31 de outubro de 2012

Para quê esperar?



Tal como há dias em que acordo com uma neura tremenda, hoje acordei com uma boa disposição de tal ordem que até pode chatear... nem o facto de ter vestido a camisola ao contrário e a máquina de café se ter "esquecido" de despejar o açúcar no copo me demoveram da minha alegria! Também há que dizer que ouvir o meu filho logo pela manhã dizer "gosto de ti, mamã!" ajuda imenso a este estado de bem-estar. Porque convenhamos, não há nada melhor para a nossa auto-estima do que isto...

Há já algum tempo que estava a começar a ficar fartinha de mim mesma por estar sempre a gastar as minhas energias a remoer no que não gostava na minha vida... mas eu não sou assim! Sempre fui optimista por natureza e quando entro numa de "deprê", parece que entro numa espiral que me leva a um buraco negro e sem fundo!
Cansei-me disso!

Ontem reencontrei uma antiga professora minha do ensino secundário, que não via há mais de 4 anos, e nos 15 minutos que estivemos à conversa, ela perguntou-me como tem sido a minha vida. E eu fui  debitando os tópicos habituais: família, emprego, casa, etc.
Quando me despedi dela, no caminho de regresso ao local de trabalho, de repente senti que a realidade me tinha acabado de dar uma chapada valente: tenho tudo aquilo que sempre quis, desejei e pelo qual lutei. Portanto, porque raio é que há sempre a tendência estúpida e desgastante de só pensar nas coisas que não prestam ou que gostamos menos na nossa vida!?
Haja paciência para me aturar a mim mesma nessas alturas...
Por isso, decidi mudar o disco!

30 de outubro de 2012

Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama



Hoje assinala-se o dia nacional da Prevenção do Cancro da Mama.
Esta foi a doença que "levou" a minha mãe. A doença que sempre me provoca um nervoso miudinho inexplicável.
Acabei de ouvir na rádio um médico dizer que o factor hereditariedade representa apenas 10% das causas prováveis para o surgimento da doença. 
Mas a hereditariedade será sempre uma espada invisível a pender sobre a minha cabeça.

Confesso que tenho uma postura um tanto ou quanto arrogante, costumo dizer que "um relâmpago nunca cai duas vezes no mesmo sítio", se acrescentarmos o facto de também o meu pai ter morrido às garras de um tumor maligno.

Maligno, essa palavra tenebrosa no meu vocabulário... cujo pendor negativo descobri aos 15 anos, escrito em letras pretas de máquina naquele papel A5 branco que vinha dobrado ao meio dentro do envelope azul do laboratório de radiologia, com os resultados da mamografia de urgência que a minha mãe fizera dois dias antes.

"Lesão tumoral maligna"... dizia algures pelo meio de dois parágrafos carregados de vocabulário técnico e médico. Aquelas três palavras conjugadas, juntas e encadeadas... fizeram o meu coração encolher como nunca até hoje e o meu mundo de menina ingénua e feliz caiu aos trambolhões pela força daquelas três pequenas palavras, tão fortes e tão pujantes.

Ainda hoje quando alguém me diz que lhe foi diagnosticado "cancro de mama", por mais que saiba que tanto se avançou em termos médicos e clínicos, não consigo afastar a sombra daquelas três palavras e uma última, a que ditou o desfecho final da história da minha mãe, morte!

Eu transmito palavras de esperança, porque apesar daquela sombra, quero acreditar que há muitas mulheres que conseguem alterar o desfecho final para "vida", porque ganharam a luta! Uma luta contra a doença, mas também contra si mesmas, porque é como se o próprio corpo estivesse em rebelião desmesurada e sem justificação contra si própria!

A todas as mulheres que lutam e lutaram contra o Cancro de Mama, a minha profunda admiração!

29 de outubro de 2012

Falipices #26 - És o meu herói

Uma destas noites, Falipe abraça-me com entusiasmo e diz-me:

- Mamã, és o meu herói!

Eu fiquei toda babada e com um sorriso de orelha a orelha.

Ele acrescenta:

- E o papá é o meu herói.

Eu achei que era mais que justo!

- E o Simão tamén, e a Júlia, e a Débora...

Ok, já percebi... quando a esmola é grande, o pobre desconfia!
Para mim, continuam a prevalecer as duas primeiras frases, pode ser?!

26 de outubro de 2012

Histórias diárias

Comecei a incutir o gosto pelos livros ao Falipe há já algum tempo.
Tornou-se prática diária ler-lhe duas histórias antes de ir dormir. Actualmente é mesmo um ritual do qual ele já não quer abdicar!

Ganhei o hábito de de tempos a tempos ir comprando um livro ou outro que lhe possa agradar. Gosto de lhe comprar histórias simples, mas divertidas.

Actualmente, estou a fazer a colecção dos livros do Pedro. Ele adora aquilo! E eu também, confesso. O pai também gosta, mas não se descai... e ele prefere mesmo que seja o pai a contar a história, porque ele faz vozes consoante o personagem.
São momentos como estes que espero que contribuam para que ele goste de ler, para que ele veja que os livros são um enorme tesouro, fonte de prazer, alegria e conhecimento sem fim.



