico dia de verão, para logo de seguida mostrar o seu cinzentismo, se é saudosismo pós-férias...

"E se..." parece ser a expressão que tem começado uma série de reflexões familiares.

Eu prefiro pensar que tudo acontece no seu tempo, que sem uns acontecimentos outros não podem ainda ocorrer.
Que não vale a pena estar com "e se..." em relação ao que já foi. Quando muito, apenas em relação ao que está por vir...




21 de setembro de 2013

Não sei fazer isso, mas sei fazer aquilo!


Agora que o Falipe entrou no ensino pré-escolar público e para o ano já começará na escola primária (oh meu Deus, mas jááááááá´??!), sinto-me bastante mais sensível a questões como estas: às dificuldades de aprendizagem, aos métodos de ensino, à capacidade dos professores em ensinar e estimular os seus alunos, de forma diferenciada para ir de encontro aos diferentes níveis e capacidades individuais de cada aluno.

Não é por achar que o Falipe não é inteligente ou que terá dificuldades em aprender, mas cada criança tem o seu ritmo, cada uma tem certas e determinadas aptidões que outros poderão ter em excesso ou em defeito. As minhas dúvidas residem mais em perceber quais são as matérias nas quais o meu filho se sente mais à vontade e quais aquelas que o interessam menos.

Não quero de todo que ele aprenda e saiba tudo ou seja um génio, não é nada disso... afinal de contas ele tem uma vida inteira de aprendizagem quotidiana pela frente, em tantos aspectos. Todos nós aprendemos algo todos os dias, se a isso estivermos dispostos! 

Mas falo por mim, nem sempre ser de rápida e fácil aprendizagem significa que teremos a vida facilitada...  

Durante o meu percurso escolar situei-me quase sempre entre os três melhores da turma a que pertencia. Se com alguns professores, esse facto me granjeava atenção e elogios por parte do professor - por vezes excessivamente, em detrimento de colegas meus que possivelmente necessitariam de mais apoio da parte do docente do que eu - com outros isso significava que era deixada em paz para me orientar sozinha, sem grande orientação por parte do professor, o que nem sempre se revelou benéfico.

Em algumas matérias em que era menos boa, valeu-me a minha mãe! Foi com ela que aprendi a tabuada correctamente (ainda hoje a sei!!) e como tal aprendi a fazer contas de multiplicar, mesmo as mais complexas. Já nas contas de dividir tenho a agradecer à D. Dina, a minha professora da 3.ª classe, que era da "velha guarda" e descobriu-me a careca em três tempos: que eu simplesmente  não entendia a mecânica das contas de dividir... e como tal chamou-me ao quadro preto (esse acto tão solene!) e explicou-me tudo tim-tim por tim-tim!
Foi graças à minha mãe, que sempre me deu apoio escolar em casa, que aprendi a manusear e consultar correctamente um dicionário. Foi graças a ela que percebi a importância deste livro enorme! Como tal, devo-lhe em boa parte o facto de saber escrever correctamente a minha língua, ou pelo menos assim o acredito.

Por ter tido esta experiência, é que sei a importância do apoio dos pais na educação escolar dos seus filhos. Não são só os professores que ensinam, essa tarefa não é exclusiva deles! Os pais devem contribuir também para isso, porque afinal de contas, também nós andámos na escola, também já fomos alunos, sentimos dificuldades em aprender isto ou aquilo, e além do mais, também nós possuímos conhecimentos que podemos e devemos transmitir aos nossos filhos!

20 de setembro de 2013

Vila adentro

Gosto de ir à vila.

Passear pelas suas ruas e ver como os espaços estão diferentes ou permanecem iguais.

Faz-me regressar à infância, ao tempo em que os meus pais existiam e me levavam pela mão pelas ruas que eles conheciam bem melhor que eu... e encontravam sempre imensas pessoas conhecidas e familiares e primos-afastados, mas que ainda eram "parentes".

Gosto de passear na vila, reconhecer rostos dos meus tempos de menina e adolescente e perceber no seu olhar aquela sensação de que o meu rosto não lhes é totalmente desconhecido, mas que eles não conseguem propriamente situar. 
É como ser uma desconhecida que os conhece a todos!


No mercado municipal



Adoro os beirados duplos antigos!

o relógio na torre da Igreja Nova

Não resisti a esta mítica foto, que ilustra tão bem a "vida na aldeia"!


Esta era a casa da D. Rocha, que hoje permanece encerrada, e já não guarda o esplendor de outros tempos...


É pena ter ficado desfocada... mas achei que era um bom "Amor Proibido"
A Casa Sintra, que sempre me despertou o interesse... talvez por sempre a ter conhecido assim, fechada...




19 de setembro de 2013

Eufemismos

George Carlin deve ser um dos melhores comediantes de stand up que vi nos últimos tempos.
Aqui está uma pequena amostra de como ele consegue fazer humor com coisas sérias e revela um nível de inteligência supremo sobre o que está a falar. À partida pode parecer que está a fazer piadas com recurso a jogos de palavras, mas é muito mais do que isso, é o que se consegue perceber nas entrelinhas.




Só tenho pena que não exista um vídeo disponível com legendas...
 
Sem dúvida para mim, o melhor que material que ele tem é este espectáculo, de 2001, que também não está legendado, e apesar de ser quase uma hora de vídeo, vale cada minuto!
Se quiserem espreitar é só irem aqui:
 

Alta definitiva

Três meses e meio após a cirurgia ao nariz, fui definitivamente dispensada por ter agora dois septos nasais desobstruídos e estar "tudo bom"!

