Não vivi nos tempos da ditadura, por isso não sei como foi...
Os meus pais viveram mais de metade das suas vidas durante o regime salazarista, mas o meu pai costumava dizer que nas zonas mais "interiores" o jugo do autoritarismo não se sentia tanto.
Mas sentia-se a miséria e, em muitas casas a escassez e mesmo a fome, um pouco o que sucedia na casa dos meus avós paternos. Na casa dos avós maternos havia mais abundância porque eram pessoas ditas ricas e os campos sempre deram frutos suficientes.
Os meus pais falavam pouco dos tempos do fascismo e nunca houve grande comemoração em torno do 25 de Abril e do que isso trouxe.
Na escola, nunca aprendi propriamente os factos históricos da revolução como aconteceu com outras épocas históricas, isto porque quando o ano lectivo estava prestes a terminar era quando finalmente abríamos o capítulo do manual de história relativo à história contemporânea de Portugal. Talvez por isso, tenha dificuldade em acertar factos e personalidades dos tempos de ditadura...
Quando se falava da ditadura e do fascismo em casa, eu ia registando o que meus pais iam dizendo e somando tudo isso, cada dia posso concluir mais firmemente que teria sido muito infeliz se tivesse vivido nesse tempo.
Num tempo em que havia censura, em que não tínhamos liberdade de dizer o que pensávamos, especialmente se isso contrariasse os princípios do regime.
Num tempo em que não haviam eleições e ninguém era livre de votar ou se pronunciar sobre os destinos da nação...
Num tempo em que a mulher perfeita era invariavelmente a que era submissa e se subjugava à vontade do pai, do irmão ou do marido.
Num tempo em que às mulheres era vedado o uso de calças em público, entre outras coisas...
Nos tempos em que cá se passava fome, porque as colheitas da terra eram obrigatoriamente entregues ao Estado Novo, para ser despachado para o "esforço de guerra", o sabão, o açúcar e o sal eram racionados ou então apenas adquiridos com muito risco no mercado negro.
Num tempo em que quem tivesse um vizinho mais invejoso e pejado de malícia poderia facilmente ser denunciado à PIDE e eram levados sem apelo nem agravo para o posto/esquadra ou para a prisão e poderiam ser torturados sem que houvesse acusação formal, por tempo indeterminado...
Num tempo em que quem tinha convicções políticas diferentes das do regime era torturado ou forçado a emigrar ou a viver clandestinamente... isto quando não eram exilados e obrigados a viver longe da sua família.
Num tempo em que jovens rapazes, na flor da sua juventude acabada de entrar na maioridade, eram despachados para a guerra colonial, para combater nem sabiam bem o quê ou em nome de quem...
Se hoje se vive em liberdade e em democracia, como era o objectivo dos Capitães de Abril?
Isso depende do que se entende por democracia, que a meu ver está cada dia mais decadente, moribunda e em algumas áreas mesmo putrefacta...
Mas ao menos pode dizer-se que se vive em liberdade, mesmo que relativa, porque podemos falar aberta e livremente sobre o que pensamos, a nível social e político, sem medos, sem receios de sermos recolhidos por qualquer força policial para sermos sovados enquanto lhes aprouver...
Porque hoje a mulher foi conquistando um papel cada vez mais significativo em vários quadrantes deste nosso país desorientado e mal governado... e eu sei do que falo, porque afinal das contas trabalhei oito anos num mundo eminentemente masculino e onde dificilmente uma mulher entraria, quanto mais para trabalhar.
Por todos estes factos, posso dizer que cada vez mais encontro significado e valorizo mais a revolução que ocorreu em 25 de Abril de 1974.
Mas ainda há um longo caminho a percorrer neste país à beira mar plantado, especialmente no que diz respeito à educação cívica e à responsabilização política dos nossos gestores e governantes.
Além disso, valorizo a liberdade um pouco também porque posso usar saias apenas e só quando me apetecer!