25 de outubro de 2012

Olhar o mundo pelos teus olhos

Sentas-te no primeiro degrau do segundo lanço de escadas e apontas para a parede e dizes-me que carregaste no botão azul e por isso apareceu ali um ursinho azul. E olho para ti e apercebo-me da profundidade e sinceridade contidas na tua imaginação. Ao invés de assentir com a cabeça apenas em concordância, olho com mais atenção e faço a minha imaginação apurar-se e eis que vejo um ursinho azul. Vejo-o sorrir e confirmo contigo que é assim  mesmo. Dizes-me que ele está a fazer adeus e eu retribuo-lhe um aceno da mesma forma simpática.

Depois subimos o lanço de escadas e chegado ao cimo, carregas num botão imaginário, de cor verde. E entusiasticamente dizes que apareceu um campo de flores de todas as cores. E eu já não vejo o soalho flutuante em tons de carvalho, mas um campo florido, onde o sol espalha luz e alegria.

Tu imaginas um mundo brilhante e colorido e eu vejo-me de novo a sonhar, ao teu lado.
A tua imaginação voa sem limites e assim fazes com que a minha saia da gaiola em que se foi aprisionando com a idade adulta.


24 de outubro de 2012

Caminhos conhecidos

Há dias um colega de faculdade e grande amigo, dedicou-me esta música.
Estranhei tal facto, apesar de saber que ele tem sempre surpresas certeiras no que à música diz respeito.

Não precisei de muito tempo para perceber a razão da dedicatória.

Comecei a ver o vídeo e nele reconheci de imediato caminhos que tantas vezes percorri e que ainda hoje adoro percorrer. 
Os caminhos que me levam de volta às minhas raízes, aos meus antepassados, a bons momentos que passei.
Foi bom perceber que alguém os percorreu e viu neles a beleza que eu vejo e decidiu registá-los para a posteridade desta forma tão bonita e singela.

Descobri também que há muito bons músicos em terras lusas e que o que é nacional não é bom, é excelente!!

Obrigada, J., porque como sempre acertaste em cheio!


Vida (Meo)Editada

Aflige-me a publicidade excessiva.
Afligem-me os blocos publicitários cada vez mais longos, especialmente nos canais nacionais.
Aflige-me a onda de anúncios publicitários no início de vídeos no Youtube e no Sapo e noutros canais.
Afligem-me a ponto de ganhar uma urticária imaginária e há alguns anúnicios que primam tanto pela cretinice.
Aflige-me que para onde se olhe pululem placards publicitários a apregoar tanta treta desnecessária.
Aflige-me que as estações de rádio usem mais a antena para dar tempo aos patrocinadores de quem dependem como um cão esfomeado depende do dono que lhe traz a malga todos os dias, do que aquilo que a rádio foi feita.
Aflige-me como as celebridades e pessoas de bem se venderam a promover produtos e marcas, de uma forma quase servil...

Afligem-me a tal ponto que me deixam num estado semi-raivoso, em que o meu olho esquerdo começa a piscar num estertor de nervoso miudinho.
Por isso, sou cada vez mais fã de editar o que vejo na TV e gostava de poder estender esta funcionalidade a tantos quadrantes da minha vida. Em que pudesse gravar e ver mais tarde, passando sempre por cima da publicidade e do marketing agressivo em modo fast-fast-forward!

23 de outubro de 2012

Cartas ao Pequeno Princípe

A Tanita acertou em cheio na prenda que me enviou pelo meu aniversário.
E se sorri quando vi o que era e depois ao ler a sua missiva, carregada de amizade, mais sorri quando soube de imediato que destino dar a esta prenda. Obrigada querida amiga!

Decidi que este iria ser uma prenda minha, mas de mim para o meu filho.
Neste caderno tão simples e bonito pretendo escrever pequenas cartas e mensagens para um dia ele ler, quando e se quiser.
Porque foi quando ele estava na minha barriga que finalmente me decidi a ler esta história, tão linda. E guardo o livro para lhe oferecer quando ele o quiser ler e se sentir preparado para isso.


Falipices #25

Ao final do dia, depois de chegarmos a casa, sou acometida por uma crise estupida de tosse.

Falipe ralha comigo e diz-me:

- Mamã, estás a fazer muito barulho para os meus brinquedos! Assim, eles têm que tapar os ouvidos... não faças barulho!


22 de outubro de 2012

Morte em pequenas doses

Morre lentamente

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções, justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

Lê, relê e repete até à exaustão, para nunca esquecer aquilo que sempre consideraste importante, Naná!!!

20 de outubro de 2012

Amor é...

Ele pôr mais uma manta na cama, porque sabe que eu sou uma friorenta e tive frio na noite passada.

