Quando li o artigo que a Angelina Jolie publicou a explicar as razões que a levaram a submeter-se a uma dupla mastectomia, tudo ressoou em mim.
Percebi todas as razões e mais algumas pelas quais ela tomou a decisão dificílima de remover uma parte do seu corpo. Não me venham cá tentar convencer que é decisão tomada de ânimo leve, porque não é! É uma decisão radical, seja de que ponto vista for. Por muito que ela tenha todos os meios financeiros ao dispôr que lhe permitam a colocação de implantes, não deixa de ser complicado aceitar remover os seios. Qualquer mulher que goste minimamente de si, gosta dos seus seios e eles fazem parte integrante do seu corpo.
Dito isto, só lhe posso louvar a coragem por ter tomado essa decisão!
Porque eu, não sei se teria o mesmo "desprendimento" e não sei se conseguiria abdicar duma parte do meu corpo assim desta forma.
Ainda hoje, passados quase 18 anos da morte da minha mãe para um cancro de mama, que a corroeu lentamente e a fez definhar dolorosamente, degradar-se progressivamente física e e mentalmente diante dos meus olhos e dos do meu pai, não consigo equacionar sequer a hipótese de vir a herdar geneticamente a doença. Quanto mais equacionar uma tomada de medidas desta natureza...
Possivelmente, se fosse confrontada com as probabilidades estatísticas que a Angelina Jolie recebeu, faria exactamente a mesma coisa! Fá-lo-ia pelas mesmas razões que ela invocou: a probabilidade de prolongar a vida pelos seus filhos e quem sabe os netos. Foi uma decisão tomada por amor aos seus filhos e isso só revela o quão acertada foi.
Porque a doença é ruim, agressiva, um grandessíssima puta para quem dela padece.
Mas é igualmente ruim, agressiva e uma grandessíssima puta para quem ama a pessoa doente.
Porque nos tolhe, nos torna impotentes e nos confronta com uma profunda injustiça! E no fim de tudo, rouba-nos os sonhos, corrói-nos a esperança e alguma réstia de vontade de ser feliz...
Apesar de haver vida para além da doença, e felizmente a medicina tem registado avanços enormes que permitiram aumentar a taxa de sobrevivência em alguns tipos de cancro, quem perdeu alguém querido na batalha nunca mais será o mesmo. Fica com cicatrizes invisíveis, mas profundíssimas para todo o sempre! Sobrevive também, ultrapassa, racionaliza, vota algumas coisas ao esquecimento para poder continuar.
Mas as marcas ficam, para sempre!
Por isso, entendo que a Angelina tenha querido evitar que os filhos dela recebam as marcas que ela própria carrega em si, pela perda da sua mãe.
Algures no meio da luta da minha mãe, escrevi isto, num dos muitos momentos de desespero:
"Já desisti de querer casar-me e ter filhos. Não tenho amor nenhum
para lhes dar, porque no coração só tenho amargura e sofrimento. Assim
não magoo ninguém. Já não sei quem sou, já tinha poucos sonhos e agora não não tenho nenhuns."
Hoje leio isto e relativizo, porque há muito dramatismo infantil nele contido... vendo bem, eu estava em plena adolescência, que por si só, é um período conturbado da vida de qualquer um. Mas relativizo-o todos os dias de alguma forma, porque tive que o fazer! Porque não poderia deixar de o fazer! Porque seria profundamente injusto para com a memória da minha mãe... que lutou até aos últimos minutos, para sobreviver... por mim!