Ao que parece e segundo palavras da otorrino(*), onde antes existia uma estrada secundária estreita aos ésses, mal pavimentada e com lombas descomunais chamadas adenóides, existisse agora uma valente auto-estrada que me permite respirar condignamente!

Adoro quando os médicos se põem com metáforas automobilísticó-rodoviárias para descrever um qualquer estado de saúde!

(*) Não posso deixar de elogiar a médica que realizou a cirurgia e passou depois a acompanhar-me, não só pelo trabalho que fez, mas principalmente pela boa disposição e pelo espírito de serviço público que tem! 
Em três das ocasiões em que fui à consulta com ela, nunca foi almoçar enquanto deixava os pacientes a secar na sala de espera. Numa das consultas, confessou-me que apesar de serem já 16h30, ainda estava com o pequeno-almoço no estômago - tomado às 8h da manhã - e que tinha estado a manhã inteira no bloco operatório em cirurgia. Ao que respondi que não devia deixar isso suceder, porque afinal de contas, para nos poder atender da melhor forma, também ela precisava de se alimentar!

18 de setembro de 2013

"Eu deixo-te ir trabalhar!"

tirado da net - álbum dos Chromatics

Foi o que me disseste esta manhã, quando te segurei a mão para te levar à escola "nova".

Sorri por me teres expressamente dado autorização para "ir trabalhar", porque no fundo és um tanto dono do meu destino, da minha vida quotidiana... ditas algumas regras pelas quais tenho que me reger.

Houve tempos em que não pude estar à altura das tuas exigências e foram mais que muitas as vezes que me auto-comiserei por te deixar longe de mim por demasiadas horas do dia. E nesses tempos, as tuas exigências eram bem maiores, daí a culpa ser monstruosa, e em algumas vezes até mesmo insuportável.

Perdi a conta ao número de vezes em que a hora a que a creche fechava era a hora a que eu saía do meu local de trabalho, com recurso a uma espécie de ultimato às minhas chefias, mas que no fundo só a mim se destinava. E ver o teu rosto de menino algo triste por seres o último na creche, expectante por ver o meu rosto assomar à porta da sala, foi o que ditou que eu procurasse alternativa laboral, para mim e em teu benefício!

As minhas chefias não compreendiam que eu tinha agora outra prioridade e fui muitas vezes injustamente acusada de não ter total disponibilidade para me submeter aos seus desmandos e às suas tiranias disfarçadas de obrigações de profissionalismo. 

Mas eu rejeitei essas acusações, porque não precisava delas, já que me acusava a mim mesma, e justamente, de te falhar e não ter total disponibilidade para ti, de tempo, de atenção, de calma e paciência.

Por estes dias, não tenho desmandos de chefias e gozo de um horário certo, onde não sou mal vista por sair à hora predeterminada, aliás como todos praticam. Nem tudo são rosas... há alguns espinhos, é certo...

No entanto, o saldo é tão positivo! Poder sentir-me serena e em paz para te abraçar, ouvir tagarelar, responder às milhentas perguntas que te saem em catadupa dessa moleirinha de menino curioso e esperto e principalmente ter a possibilidade de poder ficar apenas e só a observar-te em silêncio (pois... o silêncio... é relativo!)

17 de setembro de 2013

Falipices #54

À hora de almoço, Falipe aguardava que eu cortasse em pedaços mais pequenos a carne grelhada na brasa.

O pai, vindo da cozinha, olha para o prato dele e pergunta:

- Então filho, ainda não tens comida?

Falipe, com cara de enfado, responde:

- Pai, só tenho queijinho e arroz... que queres que eu faça??!!

16 de setembro de 2013

Voltar (lentamente) às rotinas



As férias terminaram... (mas porquêêê?!!!!!)

Foram dias pacatos, de vida sem horários pré-definidos, sem grandes planos.

Eu já devia ter aprendido esta lição há muito tempo... quanto menos se planeia, melhor correm as coisas, somos mais felizes!

Não fomos para muito longe, mas foi o suficiente para mudarmos de ares, vivermos de forma diferente. Ir à praia se nos aprouvesse, de ficar em casa se apetecesse.

De malas com pouca roupa, minimalistas diriam alguns... Soube bem perceber que é bom viver com pouca coisa de vez em quando. Faz bem à cabeça e ao corpo. Soube bem viver numa casa rústica, com o básico essencial, o suficiente para comer peixe grelhado quase todos os dias.

Revisitar as origens e as raízes dos meus ascendentes e sentir-me mais próxima deles, de certa maneira. 

Foi bom ver apenas a RTP2 e conhecer tanto que a nossa cultura tem de riqueza, sem canais de clubes de mil bonecos por dia, com vozes profundamente irritantes.

Foram dias de arrumações e rearranjos caseiros. Foram dias de "limpezas de primavera" em  época pré-outonal. 

Foram dias longe da crise, da austeridade, das baboseiras e asneiras político-económico-futebolísticas. Foram dias de estar presente e prestar atenção ao núcleo restrito que é a família, que somos nós os três.

Encontrar e abraçar amigas de longe, que vemos apenas nesta altura, e esquecer completamente das horas a passar.

Analisar o percurso até então e perceber que o caminho para a frente está em aberto e pode ser tão diferente e tão próximo daquilo que queremos afinal.

O regresso trouxe consigo a mudança para uma escola nova e uma nova etapa na vida do Falipe e na nossa, indirectamente.