19 de outubro de 2012

O Caminho da Felicidade


Este é um dos melhores filmes que vi ao longo da minha vida. Despretensioso, realista, inspirador e uma grande lição.
Baseado na história de Chris Gardner, um homem que lutou por uma vida melhor, e conseguiu, mesmo contra todas as circunstâncias que não jogavam nada a favor dele.
Há tanto que se pode tirar deste filme e da história deste homem.
Do que é o amor verdadeiro por um filho.
Do que é não baixar os braços perante a adversidade e o pessimismo dos outros.
Do que é querer ser e fazer mais do que somos e fazemos.
De que ter um trabalho remunerado não significa que isso permita pagar uma casa e todas as despesas básicas, como comer e vestir. De que ter um emprego não impede alguém de vir a ser sem-abrigo. Algo que por estes dias começa a ser uma realidade bem presente no nosso país.
Fiquei tão impressionada com isto que fui pesquisar mais sobre este homem e perceber até que ponto a história era verídica ou ficcionada. Conclui que a realidade foi bem pior do que o retratado no filme.

17 de outubro de 2012

Diz que são fases...

tirado daqui
Juro que em certos dias consigo tornar-me tão complicada que até me irrito a mim mesma...
Questiono tudo até à mais ínfima partícula da essência. Duvido até da minha sombra...

Será que passa, se me sentar e esperar um pouco?

16 de outubro de 2012

Falipices #24

Estávamos ainda de férias.
Comprámos-lhe uns óculos de sol azuis, giríssimos.
Na noite em que ele os recebeu, estávamos a ver o "Cóben Óbaiem", quando o convidado especial, o Ziggy Marley começa a cantar esta canção em tributo ao pai.
Falipe arranca de perto da tv, vai buscar os óculos e coloca-os no rosto, e começa a gingar em frente à tv, num espectacular acto de "jammin".
Eu e o G. gargalhámos sonoramente perante tal demonstração de estilo (ou será que o meu filho tem mesmo jeito para palhacinho?)

Primeiro a perplexidade, depois a revolta

Quem teve esta brilhante ideia devia ser violentamente açoitado e deixado sem comida durante um mês!

Considerações de uma aniversário - revisão em imagens























15 de outubro de 2012

Considerações de um aniversário - revisão em palavras

Planeamos tudo de véspera, à boa maneira portuguesa.
Em parte, muito devido à minha falta de inspiração e até mesmo vontade em assinalar a data com grande estardalhaço.
A decisão estava entre ir passear fora de portas ou ficar em casa e fazer almoço/jantar com núcleo familiar. Optei pelo primeiro e ir laurear a pevide, já que sempre fui rapariga aventureira e com gosto por conhecer novas paragens desde que regresse sempre ao ponto de partida, eventualmente.
O destino foi escolhido sem grandes investigações: Évora.
Preparei o farnel e o Falipe, enquanto o mais que tudo punha umas horas de sono no corpo, depois de um turno.
O plano não era rígido, por isso rapidamente decidimos almoçar umas febras em Portel, do que umas sandocas em Beja.
Fomos atravessando a planície, pontilhada aqui e ali por nuvens negras de chuva a despejarem esgarrões de água.
As febras em Portel estavam boas e não foram muitos caras. Fizeram uma sopa para a minha sogra em cerca de 15 minutos. Era puré de feijão... mas estava gostosa, segundo os seus padrões de exigência.
Há cerca de uma dezena de viadutos inacabados a atravessar aquilo que creio que viria a ser o IP2, ligando estradas que não existem, porque a EP ficou sem fundos para prosseguir obras. Daqui por uns anos, serão "achados arqueológicos contemporâneos"...
As nuvens negras decidiram presentear-me com uma bela chuvada à chegada da cidade, enquanto eu tentava ver o Templo Romano.
As senhoras que trabalham na Sé de Évora são mesmo dadas à simpatia... só por isso não paguei 3.50€ por pessoa para ir conhecer o seu interior.
O Palácio do Cadaval é propriedade privada e por isso custa 5€/pessoa, para conhecer a igreja e o palácio.
A Capela dos Ossos é algo de assombroso e vale bem os 2€ de entrada mais 1€ para a permissão de fotografar. São 5 mil ossos ali, tão bem arrumadinhos! Um altar à nossa finitude, à mortalidade, não como algo macabro, mas sim como algo natural.
Acendi 6 velas na Igreja de S. Francisco de Assis, porque apenas tinha uma moeda de 50 cêntimos. Mas eu só queria acender duas... 
Sem qualquer planeamento entrei no jardim público ao lado do mercado municipal. O sol começou a dar o ar da sua graça! Encontrámos faisões azuis e verdes, em cima das sebes, nos parapeitos de uma janela e em cima das arcadas de um antigo palácio.
Falipe na sua curiosidade natural decidiu tentar apanhar uma cagadela de faisão e ficou todo borrado nas mãos... o pai stressou por cinco minutos, mas depois esqueceu-se disso!
Recebi telefonemas de pessoas queridas!
Fomos até ao Convento da Cartuxa, mas funciona em regime de clausura. Quem quiser entrar, deve tocar o sino. "A Cartuxa não se visita", dizia na placa à entrada.
Regressámos ao Algarve.
Os montes alentejanos solitários nas planícies que na viagem de ida me pareciam idílicos, agora pareciam demasiado isolados ao pôr do sol.
Às 20h decidi que queria comprar um bolo de aniversário e soprar as velas, de preferências às 22h10, hora a que nasci.
Fui comprar o bolo e as velas. O bolo era de brigadeiro. Comprei as velas grandes e gordas. Comprei camarão black tiger, que estava em promoção. Comprei uma garrafa de Migas Tinto.
Recebi sms e desejos de parabéns no Facebook!
Jantámos um petisco e as velas foram sopradas às 22h05, depois do meu filho me cantar os parabéns e me ajudar a soprar as velas gordas. Pedi um desejo!
O Falipe disse a rir que eu era "palhaça" e eu beijei-o ternamente a rir!
O G. beijou-me e a minha sogra abraçou-me enquanto me disse que me considerava uma filha.

Espero que o meu desejo se concretize!

Aos 34 anos sou uma mulher feliz! 
Tenho quase tudo aquilo que sempre desejei!

14 de outubro de 2012

14 Outubro 1978


tirado do Pinterest

Nasci eu, cinco minutos depois de um menino e dez minutos antes de outros dois meninos.
Eles berraram a noite toda, eu dormi placidamente a noite.

Venham os 34 anos, porque dos 33 já me estava a fartar...

12 de outubro de 2012

Memórias de um país podre

Daqui por uns largos anos vai ler-se nos manuais de história portuguesa que estes foram tempos de depressão e recessão económica, que eram tempos difíceis e que a classe média passou momentos difíceis.

Mas com certeza não se vai ler os pormenores, porque decerto tudo cairá no esquecimento...
Não se vai ler nos manuais de história portuguesa que:
- o FMI nos impôs uma austeridade profunda e passados 15 meses veio dizer levianamente que se enganou nos seus cálculos (a pilha da máquina de calcular devia estar já fraca...)
- que fomos empurrados para um pedido de resgate porque o Guterres nos dizia que "é só fazer as contas", apesar de ser engenheiro e no fundo ser incapaz de fazer cálculos importantes, porque o Durão Barroso que dizia que estávamos de tanga, assim que pôde se pôs na alheta e foi governar uma rica vida em Xelas (Bru-Xelas), que o Santana Lopes se sentiu como um irmão atazanado pelos irmãos mais velhos no berço, que o Sócrates nos contava histórias da carochinha mas no fundo era um Pinóquio que nos escondeu o buraco em que nos deixou e no fim demitiu-se qual menino mimado, vítima de bullying e emigrou para ir para Paris de França, para prosseguir estudos,
- que houve um Pedro Passos Coelho que fez exactamente o oposto de tudo quanto prometeu em época de campanha eleitoral e que roubou e depauperou todas as classes da sociedade portuguesa, desde os empregados por conta de outrem, públicos, privados, trabalhadores independentes, desempregados, reformados e pensionistas, protegendo a banca e todos os lobbys liderados por amiguinhos seus, não sem antes os mandar emigrar e chamar de piegas!
- que houve um Pedro Passos Coelho que foi levado ao colo para o lugar de primeiro-ministro pelo seu amigalhaço Miguel Relvas, assim como anos antes já arranjara maneira de favorecer a empresa onde o jovem promissor era consultor,
- que a justiça só é cega quanto toca a grandes grupos económicos, por isso levou 8 anos a julgar o Caso Casa Pia, ilibou o Sócrates em tudo quanto era processo de suspeitas de crimes de colarinho branco e corrupção; que a Fátinha Felgueiras nunca meteu a mão no saco azul e esteve a gozar umas belas férias no Brasil, fugida às garras da justiça, que o Adelino Ferreira Torres era homem idóneo e que nunca favoreceu ninguém em concursos públicos e ajustes directos; que o Valentão é um homem honestíssimo e que nem sequer roubou ninguém, e o Domingos Névoa e o Armando Vara eram pessoas de uma ética e honestidade intocáveis, que o condenado Isaltino pode seguir a vida governado placidamente como se tivesse sido absolvido,
- os Sócrates licenciaram-se ao domingo e os Relvas em ano e meio
- que há especialistas nos ministérios com apenas 25 anos, e que longe de nós pensarmos que foi por favorecimento político relacionado com uma certa militância nas juventudes politico-partidárias,
- que há mais cigarras (230 com lugar sentado no hemiciclo) que formigas, e que essas mesmas cigarras em vez de cantarem perdem tempo em debates inúteis apontando mutuamente defeitos ao ego alheio,
- que os senhores deputados têm torneios de golfe à borla, prenda dos contribuintes no orçamento da Assembleia da República, e que na cantina do Palácio de São Bento é que se come bem e gourmet,
- que os deputados da bancada rosinha não querem andar de Clio e não se contentam com menos que um Audi A5, porque têm umas nalgas demasiado sensíveis e a sua pele de bebé não se quer arriscar a ficar com calos por andar num utilitário da Renault, e cujo líder Seguro de si, apenas clama que quer mesmo ser primeiro ministro, para fazer o quê nem ele sabe bem...
- que o Presidente da República não dorme com a preocupação com tanta austeridade e vê a equidade pelas ruas da amargura, mas no fundo leva os dias a fazer ginástica orçamental para sobreviver com 10 mil euros mensais que lhe permitam pagar as despesas todas,
- que o Alberto João escondeu um buraco financeiro no orçamento regional e a culpa é do executivo, porque ele é um pobre inocente que gosta de descerrar faixas em inaugurações pela ilha,
- que há Borges que são uns seres dotados de iluminação suprema e que vieram ao mundo para ensinar umas lições de economia e gestão aos ignorantes dos empresários, esses analfabetos,
- que há ex-deputados suspeitos de fraude que se dizem pobrezinhos aos 47 anos e a precisar de pai-trocínios para chegar ao fim do mês;
- um Little Casper que só é criativo no que diz respeito ao aumento das receitas, mas tem bloqueio-de-autor quando se trata de descobrir formas de reduzir gorduras do estado sem que isso signifique mandar 40 ou 50 mil para a rua...
- um  Álvaro que acha que só pode erguer a economia e lançar a nação nos mercados com um franchise de pastéis de nata;
- que no último feriado assinalado do aniversário da República, o povo que a fez, ficou "desconvidado" na rua e assistiu incrédulo ao hastear da bandeira de patas ao ar,
- que o Portas adquiriu manhosamente uns quantos submarinos, que hão-de ser a salvação da nação quando estiver a ir ao fundo;
- que saúde e educação são áreas de despesismo e que a populaça não precisa, apesar de pagar impostos sobre impostos para adquirir o direito de lhes aceder,
- que as SCUTS querem dizer tudo menos "sem-custos-para-o-utilizador"
- que as parcerias-público-privadas são um buraco negro com um vórtice que lambe todos os dinheiros dos contribuintes à passagem e ninguém as quer enfrentar, e por isso assobiam para o lado, tal como fazem com o financiamento a fundações e institutos,
- que isso de concertação de preços no sector dos combustíveis é pura difamação, injúria e uma desculpa esfarrapada de quem é calão e não quer pagar o justo para andar de cu tremido a passear de carro,
- que não há um ex-ministro ou ex-secretário de Estado que não tenha já um cargo (ou dois ou três) de monta assegurado no mesmo sector que acabou de deixar de tutelar
- que os Soares dos Santos e os Belmiros emigraram figurativamente para a Holanda, porque os impostos lá são mais baratos

Tudo isto será resumido num chavão qualquer do género "foram anos de governação difícil marcados pela quebra de valores sociais, políticos e ideológicos".

Eu digo que o país está podre.
Eu digo que já não há gente na vida política com "espinha dorsal"!

Homens à beira dum ataque de nervos!

O Zézito Rodrigues dos Santos à beira dum melt-down.
Juro que consegui ver a pulsação cardíaca acelerada na carótida do ilustre jornalista!

Estou contigo Zézito!

11 de outubro de 2012

Vidas unidas

tirada daqui

Se acaso fossem vivos, os meus pais completariam hoje 43 anos de casados.
O casamento foi apenas pelo civil, apesar dos meus pais serem católicos convictos e praticantes.
Viveram em união plena apenas até celebrarem as bodas de prata, data em que eu comprei duas alianças de prata, uma para cada um, com dinheiro que fui juntando da minha semanada para esse propósito. Quis inclusivamente que eles celebrassem o seu 25.º ano de vida conjunta, fazendo finalmente o seu casamento na igreja, mas o meu pai foi peremptório: "se não casámos pela igreja na altura, não é agora que o vamos fazer!"
O senhor meu pai gabava-se orgulhosamente de nunca terem tido uma única discussão ou de terem levantado a voz um ao outro e eu confirmo, pelo menos na minha presença, nunca sucedeu.
O Sr. Abel dizia sempre que a minha mãe era uma santa. E era mesmo! A minha mãe era um poço de paciência, sensibilidade e sensatez a toda a prova e conseguia dar a volta ao meu pai e levá-lo a tomar as decisões que ela queria, sem que ele sequer percebesse que a tomada de decisão não partira originalmente dele. Ela conseguia levá-lo à certa, sem qualquer imposição, mas fazia-o pensar que ele é que era o decisor final, com apenas uma sugestão. 
Ah, quem me dera ter herdado esta característica da D. Vera!

Antes de morrer, a minha mãe teve uma conversa muito franca e directa com o meu pai e disse-lhe abertamente que o considerava livre para encontrar outra companheira após a morte dela, revelando o seu profundo amor por ele. Porque ele era um homem novo e ainda ia precisar de companhia durante a velhice. O meu pai cumpriu a promessa que lhe fez nesse dia quando lhe disse que jamais quereria ter outra companheira. 

Só 6 meses após a morte dela, um dia ele me revelou que além do desgosto de ter perdido quem realmente amava, com ela tinham ido todos os seus sonhos de velhice. Uma vida pacata na casa que era dos meus avós, a cuidar da horta e das galinhas.
E eu percebi ainda mais claramente que o amor do meu pai pela minha mãe era maior que o mundo!

Nunca os ouvi dizer um ao outro que se amavam, mas adorava vê-los beijarem-se carinhosamente de vez em quando. E eu sempre soube que se amavam! Porque se via na maneira como falavam um com outro, como se tratavam!

Creio que foi por ter visto o exemplo de vida a dois dos meus pais, que sempre soube que não quereria mais nada além do que uma relação afectiva assim. Onde imperava o respeito, a confiança, a cumplicidade e companheirismo. Onde se faziam cedências de parte a parte, onde havia diálogo.
Os meus pais são o exemplo que tomo para mim mesma, quando nós porventura temos um ou outro desentendimento ou divergência.
Às vezes, gostava de poder conversar com a minha mãe para lhe perguntar apenas duas coisas:
  • se ela foi feliz (apesar de em certa medida saber a resposta a isso)
  • se ela me pudesse aconselhar sobre a melhor forma de ser mais feliz no casamento, o que seria.
É bem possível que ela me desse uma resposta parecida àquela que eu própria já desenvolvi na minha mente e na minha parca e humilde sabedoria. Mas gostava de ver qual seria a sua resposta, isso gostava!

10 de outubro de 2012

Páginas escritas

A vontade e o desejo de regressar a tempos em que os meus escritos ficavam aqui.
Em que discorria sobre mim, o mundo o que me rodeia, as pessoas que nesse mundo habitam.
Em que exorcizava medos, receios e fantasmas e ganhava lucidez no meio do emaranhado que sempre foi a minha mente povoada por pensamentos sem fim.
Onde parece que encontro a clareza no rol de pensamentos que sucedem a velocidade estonteante.

É bom regressar à palavra escrita manualmente.
O pulsar do cérebro que se escoa nas mãos, segurando uma caneta que desliza veloz sobre as linhas certinhas do papel.

caderno forrado pela Maria Mariquitas

9 de outubro de 2012

Tempos idos que regressam

Tirei esta foto em 2008, na minha viagem a Barcelona.
Achei-a mesmo muito sugestiva, porque me recordava tempos antigos, da dureza da vida e das condições de trabalho.

Quando hoje ouço falar em austeridade, crise, impostos, desemprego, aumentos e cortes em tudo e mais alguma coisa, esta imagem assalta-me o pensamento. 
E encaixa na perfeição daquilo que é a nossa realidade quotidiana e a futura.


8 de outubro de 2012

Melissa inspired #3 mas ao contrário

A história parece um tanto inverosímil, mas eu romântica incurável assumida, vi neste filme muito mais do que o amor "um-num-milhão" entre uma estrela de cinema e um tipo normal, dono de uma livraria.
Acho que o filme tem momentos absolutamente deliciosos (como o jantar de aniversário em que eles decidem fazer um concurso para ver quem consegue ser mais patético para ganhar um muffin) e se nos esquecermos um pouco do romance entre as personagens encarnadas pela Julia Roberts e Hugh Grant, no filme há dois bons exemplos de que há relações amorosas lindas e muito simples.

E o que melhor ilustra isto de que falo é a cena em que eles entram no jardim de noite e encontram um banco com uma inscrição linda e que descreve perfeitamente a minha visão romântica de uma relação duradoura entre duas pessoas
 
"For June who loved this garden, from Joseph who always sat beside her" 



Constatações

Num momento em que a crise grassa no país em geral e no sector do turismo em particular, nunca o Algarve e Portugal ganharam tantos prémios de turismo como agora...

É sempre bom ver que somos reconhecidos por tanto que temos de bom para oferecer.
Esperemos que pelo menos estes prémios e galardões possam ajudar a que os cinquenta mil hotéis e spa resort's desta minha região não sejam edifícios vazios e sem utilidade alguma.

4 de outubro de 2012

Já uma pessoa não se pode ausentar...

do Pinterest por mais de um mês, que aquilo aparece agora pejado de imagens relacionadas com mulheres que perderam quilos atrás de quilos através de programas milagrosos!

Nem no Pinterest uma pessoa que tem uns bons 17 kgs a mais, como eu, está a salvo... chiça, pá!

Qualquer dia...

Só nos resta regressar a uma série de artes, saberes e ofícios dos tempos dos nossos pais e avós.
Comecei a criar uma horta caseira por curiosidade, carolice e até por alguma espécie de desafio a mim mesma, quis saber se seria capaz de o fazer e sempre dá jeito ter umas ervas aromáticas frescas e à mão para temperar melhor um qualquer refogado.
O facto é que consegui tirar alguns proventos das sementeiras, o que foi suficiente para me incutir o bichinho.  Agrada-me ver brotar da terra sementes ali depositadas, ver as folhas verdejando.
Creio que se não tivesse estado ausente por uma semana, teria mesmo tido a sorte de colher pimentos. Mas a falta de rega habitual deitou tudo a perder e o que a falta de água não estragou, os bicharocos da lagarta trataram de dar o remate final, devorando as folhas dos pobres pimenteiros...

Por isso, tudo cessa e tudo se recomeça.
Novas sementes lancei à terra dos vasos e canteiros.
Agora é aguardar.





3 de outubro de 2012

Little Casper falou e disse...

Aquilo que todos nós já estávamos à espera.

O sr. Abel, meu saudoso pai, usava uma expressão bastante apropriada:

"Não é m*rda, mas cagou o cão no caminho!"

Socializar por aí...

- Porque não estás nas aulas? Vejo-a todos os dias a passear.
- Oh! Não faço lá falta. Sou anti-social, parece. Não me misturo com os outros. É estranho. Porém, para mim, acho que sou muito social. Tudo depende do sentido que se dá à palavra, não acha? Ser social, para mim, é falar-lhe como lhe estou a falar, por exemplo, ou falar do estranho mundo em que vivemos. É agradável encontrarmo-nos com outras pessoas. Não vejo o que há de social em pôr uma quantidade de pessoas juntas para as impedir de falar. Não é da mesma opinião? Uma hora de aula televisada, uma hora de basquetebol, de basebol ou de corridas a pé, uma outra hora de transcrição de história ou de pintura e mais uma vez desportos mas, sabe, nunca ninguém faz perguntas ou, pelo menos, a maior parte de nós não as fazem; contentam-se em meter as respostas na cabeça, bing, bing, bing, e ficam sentados quatro horas seguidas perante filmes educativos. Isso nada tem de social, para mim. Faz-me lembrar um barril onde se deite por um lado água que torne a sair pelo outro e que depois nos digam que é vinho. Eles embrutecem-nos de tal forma que, ao fim do dia, apenas nos sentimos capazes de ir para a cama...”
    In Fahrenheit 451 de Ray Bradbury

2 de outubro de 2012

Futilidades

Depois de mais de um ano sem gastar dinheiro nisso, comprei uma mala para mim, prenda antecipada de aniversário (como sempre...)

Entrei numa livraria e tive que encolher-me para não trazer quatro ou cinco, porque compro à média de dois por mês...

1 de outubro de 2012

Recuso-me!

"Depois de ouvir esta notícia hoje de manhã, e de me recordar o que vivi há doze anos atrás, a conclusão a que chego é que eu sou culpada por parte do grande buraco orçamental.A minha mãe viveu três anos, quando não era expectável viver mais do que alguns meses, tendo feito nesse tempo alguns tratamentos experimentais caríssimos - que por acaso até a iam matando mais cedo - cirurgias, quimioterapias, radioterapias, etc etc etc.Fez tudo no IPO de Lisboa, consoante o proposto pelos médicos, sempre a contrariar expetativas e taxas de sobrevivência, sempre a mostrar que estava ali para lutar uma guerra e vencer batalha a batalha.Não venceu, mas conseguiu ver-me a definir o futuro com o homem que hoje é meu marido (e por quinze dias apenas não nos viu casar), viu o meu irmão prestes a concluir os seus estudos com distinção (mas foi poupada à sua perda, pelo menos isso) viu a minha irmã chegar aos treze anos (e treze é muito diferente de nove).Desculpem sim, por ter tido a minha mãe mais dois anos e meio do que previsto. Desculpem o que a presença dela nas nossas vidas custou ao estado. E perdoem pensar que a vida humana não tem preço e que o Serviço Nacional de Saúde devia ser cego a classes sociais e influências.Quem achar que isto é realmente uma medida equilibrada, tem dinheiro para pagar o que for preciso do seu bolso. Quem não achar que isto, mesmo podendo até parecer sensato no papel mas que, na realidade vai ter um efeito perverso, nunca passou por uma situação em que a sua vida ou a de alguém que ama dependa da decisão de outrém e não tem meios para se valer de outra forma."

A Costinhas escreveu este belíssimo texto, que transcrevo aqui parcialmente. 
No entanto, eu não sou tão boazinha como a Costinhas...
Recuso-me a pedir desculpas pela força de vontade que a minha mãe demonstrou ao longo dos longos dois anos e meio em que se recusou a deixar vencer por um maldito cancro que insistia em carcomê-la por dentro. 
Recuso-me a pedir desculpa pelas inúmeras consultas e pelos tratamentos todos de quimioterapia, pela mastectomia total e pelos 35 tratamentos de radioterapia feitos no IPOFG que atiraram a minha mãe para um poço de dores excruciantes e seis meses de noites completas (e dias) sem dormir, apesar dos 100 mg de morfina a cada 6h! Coisa que quem teve esta peregrina ideia de "racionar" nunca saberá o que é (apesar de eu desejar que o sentissem, nem que fosse só por uma semana...)
Recuso-me a pedir desculpa pelos dois meses e meio de internamento do meu pai nos cuidados intermédios de serviço de neurocirurgia do Hospital de S. José, em estado comatoso, ligado a não sei quantos fios e cabos e máquinas de ventilação assistida, após uma dificílima cirurgia de mais de 10h para remover um tumor na hipófise.

Recuso-me a pedir desculpa! Porque a minha mãe definhou lentamente até morrer, antes que eu pudesse terminar o 12.º ano e nunca me viu entrar na Universidade, o seu grande sonho!
Recuso-me a pedir desculpa! Porque o meu pai faleceu injectado de morfina e ligado a máquinas de suporte respiratório 17 dias antes do seu neto completar o 1.º aniversário, a quem amava mais mesmo que a mim!

Porque aqueles a quem sucede ter um cancro, seja em que parte do corpo for, já tem uma dura batalha pela frente, sem precisar que o Estado e gente sem ponta de sensibilidade ou humanismo, lhe venha dizer que não pode usufruir de todos os tratamentos disponíveis que o possam ajudar a vencer esta luta, porque houve uma série de cabrões que andaram a viver "acima das possibilidades" e preferiram salvar os bancos e não as pessoas!
Ah e recuso-me ainda mais a pedir desculpa porque eles, os meus pais pagaram todos os impostos que lhes incumbia e como tal ganharam o direito a ter todos os cuidados de saúde disponíveis!

Sombra da mortalidade

Vivemos a vida com a certeza maldita de que todos morremos. Mas esquecemos-nos de que a morte está sempre connosco, pairando.
Brincamos e não pensamos nela.
Na infância, a inocência domina e não começamos sequer a saber ou compreender o que ela representa.
Entramos na adolescência, amamos, somos amados e sofremos amores por corresponder. Vivemos a vida aborrecidos com ela ou porque temos acne e o profe é um chato e a mãe não compra a roupa de marca, e não nos deixa ir àquela festa super fixe, onde toda a gente popular vai. 
Incautos, ansiamos pela passagem rápida dos dias, queremos que a vida siga a passo acelerado, para atingirmos a maioridade e podermos fazer o que bem entendermos sem termos que nos cingir às vontades dos pais e demais adultos, que têm sempre uma palavra a dizer.
Depois crescemos mais um pouco, esforçamo-nos por estudar já a pensar no futuro profissional. Pensamos no rumo que queremos dar à nossa vida, sonhamos com uma carreira.
Fazemos viagens, planos de vida, saímos com os amigos, bebemos copos e divertimo-nos! Quiçá conhecemos o amor finalmente correspondido e construímos um lar, onde nascerá uma família. Assentamos arraiais e vamos progredindo na carreira (ou não...). E neste tempo nunca pensamos na morte. Não pensamos muito nela verdadeiramente, porque nos achamos no topo da montanha da vida e até temos uma visão arrogante e endeusada de nós mesmos, invencíveis conquistadores dos objectivos que delineamos, na busca suprema da felicidade.
Achamos que ela, a morte, não virá tão cedo. Achamos que o Acerto será décadas mais tarde.
Vamos vogando pela vida, somando conquistas, decepções, alegrias, tristezas, avanços e recuos. Vamos adquirindo alguma maturidade e tornamo-nos mais sábios e pacientes, passamos a tolerar umas coisas mais que outras...
Em todo esse tempo, mantemos ainda aquela imagem  de superioridade perante a mortalidade, como se fôssemos imunes e intocáveis. A mortalidade é algo que "só acontece aos outros"...
À medida que a idade avança e quando nos tornamos velhos decrépitos, desdentados e desmemoriados, encostados no apoio de uma bengala e com a coluna curvada perante o peso da idade e dos excessos e pecados cometidos contra o corpo, tirando-lhe juventude, começamos a perceber a sombra da mortalidade e vemos que ela andou sempre atrás de nós. Uns receiam-na, outros olham-na nos olhos e abraçam-na. Outros aceitam-na e desejam-na!

Não pensamos por um minuto que a doença maligna baterá à porta, muito antes da data que tínhamos imaginado. Não equacionamos que ela virá mais cedo e não mais tarde. Não pensamos que não vamos gozar os tempos desocupados da reforma, que não veremos os filhos crescer até encontrarem o amor, construírem um lar e formarem uma família, prolongamento da nossa.
Não equacionamos sequer que ainda que haja tanto para ver, conhecer, experimentar, sentir e saborear, teremos a perspectiva real e cruel da finitude da vida. Que teremos de explicar aos nossos filhos que poderemos ter que os deixar antes do previsto. Que o cancro é um bicharoco peçonhento e ruim que devasta tanto à sua passagem.
Não consideramos a hipótese de que a morte nos diga agora "é hora de ir e o tempo acabou"!! E aí lutamos, gritamos, choramos e pedimos ao desconhecido que diga que se enganou. Desejamos ansiosamente arrepiar caminho, atalhar percursos e correr meio mundo, em busca de tudo o que possamos viver de bom e que fomos sempre deixando para mais tarde, porque "havia tempo". Queremos ludibriar a morte, multiplicar o tempo disponível e agarrar a vida com unhas e dentes! Descobrimos que o poder do agora é o futuro e que vale ouro e diamantes. Todos os minutos contam! Mas nunca chegarão a ser suficientes, porque sabemos amargamente que estão a escassear à medida dum tique-taque muito mais acelerado... Muitos enfurecem-se e dão luta, saindo vitoriosos!
Marcas serão gravadas nos corações dos que amamos e que nos amam... Essas a morte exacerba e não apaga... Nunca!
 De súbito alguém ali mesmo ao nosso lado, descobre que o relógio acelerou avassaladoramente e reminiscências surgem, qual turbilhão de recordações de momentos pelos quais passámos, há demasiado tempo! E que decidíramos deixar adormecidas no fundo do nosso subconsciente, aprisionadas no baú de vivências que não queremos que nos definam, para não nos tolher os movimentos e as ambições!
E revemos tanto na nossa vida... Para o passado e para o futuro!